Paulinho da Viola
Viola inspirada
Aos 55 anos, ele é um artista singular. Faz do samba uma obra de arte absolutamente universal. Suas composições e letras, suas interpretações inspiradas de sambas antológicos tornam seu repertório um clássico. Nesta entrevista ao Extra Classe, em sua casa no Rio de Janeiro, às vésperas de realizar, em Porto Alegre, o show comemorativo aos 60 anos do Sinpro/RS, ele comentou sua trajetória, contou histórias e o jeito de ser do brasileiro Paulo César Baptista Faria, da Viola, é claro.
Marcelo Mena Barreto
É possível até discutir se
Paulo César é nome de sambista ou não. O certo é que Paulo César Baptista de Faria, o
Paulinho da Viola, há muito é considerado uma das mais perfeitas encarnações do mais
brasileiro de todos os ritmos e uma sólida referência da música popular. O que não é
para menos. Seu trabalho incorpora a sofisticação harmônica da Bossa Nova, a riqueza
melódica do choro (gênero essencialmente instrumental, que está para o Brasil como o
jazz para os Estados Unidos), e a síncope incomparável do samba. Associada, a
princípio, ao universo das escolas de samba do Rio, a obra de Paulinho gradualmente foi
se impondo como muito mais diversa e sofisticada. Sua arte expressa com originalidade, a
fusão de escolas e épocas. Paulinho da Viola é tradição e é vanguarda - e uma
espécie de ponte entre ambas. Nascido no bairro do Botafogo, Rio de Janeiro, Paulinho da
Viola tem, aos 55 anos, um número expressivo de composições que conquistaram o
coração do povo brasileiro e são cantadas de norte a sul do país, acima das modas e
circunstâncias. São canções como Sinal fechado, Coisas do mundo minha nega, O recado,
Sei lá Mangueira e Foi um rio que passou em minha vida, que marcados pela sua
popularidade e sofistificação, renderam ao artista o título de o Príncipe da Música
Popular Brasileira, como é saudado pelo público e pela crítica. O editor de Extra
Classe, Marcelo Mena Barreto, foi conferir a pessoa que está atrás de tanto sucesso.
Recebido com cortesia no belo apartamento de Paulinho da Viola, na Barra da Tijuca, Rio de
Janeiro, encontrou um artista complexo, elegante, mas "sem afetações", que
relatou suas impressões de vida e relembrou com carinho os velhos mestres.
Extra Classe - Pixinguinha e o choro em geral, a tradição do samba carioca são influências que sobressaem no seu trabalho. Como você sintetizaria essas influências e como surgiu o compositor Paulinho da Viola?
EC - Como é mesmo a história do Zé
Kéti dizer que Paulo César não era nome de sambista e, ao lado do jornalista Sérgio
Cabral, ter criado o nome Paulinho da Viola?
PV - A primeira gravação que eu participei foi ao lado do Zé Kéti, que tinha
criado um conjunto chamado A Voz do Morro. Ele nos convidou, a mim e ao Elton Medeiros,
para fazer um grupo e deixar algumas músicas na gravadora Musidisc, para os cantores
ouvirem. Nós fizemos um grupo, ensaiamos e fomos deixar nossas músicas lá. O violinista
Luiz Bittencourt ouviu e disse que poderíamos fazer um grupo e nós mesmos gravarmos as
músicas. Daí surgiu o conjunto A Voz do Morro, que chegou a fazer três discos. Dois na
Musidisc e um na RGE. Durante as gravações, o técnico perguntava: "de quem é esta
música?" Na minha vez, quando ele perguntou de quem era a música e eu disse que era
minha, ele perguntou: "mas como é o seu nome? Eu preciso anotar aqui". Aí eu
disse: Paulo César. Começou então a brincadeira: "Não, Paulo César não é nome
de sambista". Depois, no começo de tudo, quando ninguém me conhecia, eu vi uma nota
num jornal que, tenho quase certeza, foi escrita pelo Sérgio Cabral, numa coluna que ele
escrevia sobre música popular, apareceu pela primeira vez este nome, Paulinho da Viola.
Isso foi coisa mesmo do Zé Kéti e do Sérgio Cabral.
EC - Já que você falou da
importância de seu pai na sua formação, é verdade que César Faria não permitia que o
Paulinho da Viola ouvisse música estrangeira?
PV - Não! Não é verdade. Música estrangeira era uma coisa que a gente não
ouvia muito, mas ouvíamos sim. Lembro que meu pai, mesmo não sendo de comprar discos de
música americana, ganhava muita coisa e até tinha músicas de jazz. Ele tinha um disco
da Ella Fitzgerald chamado Cow cow boogie, que ela gravou com um conjunto muito famoso na
época, chamado Ink Spots. A gente ouvia muito este disco e fiquei muito triste quando ele
apareceu quebrado. Perdi o disco e fiquei louco para saber aonde eu poderia encontrar.
Acabei encontrando um CD - foi feita uma coletânea com muitas músicas dela - que tinha a
música Cow cow boogie.
EC - A fonte desta afirmação é o
crítico Tárik de Souza. A teoria dele é que esta proibição, de certa forma, fez com
que você reformasse o velho ritmo do samba, sem recorrer à influência direta do jazz,
blues e do rock.
PV - (risos) Não, não. Meu pai não proibia. É evidente que se nós tínhamos,
por exemplo, um disco da Ella Fitzgerald, um do Glenn Miller, um do Sinatra, tínhamos
cem, duzentos de música brasileira.
EC - Você, com certeza, deve guardar
uma boa recordação do dia em que o Cartola lançou As rosas não falam num programa seu.
PV - É verdade. Foi um programa chamado Samba se aprende na escola, em que eu
entrevistava sambistas na TV Cultura de São Paulo. Neste dia, nós estávamos muito
eufóricos, muito felizes porque era o Cartola o convidado. Estava todo mundo assim:
"pô o Cartola, o Cartola". Daí ele disse: "eu quero mostrar uma música
que eu acabei de fazer" e cantou As Rosas Não Falam.
EC - No momento você teve aquele
estalo, isso vai ser um clássico?
PV - Não. Naquele momento eu me lembro que todo mundo ficou comovido. A equipe,
os técnicos, os diretores. Eu fiquei perplexo quando ouvi esta música. E nunca tinha
cantado ela, só vim cantar esta música há um ano atrás quando coloquei no show
Bebadachama.
EC - E por que isso?
PV - Não sei. Toda vez que ouvia a música, eu lembrava muito deste dia e achava
que eu não ia cantar bem esta música.
EC - Eu Canto Samba é um disco que
surgiu depois de cinco anos sem discos. Mais oito se passaram até o Bebadosamba. Sem
modéstias, você não acha que tanto tempo sem gravar, para um artista como você, não
é muito? Como você avalia esta questão da indústria fonográfica?
PV - Não, não. Eu não posso colocar a culpa no pessoal da gravadora.
EC - E na indústria?
PV - Não. No meu caso eu não posso fazer isso, porque depois do Eu Canto Samba,
mesmo antes, eu tive muitas propostas para gravar e não quis. Não queria forçar nenhuma
barra. Estava viajando muito para o exterior naquela fase, em 85, 86. Eu também não
queria porque eu não sou um compositor de compor todos os dias, às vezes eu levo muito
tempo até sem tocar.
EC - Você não esta querendo ser um
Caymmi carioca?
PV - Olha (risos), eu não sou um Caymmi carioca não, mas eu sou assim, sempre
fui assim. Durante muitos anos eu gravei todo ano. O tempo que eu estive na Odeon, que
começou em 68 e acabou em 80, eu gravei 11 discos. Teve ano de eu gravar dois discos - em
71 e 76. Quando eu fiz Eu Canto Samba, dois anos depois, o pessoal já disse "e aí
Paulinho, quer fazer outro?". Eu já tinha escrito algumas músicas, mas não tinha
algo que me pegasse. Este é o meu comportamento, não gosto de forçar nada. É difícil
traduzir isso, mas eu não sei, por exemplo, juntar 12 músicas e gravar. Não faço
assim. Tanto que gravo muitas vezes e mexo dentro do estúdio, faço música dentro do
estúdio, mudo a música, troco letra. O meu trabalho é muito de momento.
Às vezes, quando fica pronto, eu ainda digo "puxa, mas não era isso que eu queria" e como gravou me dá uma raiva. Entre o Eu Canto Samba e o Bebadosamba recebi vários convites. Entre 88 e 96 marquei e desmarquei várias vezes estúdio. Eu dizia para o diretor: "olha, desmarca porque eu acho que estou forçando uma coisa e não quero."
EC - Você está ciente que agora teus
fãs vão passar a te culpar no lugar da indústria fonográfica?
PV - É, estou ciente disso (risos). Já me falaram isso várias vezes, mas sou
assim. Daqui a pouco, no ano que vem, eu estou fazendo outro disco, entendeu? Pode
acontecer isso.
EC - Qual é a sua posição sobre a
onda do pagode?
PV - Olha, tem algumas coisas que eu gosto muito, que eu ouço e me divirto
muito.
EC - O que, por exemplo?
PV - Eu já dei uma declaração sobre isso... E como recebi gente me cobrando
(risos)! Eu disse que achava o Tchan muito legal e ainda brinquei: "olha, se vocês
fecharem os olhos", para dizer que se ouvirem o Tchan, as pessoas vão ver que ali
dentro tem o velho samba de roda baiano, com aquelas coisas sacanas, com duplo sentido,
que é uma coisa muito comum na música popular.
EC - Esse fechar os olhos é para não
ver a Carla Perez e a Sheila?
PV - É (risos), eu falei isso de brincadeira.
EC - Você foi cobrado por gostar do
Tchan?
PV - Algumas pessoas me cobraram.
EC - Mas no estilo patrulha? Ainda tem
isso?
PV - Tem, claro que tem. Tem gente que não gosta, né? Mas isso aí não é tão
importante assim. Para mim é chato dizer que isso é ruim, que aquilo não presta. Eu
não gosto de falar estas coisas. Não é por aí. Aquilo que não me toca eu não ouço,
nem fico insistindo. Não tem porque ficar dizendo que isso é comercial. Eu não faço
este tipo de julgamento. Se gosto de uma coisa, eu gosto, acho legal, eu ouço. Eu
reconheço, por exemplo, especialmente no grupo do Tchan, que eles têm um ritmo muito
contagiante. É muito difícil você ouvir o Tchan e não se sensibilizar. É natural as
pessoas saírem dançando, sambando.
EC - E esta história de ralar o Tchan
e tudo o mais?
PV - Apesar de reconhecer que este negócio de umbigada e música com duplo
sentido é muito da cultura popular, especialmente da cultura popular baiana, eu acho que
em alguns momentos esta coisa extrapola e, evidentemente, cai na banalização de uma
questão delicada que é a questão do sexo. Entra num nível de pornografia, de
banalização através da televisão, nada saudável. Aliás, na banalização de qualquer
coisa, eu acho que nada é saudável.
EC - Como você vê o momento
atual do Choro e do Samba na MPB?
PV - Olha, não é uma pergunta muito simples de responder. O samba e o choro
têm vitalidade. Já demonstraram que, mesmo não estando ou estando na mídia, eles têm
o seu público, que é um público que está presente e não deixa esta coisa desaparecer,
senão já tinha desaparecido. São inúmeros os grupos de choro que gravam, de jovens que
se envolvem com o choro e música instrumental e inúmeros, que ninguém conhece, que
também fazem o seu samba. O que sinto quando participo de rodas ou vou a alguma
apresentação é esse sentimento que é muito forte. Você vê jovens! Eu me surpreendi
muito de fazer o Bebadosamba no Canecão e ver a quantidade de jovens presente.
EC - Você disse uma vez que o samba
sofreu e sofre preconceito até hoje. E muitas pessoas ainda não compreendem que ele é
matriz de um universo riquíssimo da história de um povo se formando, de um povo se
afirmando.
PV - É verdade. Reafirmo isso.
EC - Pode explicar melhor?
PV - Isso não é simples de explicar. Eu vivo dentro do samba há muitos anos e
têm determinadas coisas que me tocam de uma maneira, como tocam as pessoas daquele
universo que estão ali, que fica difícil traduzir com palavras. Algumas vezes, as
pessoas percebem isso quando desfilam até numa escola de samba. E eu vejo o comportamento
delas. Mas eu falo de um outro que eu vivi, que está dentro das quadras, nos morros,
dentro das rodas de samba mesmo, com os sambistas, com os compositores, o seu cotidiano
neste universo. E isso eu não sei descrever com palavras, não sou escritor. Mas o
problema é o seguinte: Os preconceitos são enormes, são vários. Quando eu falo isso,
é porque eu já percebi muitas vezes. O nosso povo vem lutando contra, mas isso não é
uma coisa para ser resolvida em um ou dois anos e sim em várias gerações. E assim
mesmo, eu não sei se vai acabar com todos os preconceitos. Você acaba com uns e cria
outros, porque há diferenças e quando há diferenças é natural que surjam
preconceitos. A função do homem é, dentro da diferença, entendeu, na cultura, lutar
contra eles. Mostrar que as diferenças podem criar uma dinâmica melhor para todos e não
um rompimento, um afastamento.
EC - Alguns nomes do samba como
Martinho da Vila e Bezerra da Silva têm um trabalho, digamos, mais popular. Você é
quase um sambista cult, admirado por um público classe média, média alta. Como vê
isso, concorda?
PV - Não. Não concordo. Já cansei de fazer show em praça pública, teatro,
cinema, circo e sinto que não é bem assim. Eu sinto que meu público tem um certo
ecletismo sim, há uma mistura, mas é gente do povo mesmo. Não é específico de uma
classe.
EC - Você já se sentiu lesado em
seus direitos autorais?
PV - Eu não fiz em 70 um samba chamado Foi um Rio Que Passou Em Minha Vida, que
tocou no Brasil todo? Foi a música mais tocada no carnaval, junto com Bandeira Branca.
Todo mundo sabe disso. Naquele ano, se você visse a prestação de contas do meu disco
você ia dar gargalhadas. Eu não lembro dos valores da época, mas foi uma coisa tão
irrisória, que o sujeito que veio prestar contas me pediu desculpas e disse: "olha,
no ano que vem vai ser melhor".
EC - E isso continua acontecendo?
PV - Isso aí é uma coisa muito delicada. Eu já falei sobre isso, já comentei.
É uma coisa de uma complexidade... A minha opinião é: não acho que a gente tem de
acabar com o Ecade, acho que a gente tem de criar uma estrutura melhor para que todos
possam receber melhor e com mais transparência. É só isso.
EC - Você foi um dos primeiros
grandes compositores a expressar em suas músicas preocupações ecológicas...
PV - Amor a Natureza, em 75.
EC - Como esta questão bateu em
você, para sair soltando o verbo através desta música?
PV - Na época, se falava muito de especulação imobiliária, de selvas de pedra
e havia uma preocupação com o desmatamento da Floresta da Tijuca. Estavam cortando
muitas árvores e a cidade (Rio de Janeiro) estava se descaracterizando. Esta música veio
muito daí. É importante lembrar que naquela época qualquer coisa que contestasse alguma
coisa era censurada e, então, já se fazia uma coisa com duplo sentido também. Mas ali
era uma coisa clara, falei de uma coisa concreta, objetiva, que é a minha preocupação
com a transformação da cidade. Propositadamente, Amor a Natureza tem uma forma de samba
enredo. É muito comum compositores de escolas de samba exaltando o Rio, pois bem, eu fiz
à minha maneira um protesto em forma de samba enredo.
EC - Aproveitando que você falou da
história do duplo sentindo, nesta mesma época, da ditadura, surgiu a música Sinal
Fechado (1969), que difere um pouco no contexto da sua obra. Como ela nasceu?
PV - Esta música, como grande parte das que eu fiz, veio como um filme, como
imagens que se sucedem muito confusas e vão se alternando, vão mudando de lugar. Recordo
duas coisas quando eu comecei a fazer esta música. Uma era sobre uma pessoa que eu nunca
mais vi, que eu conheci em Recife, que depois encontrei no Rio de Janeiro. Era uma pessoa
que passava nos lugares e em vez de parar e falar comigo, sempre passava rápido e dizia:
"eu tenho uma coisa pra te falar"...e nunca falava nada, estou esperando até
hoje. Encontrei esta pessoa em vários lugares, bares... me parece que era uma pessoa que
tinha certos compromissos, que não podia estar aparecendo muito na época. Isso foi uma
coisa. A outra foi uma enorme tensão das pessoas, a preocupação delas. O que está
muito claro nesta música é uma certa tensão, que é criada na própria estrutura, na
harmonia. Como uma coisa de que as pessoas iam falar e não falam. Uma imagem que veio
muito forte, como se eu tivesse tido um sonho, quando eu estava trabalhando nesta letra,
era a seguinte: Parou um ônibus e eu estava no ponto. Entrei, tinha uma pessoa na frente
que eu conhecia, que eu queria falar com ela, mas não podia porque o ônibus estava
cheio. Eu fazia sinais, gestos, mas a pessoa descia, o ônibus saia, e eu ficava dando
adeus, não conseguia falar. Esta foi a primeira idéia que ficou muito forte na minha
cabeça, como imagem para a construção da estrutura da letra. Depois apareceu a coisa do
sinal, a idéia do sinal como um elemento simbólico de algo que está fechado, que não
deixa. É a velha história da contradição, do querer partir, do querer sair, falar e
não poder, porque o sinal está fechado e pode abrir a qualquer momento. Algum tempo
depois, as pessoas me procuravam e, em entrevistas, perguntavam se eu havia feito esta
música conscientemente... para aquela época que estávamos vivendo. Na realidade, foi um
mecanismo inconsciente que me levou a fazer esta música.
EC - Você foi um dos responsáveis
pela redescoberta de Lupicínio Rodrigues, gravando Nervos de Aço no início dos anos 70.
O que você acha da obra dele?
PV - Eu só vou contar uma história: tenho uma filha que hoje está com 32 anos,
chama-se Eliane. Um dia, quando mocinha, ela chegou para mim e disse: "papai, eu não
sei porque, sou apaixonada pelo Lupicínio Rodrigues". Pronto, acho que isso já
explica tudo: uma jovem, daqui do Rio de Janeiro, criada no meio de outras meninas, nos
bailinhos, curtindo os hits da moda, de repente se vira para mim e diz isso. Ela não
sabia dizer porque, nem eu, mas eu acho que a música dele é muito forte, é uma música
que toca, sensibiliza pessoas de várias idades, que fala para as pessoas indistintamente
o que elas querem ouvir e as toca. É isso.
EC - Durante a entrevista você fez
muitas referências aos velhos mestres, o próprio disco Bebadachama é uma grande
homenagem a eles. Falou também, com muito carinho, da influência sobre o seu trabalho.
Você não teme ser rotulado de saudosista?
PV - Não, já falei isso várias vezes. Eu não tenho saudade de nada.
EC - Isso dá para fazer um belo
samba...
PV - Eu li uma vez, em algum lugar, que o falecido Renato Russo disse que gostava
dos poetas irlandeses de não sei qual século. Poxa, que maravilha! Então porque eu não
posso gostar de Pixinguinha dos anos 30? O que tem isso de saudosismo? Nada. Eu pouco
conheci Pixinguinha. Não é saudade, não é nostalgia, não é nada. Se eu fosse um
saudosista, não gostaria da música que os Paralamas fazem, por exemplo. Não ia gostar
do Zeca Pagodinho, do Martinho, do João Nogueira. Ia só gostar de sambistas dos anos 30,
40. Ia dizer: "ah, aquilo lá que é música!". Eu nunca falei isso, nunca usei
o termo samba autêntico. Eu não sou saudosista, vivo um tempo, um espaço, um ritmo que
é meu. E tenho muita consciência de que o tempo não volta, de que a gente não volta
para trás. Nem quero que volte. A vida é uma coisa que se multiplica e vai para frente,
o que não quer dizer que muitas vezes ela vai melhor, que o que se cria é melhor do que
já se criou. Eu não acredito que exista uma evolução em arte, em obra de arte. Existe
uma história, uma dinâmica. Há obras feitas há duzentos, quatrocentos anos que deixam
todo mundo sensibilizado. Não há evolução, existe uma história.