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Os BONGs
Luis
Fernando Verissimo
Assim
como tem as ONGs, organizações não-governamentais
que fazem o que o Estado não pode ou não quer fazer,
começam a surgir no Brasil os BONGs, bandidos organizados
não-governamentais, para assumir as funções
do Estado omisso. Suas ações na substituição
de encargos tradicionais do governo (traficantes cuidando da segurança
de lojas e supermercados, diretórios de presos comandando
os presídios etc.) rivalizam, no noticiário, com
as ações de grupos institucionais corruptos (desvio
de verbas, compra e venda de mandatos e votos, dossiês engavetados,
denúncias de enriquecimento ilícito não-investigadas
etc.). A eficiência crescente dos BONGs e a desfaçatez
crescente das instituições acabará forçando
a população a escolher entre dois tipos de banditismo.
Entre uma cleptocracia para poucos, e ainda por cima minada por
lutas políticas, vaidades e velhos métodos, e uma
dinâmica cleptocracia de resultados.
Em
tempos mais folclóricos, se dizia que as únicas
coisas organizadas no país eram o Banco do Brasil e o jogo
do bicho, e que o jogo do bicho era mais sério. A velha
e amável tolerância com a contravenção
cresceu e, neste clima úmido e cínico, não
tardará a florescer numa lógica exótica:
afinal, se o crime é tão bem organizado no Brasil,
por que não deixar que ele organize tudo? O Brasil não
pode ser tão mais difícil do que o Carnaval, ou
do que uma rebelião sincronizada de presos. Ou, dito de
outra maneira: se somos todos bandidos, por que não dar
logo o poder aos mais capazes?
A
lógica de entregar nossa segurança aos BONGs resiste
a todos os testes de viabilidade. Ao teste da modernidade política:
nada mais caro aos neoliberais do que o Estado ausente, e tudo
com a iniciativa privada. Ao teste da praticabilidade: é
notório que os bandidos estão muito melhor aparelhados
para manter a ordem do que a polícia. Ao teste da legitimidade:
já sendo fora-da-lei, os BONGs não precisam ter
qualquer prurido jurídico e...
Eu
sei. Estou delirando. É o clima, é o clima.
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