Desemprego vai persistir em 99

O economista e professor da Ufrgs, Flávio Fligenspan, tem feito algumas pesquisas sobre a chamada informalidade - pessoas sem carteira de trabalho e que atuam por conta própria. "O desemprego cresceu e isso, por si só, é um horror", observa. Asaída, para a maioria das pessoas, é apostar na criatividade. De acordo com Fligespan, a questão do desemprego é mundial mas se manifesta de forma mais intensa em países com problemas graves de crescimento econômico, como o Brasil. Em situações como essas, segundo ele, "as pessoas aceitam qualquertrabalho, sem garantia de nada".

Fligenspan explica que, em 1998, o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) foi zero, o que significa que não houve expansão da economia. "Portanto, não houve a menor possibilidade de criação de emprego". Em 99, está prevista uma retração de 3% na economia em função da crise financeira que atingiu o país no final do ano passado. "Este ano vai-se produzir menos que no passado. Se a situação estrutural já está ruim, o decréscimo significará mais gente sendo jogada para fora do mercado".

Da metade de 1992 até fevereiro de 99, segundo ele, houve uma evolução representativa da informalidade. Em junho de 92, ela era de 43% do total das pessoas empregadas. Em fevereiro de 99, elas passaram a 51%, de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, feita nas seis regiões metropolitanas mais importantes (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife).

Nesse universo, o economista observa que a informalidade (que reúne os trabalhadores sem carteira assinada aos que trabalham por conta própria) avançou no total de pessoas em 8 pontos percentuais, "o que é muito".

O economista calcula, com base em seus estudos, que deveriam ser gerados 1,7 milhão de novos empregos por ano no Brasil somente para absorver os jovens que chegam ao mercado de trabalho. Nesses dois anos de estagnação econômica, o saldo foi o fechamento - e não a criação - de vagas. Resultado: os jovens continuam sendo rejeitados na sua procura por trabalho.

Para Fligenspan, expectativa de melhora só com crescimento econômico acelerado do país. No caso do Brasil, observa, isso não está previsto para os próximos meses. "Só para fechar essa conta de gerar 1,7 milhão de empregos o país precisaria crescer de 4% a 5% ao ano", contabiliza. Como a perspectiva é de que a economia volte a crescer somente no ano 2000, o drama do desemprego continuará afetando os lares brasileiros.

O número de desempregados que desistiu de procurar uma vaga cresceu
5,5%
em um ano

Nos últimos sete anos, o número de trabalhadores informais (sem carteira) cresceu
8%
no país

R$ 7 ao dia por mil panfletos

Na rua da Praia, no centro da capital, o ex-porteiro Jorge Adão Grippa, 42 anos, está há alguns dias se acostumando ao trabalho que arrumou depois de muito caminhar em busca de um novo emprego. Ele distribui material de propaganda de uma loja. Se distribuir mil panfletos, ganha R$ 7 por dia. É tudo quanto ele tem para sustentar o filho de cinco anos, que fica aos cuidados de uma tia.

O emprego de porteiro Grippa perdeu há três anos, quando o condomínio em que trabalhava teve de enxugar os gastos. O primeiro corte foi a cabeça dele. Desde então, é um biscate atrás do outro. A mulher não agüentou a dureza e foi embora. Fugiu, deixando a família para trás. Jorge conta todos os dramas de sua vida sem mudar o tom da voz. É como se nada mais o emocionasse. Há 20 anos ele veio de Uruguaiana para Porto Alegre e, desde então, trabalhou sem parar. A situação atual ele encara como um bico, temporário. Do dinheiro que arrecada diariamente, ele precisa separar ao menos R$ 70 do aluguel de uma casa em Eldorado do Sul, na região metropolitana. "A minha demissão foi por causa do plano Real", comenta. Grippa conta que preencheu fichas de emprego em vários lugares da cidade, sem ter obtido nada de concreto até agora. "Uns pedem para passar amanhã ou depois, mas esse dia nunca chega", consola-se.

 

O pão nosso de cada dia

Mais de 2,6 milhões sem um trabalho