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Falácias
e mitos do desenvolvimento social
Bernardo
Kliksberg *

As cifras obrigam a refletir. Aproximadamente um de cada dois
latino-americanos está abaixo da linha de pobreza. A situação
das crianças é ainda pior: seis de cada dez são
pobres. Os jovens se encontram numa situação difícil.
A taxa de desemprego juvenil duplica a elevada taxa de desemprego
geral, superando em muitos países os 20%. Apenas um de
cada três jovens cursa o ensino médio (contra quatro
de cada cinco no sudeste asiático). Formou-se um vastíssimo
contingente de jovens que tiveram de abandonar seus estudos, mas
que também não têm lugar no mercado de trabalho.
Os problemas de saúde são delicados. Um terço
da população da região carece de água
potável, condição preventiva básica.
Também há sérios déficits quanto aos
sistemas de esgoto. Cerca de 18% dos partos são realizados
sem assistência médica de qualquer tipo. A taxa de
mortalidade materna é cinco vezes a dos países desenvolvidos.
Sob o embate da pobreza, as famílias entram em crise e
muitas vezes se desarticulam. A criminalidade cresce fortemente.
É quase seis vezes o que se considera internacionalmente
uma criminalidade moderada. Surge intensamente ligada a fatores
como o aumento do desemprego juvenil, à baixa educação,
e à deterioração da família. A tudo
isso soma-se a expansão rápida de um novo tipo de
pobreza, amplos setores das classes médias sofreram uma
queda socioeconômica pronunciada e constituem os chamados
novos pobres. Assim, entre outros casos, na Argentina,
que contava com uma grande classe média, estima-se que
sete milhões de pessoas dos estratos médios se transformaram
em pobres na década de 90 (por 38 milhões de habitantes),
e processos similares se observam em muitos outros países.
Estes dados significam sofrimento humano em grandes proporções.
O documento base da Reunião de Bispos Católicos
de todo o Continente (XXVIII Assembléia do CELAM, maio
de 2001) ressalta a crescente pauperização
que está se abatendo sobre a maioria da população
em todos os povos em que nós vivemos. Destaca entre
suas causas os efeitos da globalização econômica
descontrolada e o crescente endividamento externo e interno, com
cargas que em vários países superam atualmente um
terço de seu Produto Interno Bruto. O que está acontecendo?
Por que não se cumpriram os prognósticos feitos
no início dos anos 80, que afirmavam que, seguindo certas
políticas, os resultados econômicos e sociais estavam
assegurados? O que fracassou? Por que um Continente com recursos
naturais privilegiados, com fontes de energia baratas e acessíveis
em grande quantidade, com grandes capacidades de produção
agropecuária, com uma ótima localização
geoeconômica, e que tinha um bom desenvolvimento educativo
há décadas atrás, tem indicadores sociais
tão pobres? Por que, ainda, uma dimensão que todas
as análises coincidem em assinalar, como grande entrave
para o progresso da região, seus altos níveis de
desigualdade, em vez de melhorar, piorou, constituindo-se a América
Latina na zona mais polarizada do planeta? O pensamento convencional
parece ter esgotado sua possibilidade de dar respostas a interrogações
como as indicadas. Faz-se necessário recuperar o que foi
uma das maiores tradições deste Continente, a capacidade
de pensar de forma criativa e por conta própria, aprendendo
com a realidade e buscando caminhos novos. Se sairmos dos âmbitos
de análise estáticos, que estão gerando permanentemente
políticas que são mais do mesmo, e que,
por extensão, não resolvem os problemas, é
possível que surjam vias renovadoras. Os erros cometidos
em termos de âmbitos conceituais desmentidos pela realidade,
políticas baseadas neles que demonstraram ser incompetentes
para o bem-estar humano e para o crescimento econômico sustentado,
e um dogmatismo agudo que impediu o arrazoamento autocrítico
tiveram custos muito fortes para a população. É
hora de repensar coletivamente o desenvolvimento, de forma aberta,
sem falácias, mitos nem tabus. Isso é uma exigência
que se observa dia a dia, nas ruas, dos múltiplos rostos
da dura pobreza latino-americana: as crianças de rua, as
crianças que trabalham, as mães humildes que ficaram
sozinhas à frente do lar, os jovens sem oportunidades de
trabalho, os indígenas e populações afro-americanas
discriminadas, os deficientes semi-abandonados, os idosos desprotegidos.
Ouçamos seu clamor e vamos tentar, todos juntos, o quanto
antes, devolver-lhes a esperança.
* Assessor
de diversos organismos internacionais, entre eles a ONU, OIT,
OEA, e UNESCO. Ele foi, também, diretor do Projeto da Organização
das Nações Unidas para a América Latina de
Modernização do Estado e Gerência Social e
Coordenador do Instituto Interamericano para o desenvolvimento
Social (INDES/BID). É autor de diversas obras, entre elas:
Desigualdade na América Latina. O debate adiado (UNESCO/Cortez,
2000) e Falácias e Mitos do Desenvolvimento Social (UNESCO/Cortez,
2000).
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