Alterações no mercado de trabalho. Eis um tema que deve interessar
a todo aquele que faz alguma atividade em troca de dinheiro. A falta de emprego e as saídas que as pessoas vêm buscando
tem chamado a atenção de economistas, historiadores, pesquisadores. Um deles é o
professor de Economia do Trabalho na Unicamp, Jorge Matoso. Segundo ele, é preciso
discutir as causas que eliminam o trabalho e entender os mecanismos que estão atuando na
transformação do mercado. "A taxa de desemprego atual é a mais elevada da
história do Brasil", diz.
Mesmo tomando taxas diversas como as pesquisadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estudos Sócio-econômicos), o recorde é uma realidade. No caso do IBGE - o índice adotado oficialmente pelo governo - a taxa bateu em 8,15% em março passado. Poucas vezes o instituto registrou um número tão alto. No acumulado dos primeiros três meses do ano, o recorde: 7,79% de desemprego.
Taxa alta assim nos primeiros meses do ano só haviam sido registradas em 1984, quando o índice de desemprego chegou a 7,69%. O pior trimestre que o país já teve, segundo o IBGE, foi no final de 1998, quando a taxa chegou a 8,01%. Nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE (São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Salvador) o número de pessoas sem emprego chegou a 1,360 milhão.
No Dieese, cujos dados são
geralmente utilizados pelas entidades sindicais, a realidade é ainda mais cruel. Em fevereiro o índice ficou entre 16% a 20% dependendo da região. Em São Paulo, maior concentração de trabalhadores do país, o cálculo apontou para um desemprego de 19,9% na região metropolitana.A diferença de um órgão para outro é de metodologia. O IBGE leva em conta para efeitos de emprego quem desempenhou algum tipo de atividade remunerada, mesmo os chamados bicos. O Dieese, por sua vez, cataloga todos que estão à procura de emprego e considera-os sem trabalho. Para Matoso, o desemprego inusitado tem relação com a precarização das relações de trabalho. "Isso é resultado da informalização e de outros mecanismos que não burlam a legislação trabalhista", explica.
De acordo com o professor, há uma deterioração importante a ser notada no mercado de trabalho. "Dizem que isso é um problema de inovação das tecnologias, mas essa não é uma boa explicação porque já tivemos o mesmo fenômeno em outros períodos; o que acontece é que o crescimento econômico foi mais baixo que a produtividade das empresas", sustenta. Ou seja, elas têm conseguido aliar menor oferta de vagas a um resultado financeiro crescente. Matoso sustenta ainda que reduzir a absorção de mão-de-obra num determinado setor não significa que as empresas estejam empregando pessoas em outros. O professor afirma que a estagnação da economia é resultado da política do governo federal, que se baseou em um tripé que pode ser identificado como abertura indiscriminada do mercado exterior (comercial e financeiro), sobrevalorizaçãodo real e juros muito elevados.
"Esse tripé criou uma armadilha ao crescimento da economia; com ele, houve a desestrutura da esfera produtiva (indústria e agricultura) e, paralelo a isso, ocorreu a deterioração das contas públicas e das contas externas", explica. O que surpreende Matoso é que a década de 90 termina com uma taxa de crescimento médio anual inferior à década de 80, que foi considerada por muitos como a década perdida. "Nos anos 80, o crescimento anual foi de 2,6% e estamos encerrando os 90 com cerca de 1,25% ao ano", informa. Ou seja, menos que o crescimento populacional. Ele enfatiza que a década de 90 foi destrutiva principalmente do emprego. "Por isso estamos com taxas de desocupação recordes", avalia.
| Em março, a taxa de desemprego aberto medida
pelo IBGE bateu em 8,15%; O contingente de trabalhadores com carteira assinada caiu 3,3% em um ano, ao passo que o núemro de empregados sem carteira assinada expandiu-se 4%; No primeiro trimestre do ano, foram 27 mil desempregados a nais que no mesmo período do ano passado; Aumentou em 11% o volume de pessoas que nunca haviam trabalhado e que estavam à procura de emprego; O tempo médio de procura por ocupação remunerada subiu de 20 semanas e 51 dias para 21 semanas e 16 dias em um ano. |
Vanda quer ter salário fixo de volta
De economia, Vanda Helena Cerutti também entende um bocado. Alguns dias da semana ela dedica a faxinas em casas de famílias e escritórios, parecidos com o que ela dividia com os colegas de trabalho nos tempos de emprego fixo. Vanda também cuida dos filhos de pessoas conhecidas, quando elas precisam sair.
"Faço qualquer coisa, não tenho vergonha, medo do trabalho ou qualquer preconceito", conta, orgulhosa.
Vanda - que é técnica em Contabilidade - trabalha também com compra programada de eletro-eletrônicos, faz escrita fiscal em casa e vende sorvete no verão "até não achar coisa melhor". Ela precisa auxiliar o marido, sapateiro, a manter os filhos na creche e na escola. Enquanto faxina um escritório no centro de Porto Alegre, ela pensa em como seria bom ter de volta um trabalho com carteira assinada. "Não precisaria ser um salário alto, eu poderia fazer qualquer coisa". Enquanto diz isso, Vanda lembra dos tempos de bancária e nas ações sindicais que resultaram em conquistas como auxílio-creche a ticket-refeição. Tempos esses que já vão longe.
Maria Salete Pitt também foi bancária por 15 anos, mas perdeu essa condição no Plano Collor. Aos 44 anos, dois filhos, um de 14 e outro de oito anos, ela está desempregada desde 1991. "O problema é a idade", acredita. E constata que os colegas que permanecem trabalhando estão a perigo: "quem está lá, está no sufoco".
Salete tem buscado atividades bem diferentes para levar dinheiro para casa. Por algum tempo vendeu docinhos, sorvete e sacolé pelas ruas. Mas como outros desempregados começaram a fazer o que ela fazia, esse mercado também inchou e ela teve de procurar outras ocupações. "Antes, dava para comprar o pão e o leite com essas vendas. Mas depois baixou tudo", lamenta.
A falta de emprego e de perspectivas atingiu até a saúde de Salete, que tem problema de baixa estima e estresse emocional. Ela conta que chegou a 103 quilos, tamanha a ansiedade da falta de perspectiva. A bancária buscou o trabalho comunitário para se defender, que não rende nada mas, pelo menos, lhe dá "compensação de vida".
Na associação de moradores, falando com um e com outro, ela conseguiu algumas faxinas para fazer. Com o companheiro de 41 anos também desempregado em casa, ela conta que tentou abrir com ele uma empreiteira. Mas com a crise na construção civil, o projeto foi para o espaço. Como saída, ele fez um curso de corretor de imóveis e, com o dinheiro de alguma venda esporádica, a casa é mantida.
"Não temos mais lazer, não compramos roupas, não podemos abrir crédito. Minha casa não tem móveis, abrimos mão de tudo", revela. E quando pensa no futuro, Salete diz, depois de um longo suspiro: "a gente vai levando a vida como pode".
1º de MaioMilhares de pessoas participaram no sábado, 1º de maio, de uma manifestação de trabalhadores na fronteira do Brasil com o Uruguai. O ato reuniu sindicalistas do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile |