|

Fotos:
René Calabres
Marcia
Camarano
Boaventura
de Souza
“Temos
o direito de ser iguais quando a diferença nos descaracteriza
e temos o direito de ser diferentes quando a igualdade nos caracteriza.
Devemos lutar ainda por democracia participativa, por sistemas
alternativos de produção, avançar com os novos conhecimentos.”
EC
– Como o senhor tem visto o tratamento dado à educação nas universidades
atualmente?
Boaventura
de Souza – No momento em que se deu a privatização das universidades,
elas se transformaram e um comércio, como a educação está toda
transformada em uma indústria. A educação se transforma numa indústria
naturalmente, porque o conhecimento está totalmente degradado
à luz de um preço e um preço de mercado da produção desse conhecimento,
com reflexos negativos na vida ativa. Estamos formando os tais
jovens competitivos, que nunca são solidários nem tem outros valores.
Eu penso que essa produção do valor a preço é realmente terrível
e se e educação continuar nessa base, se a privatização continuar,
a humanidade tem muito a perder.
EC-
Há chances para a universidade pública?
Boaventura – A continuação das universidades públicas é um
patrimônio da humanidade, porque é uma das instituições mais antigas
da modernidade ocidental. Ela é daqueles existentes desde 1500
ou até antes talvez, que mantém a mesma estrutura. É evidente
que a universidade pública tem de ser modificada, mas não privatizada.
É preciso reformular seu estatuto, transformando-a numa universidade
muito mais ligada às comunidades, não como sempre foi, elitista.
Ela deve ser menos elitista, mas manter realmente a única oportunidade
de se desmercantilizar, ou seja, não estar sujeita às leis de
mercado e, para isso, tem que ser uma universidade pública. Esta
é a grande luta que precisamos defender atualmente.
EC
- Qual o papel da ciência e do intelectual na construção dessa
sociedade mais justa e mais equilibrada que os participantes do
Fórum Social Mundial propõem?
Boaventura - O papel do intelectual é dar voz. Nós, neste
mundo da comunicação global, da sociedade da informação, temos
cada vez mais silenciamentos. Tem muita gente que não tem voz.
Aliás, até no próprio Fórum por vezes se falou em gente excluída
da discussão. Isso significa que, quanto mais exigentes somos
acerca da comunicação, mais silenciamentos notamos. E o intelectual
hoje deve, fundamentalmente, dar voz a esses grupos sociais silenciados,
dar voz ao conhecimento, ao próprio despojamento dos seus conhecimentos,
por que não? Tentando aprender, através dos testemunhos (que são
muito importantes hoje como forma alternativa de conhecimento)
e que, para a sociedade que a gente forma, as elites – porque,
no fundo, ainda são elas que passam pelas universidades – a responsabilidade
é usar essa oportunidade que temos para transmitir todos os silenciamentos
que vão pelo mundo. É um mundo de muito mais silêncios do que
se possa imaginar.
EC
– Quais as conseqüências do neoliberalismo em relação ao modo
de organização social mundial?
Boaventura - A sociedade civil organizada é mantenedora de
direitos universais falsos, foi sempre um muro do estado capitalista.
O estado mínimo nunca existiu, só deixou de ser estado dos cidadãos
para ser o estado das empresas. Este neoliberalismo que se apresenta
é o do desemprego, da dissolução do estado: a democracia e o mercado
de capital são considerados parte da sociedade civil. Os processos
de exclusão são dominantes em relação à inclusão. Quem está empregado
hoje pode não estar amanhã. Pessoas marginalizadas que nunca tiveram
oportunidade de cidadania. Esta realidade é a concretização da
idéia de fascismo social. Os exploradores sempre tiveram medo
dos explorados, mas não dos oprimidos. E hoje se vê uma fusão
entre explorados e oprimidos. O embrião da sociedade planetária
que queremos construir é solidária, que inclui a todos.
EC
- Que mudanças o senhor defende para começar uma nova sociedade?
Boaventura – Nós temos de salientar as diferenças. Igualdade
e diferença é uma dupla que precisa andar junta na nova sociedade
civil. Temos o direito de ser iguais quando a diferença nos descaracteriza
e temos o direito de ser diferentes quando a igualdade nos caracteriza.
Devemos lutar ainda por democracia participativa, por sistemas
alternativos de produção, avançar com os novos conhecimentos,
não de forma competitiva, mas solidária, aproveitar os conhecimentos
culturais, como os dos povos indígenas, lutar por direitos sociais
e econômicos e, também por informação e comunicação. Se socialismo
tem uma cara hoje, esse nome é democracia sem fim. Portanto, temos
de democratizar a sociedade, lutar contra a idéia do valor a qualquer
preço. Não devemos nos deixar intimidar por serem essas idéias
uma utopia, porque toda a idéia, antes de se concretizar, foi
uma utopia..
EC
– Mas muitas barreiras vêm da própria esquerda, por medo de que
as coisas piorem.
Boaventura – Há um pensamento que vem da esquerda de que o
que está aí pode ainda ser pior, o que acaba na defesa do status
quo. Por exemplo, qual o papel dos sindicatos hoje? Eles têm sido
duramente atacados e criticados. Há muitos anos, fiz um estudo
sobre o Orçamento Participativo em Porto Alegre e cheguei à conclusão
de que os sindicatos participam muito pouco dessa experiência.
Falei com lideranças sindicais sobre isso que me disseram coisas
como ‘as tarefas da cidadania são importantes, mas não imaginas
as tarefas que temos...’. Essa é, na verdade, uma questão cultural.
Temos de lutar por novos modelos de relação. A nossa “flexibilização”
deve ser sim lutar pela redução de horário de trabalho sem redução
de salário. Sem medo, porque se não pudermos propor o novo, provavelmente
não vamos manter o velho. Não há maneira de enfrentarmos a barreira
sem estarmos presentes em todas as lutas: sindicais, ambientais,
indígenas, de orientação sexual... É necessário distinguir entre
multiculturalismo reacionário e progressista. Vivemos num mundo
de igualdade, mas a igualdade não nos chega. Precisamos aplicar
o princípio da igualdade e também da diferença, que eu falei anteriormente.
EC
– Como trabalhar isso concretamente?
Boaventura- Podemos dar o exemplo dos índios guaranis no Rio
Grande do Sul, que podem querer integrar o Orçamento Participativo.
Eles teriam todo o direito, pelo princípio dos direitos iguais.
Mas isso tem de ser feito de maneira a não destruir sua identidade.
Eles podem participar nos fóruns, nas assembléias, enfim, de todo
o processo, sem no entanto se descaracterizarem e deixarem de
ser índios. Esse exemplo pode ser transportado para outros povos
e países. Devemos defender uma política de igualdade de direitos,
respeitando-se cultura e hábitos diferentes. Essa é exatamente
a nossa tarefa.
EC
– Essa não seria uma luta por direitos humanos?
Boaventura- São direitos pertencentes a todos os cidadãos
do mundo. Os direitos humanos são universais. No entanto, sabemos
que eles podem ocultar outra forma de desigualdade que é o não
reconhecimento de direitos culturais. Porque os direitos humanos,
da maneira como os conhecemos e concebemos, são ocidentais, individuais.
Corremos o risco de atacar o princípio da igualdade. É possível
usar o direito humano do índio guarani de integrar o Orçamento
Participativo? É possível, mas difícil. Há muitas culturas e todas
incompletas. Sou cada vez mais rico na minha consciência de incompletude
da minha cultura. O universalismo é a agregação dessas incompletudes
que se toleram. Sei que é uma grande dificuldade poder trabalhar
no movimento popular com um pé numa cultura e o outro noutra.
Podemos ser imigrantes dentro da nossa cultura. Existe uma dicotomia
entre indivíduos e comunidade. O sofrimento tem uma direção incontrolavelmente
individual. A sociedade não sofre. Indivíduos sofrem.
EC-
Então, o diálogo seria impossível?
Boaventura - O diálogo é possível, entendendo os problemas
e as condições que temos para resolvê-los. Os guaranis do Rio
Grande do Sul são falsamente contemporâneos a outras culturas
do estado. Temos de reconhecer que por trás dessa simultaneidade
há diferentes contemporaneidades. Muitas das aspirações dos povos
oprimidos são impronunciáveis. O discurso ocidental é responsável
pela destruição das alternativas desses povos. Nós os reduzimos
ao silêncio e agora queremos que eles falem! Não é fácil. Quem
quiser tentar, vai se deparar com raivas, ressentimentos de culturas.
Precisamos de outras formas de conhecimento. Somos ignorantes
quanto a isso e precisamos encontrá-las para fazer esse diálogo
multicultural. No conhecimento, a ignorância é o colonialismo
e o saber, a solidariedade. Temos caminhos para um diálogo intercultural.
Não conhecendo pela ordem, mas sendo mais indulgentes com o caos.
EC
- Diante de tudo o que o senhor viu e ouviu no Fórum Social Mundial,
existem alternativas à globalização?
Boaventura - Claro, a grande conclusão que se tira desse Fórum
é que não existe globalização, mas globalizações. Isto é, não
há apenas uma globalização, que é dominante, neoliberal, mas uma
globalização das alternativas: a globalização da solidariedade,
da cidadania, do desenvolvimento sustentável, da inclusão, da
ecologia, do feminismo, das lutas indígenas... e que essas questões
são hoje um componente fundamental para o novo modelo civilizacional
que devemos construir, porque o vigente tem de ser superado, por
ser insustentável. Os próprios homens que o comandam já o consideram
insustentável.
EC
- Os países podem interagir nessas novas alternativas que surgem?
Boaventura - Depende do que se entende por país. Se forem
os grupos e as associações, a sociedade civil organizada, as organizações
não governamentais, os movimentos populares, eu penso que, neste
momento, estamos num processo já de globalização com muitas lutas
locais e que estas lutas estão, de fato, com muita força. Outra
questão é o Estado. Atualmente, os estados têm uma lógica de funcionamento
pelo sistema interestatal, que advém da participação na ONU (Organização
das Nações Unidas) por um lado e, de outro, nas agências multilaterais:
o Banco Mundial e o FMI (Fundo Monetário Internacional). Isto
que faz com que não tenha sido possível, até agora, aos países
do chamado terceiro mundo, encontrarem formas coletivas de resistência
a este modelo que os leva a um subdesenvolvimento cada vez mais
agressivo, mais punitivo e mais excludente. Eu acho que os países
(estados) que têm capacidade para produzir uma alternativa são
os países de desenvolvimento intermediário com grandes populações.
EC
– Como quais, por exemplo?
Boaventura - Como o Brasil - para mim, fundamentalmente, a
cabeça deles todos - o México, a Argentina, a África do Sul, a
Índia, a Coréia e a Indonésia, que podem se unir para produzir
alternativas. O que tem acontecido é que esses países têm tentado
estabelecer contratos individualmente com os Estados Unidos ou
com as agências multilaterais e não têm conseguido se unir entre
eles para fazer uma frente contrária. Na verdade, dividem-se entre
si para ver quem consegue um negócio melhor com o Fundo ou com
o Banco. Esta é uma estratégia que irá levá-los à ruína e, portanto,
nós todos, cidadãos do mundo, estamos dizendo a estes estados:
juntem-se, unam-se, porque vocês têm mais força do que pensam.
|