O pão nosso de cada dia
Com
a nova realidade do mercado de trabalho, as pessoas com ou sem qualificação encontram
cada vez mais dificuldade para ganhar o dinheiro que permitirá a sobrevivência digna no
final de cada mês. Para celebrar o Dia do Trabalhador, o Extra Classe foi ouvir
histórias de gente como o agrônomo Gérson Antoniazzi, que tem de vender água mineral
para viver
MARCIA CAMARANO
"Cortar o cabelo, cortar o cabelôôô!", diz o primeiro entregador de papelzinho em meio ao burburinho da rua Voluntários da Pátria, centro de Porto Alegre. O segundo completa a oferta: "é dois real o corte de cabelô". Ninguém tem tempo de contar quantas vezes é interrompido em sua caminhada, mas se alguém se desse ao trabalho iria se surpreender. Conforme o itinerário, nas ruas mais movimentadas é difícil dar dez passos sem ser abordado por algum distribuidor de propaganda, desde o corte de cabelô, passando por fotografia "a três real, moça!", ofertas de grandes lojas de artigos populares, venda de terrenos, promoções das mais diversas que possam render algum trocado.
Além deles, há os vendedores de qualquer coisa, como cigarro contrabandeado, vale-transporte, teletubbies de borracha. E quando a pessoa pensa que se livrou das interpelações ao entrar num ônibus, assiste ao entra-e-sai de portadores de deficiências, vendedores de balas e mesmo malandros eventuais vendendo alguma coisa ou simplesmente pedindo dinheiro. Para muita gente, essas abordagens são uma grande chateação. Mas para quem aborda, é a única forma de levar dinheiro para casa.
A maioria sabe que o nome desse trabalho é bico e se iludem achando que a fase é temporária, "até encontrar coisa melhor", como dizem Jorge Adão Grippa, ex-porteiro de condomínio, hoje distribuindo material de propaganda na Rua da Praia, e Celionara Ramires Maldonado, vendedora de cigarros contrabandeados. Grippa embolsa R$ 7 por dia se conseguir distribuir os mil panfletos que a empresa lhe dá. Celionara, nos períodos de venda boa, leva R$ 10 limpinhos para casa. Mas isso se trabalhar até às 23h.
Ambos não têm qualquer especialização profissional, estão excluídos do mercado formal de trabalho, mas acalentam o sonho de um dia fazerem parte da seleta camada de trabalhadores com direitos assegurados em carteira. Não sabem que, daqui para a frente, dificilmente conseguirão coisa melhor.
Há, entretanto, os que mesmo com formação profissional e currículo impecável também foram expulsos do mundo do trabalho. Pior, sabem que pela idade ou estreitamento de mercado, só um milagre fará com que retomem suas profissões. É o caso da técnica em contabilidade Vanda Cerutti, que hoje faz faxina por absoluta falta de colocação profissional.
Formada em Contabilidade em 1980, ela passou boa parte da vida dedicada às contas e outros setores nos bancos por onde passou ao longo de 18 anos de vida profissional. Em 1994, com a demissão em massa na categoria, Vanda teve de se virar para sustentar os filhos de nove e quatro anos com o marido. "Não tenho vergonha do que faço, pois vergonha é não pagar as contas no fim do mês", diz.
E quem não tem na família, em plena virada do milênio, alguém desempregado? "Temos hoje a taxa de desemprego mais elevada do país, sem precedentes em toda nossa história", explica o professor da área de Economia do Trabalho na Unicamp (Universidade de Campinas), Jorge Matoso.
O economista e professor da Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Flávio Fligenspan ressalva que o desemprego hoje é um problema mundial. "Mas em países que crescem pouco economicamente como o Brasil o caso se agrava porque fica a impressão de que emprego é artigo de luxo", argumenta. Ou seja, trabalhador que possui carteira assinada é um felizardo, um ser em extinção.
Ele fala inglês, francês e russo O peso da falta de trabalho acertou em cheio o agrônomo Gerson Henrique Antoniazzi. Em 1982, ele saiu feliz da vida da Universidade de Passo Fundo com seu diploma embaixo do braço e, não satisfeito com isso, resolveu estender seus conhecimentos para línguas estrangeiras. Aprendeu inglês, francês e estudou russo. Quase 17 anos depois, 42 anos de idade, Gerson não consegue sustentar a família. Casado, pai de três filhos, com ele também moram a sogra, a avó da mulher e um cunhado, também desempregado.O único dinheiro certo para as oito pessoas da casa é garantido por dona Julieta, 81 anos, funcionária pública federal aposentada. Gerson depende da venda de garrafões de água mineral, um negócio que mantém com a sogra, Maria Sílvia. "Vendemos de manhã para ter o que comer à tarde", diz ela. É até irônico um país com tantas carências como o Brasil prescindir de alguém com um currículo como o de Gérson, que também já deu aulas particulares de Matemática e Física, mas parou por falta de alunos (ou de dinheiro dos pais para pagar as aulas). "Faço uns bicos por aí, para ajudar no orçamento", diz ele. Entre essas ocupações, ele eventualmente cuida do bar de um amigo por R$ 20 o dia. Gerson vem de uma família de classe média. Os irmãos são todos formados, o pai tem uma fazenda no interior do Paraná. Ele ficou lá por muitos anos, ajudando a cuidar da propriedade e utilizando seus conhecimentos profissionais. "Éramos eu, o velho e as onças", lembra. Com a morte de seu Henrique, há um ano e meio, Gerson ficou como "pingue-pongue" entre Porto Alegre e a cidadezinha paranaense de RioAzul. Levou a família, mas a aventura não deu certo. Com medo das grilagens, os Antoniazzi voltaram no final do ano passado. A procura por trabalho, no entanto, continua tirando o sono de Gerson. "Espalhei currículo por todos os cantos e não tive nenhuma resposta; acho que é por causa da minha idade", arrisca. O casal matriculou os dois filhos mais velhos na escola pública, mas o material escolar foi obtido graças à ajuda de vizinhos e amigos. A filha pequena fica aos cuidados da mãe, que se reveza com Maria Silvia para atender a dona Julieta. Por causa disso, mãe e filha não podem procurar emprego. O cunhado também está desempregado e mora na mesma casa. Mesmo trabalhando desde os 16 anos, Gerson teve sua carteira assinada só uma vez, por quatro meses. "Se conseguir trabalho, será como autônomo; carteira assinada hoje, nem sonhar", admite. |