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Como
éramos há um século
Barbosa
Lessa
Mandam-nos
estudar a Antiguidade Clássica, e a gente estuda. Contam-nos
como eram os deuses, os sacerdotes, os artistas e os guerreiros
da Grécia e Roma antigas, e a gente meio que aprende. Mas
do que eu sinto uma grande falta, mesmo, é de alguém
que me diga como era o Rio Grande do tempo dos meus bisavós
e avós. Se eu aprendesse, poderia estabelecer um confronto
com os nossos dias e avaliar onde melhoramos, onde pioramos, o
que ainda precisa ser feito, coisas assim.
Num panorama bem geral, fiquei sabendo que, em 1901, éramos,
em população, o sexto Estado brasileiro, suplantado
por Minas, Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco.
Em números redondos, éramos apenas 1 milhão
de habitantes (só?).
Quem mandava era o augusto presidente Antônio Augusto Borges
de Medeiros, do Partido Republicano Riograndense, meio que em
parceria com a Assembléia de Representantes do Estado.
Mas o Partido Federalista ia crescendo bastante e acabava de realizar
um animado congresso em Bagé.
A economia ia bastante bem. Para os outros Estados nós
exportávamos charque, couros vacuns, doces, aguardentes
e fumo. Os artesãos alemães iam crescendo com a
produção de cintos, arreios completos, lombinhos,
botas e tamancos. E os italianos, além da feitura do vinho,
começavam a fornecer fivelas para os cintos, estribos para
os arreios e esporas para as botas. Cada um na sua área,
o troca-troca era lindo.
O comércio era forte, principalmente nas praças
de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande. Numa homenagem à
recente Revolução de 93, ainda se comercializavam
muitas armas brancas e armas de fogo. Alguns artigos eram muito
procurados por causa do prestígio da marca: máquinas-de-costura
Singer, fogões Berta, lampiões Durakopp importados
da Bélgica, arreios Ferradura, etc. Mas alguns produtos
tinham marca muito esquisita. Por exemplo, você teria coragem
de beber a famosa cerveja Porco?...
E as novidades continuavam aparecendo no mercado. Agora, por exemplo,
a Livraria Americana vinha oferecendo algo revolucionário:
o Closet paper Victoria. Dizia a propaganda: especialmente
recomendado por conter as propriedades higiênicas adequadas
ao uso a que se destina. Era então classificado como
papel de gabinete, mas hoje se chama papel higiênico.
Talvez num outro momento eu venha a me deter no papel de destaque
então desempenhado pelo Rio Grande do Sul na área
de transportes e comunicações. O estuário
do Guaíba não chegava a asfixiar a capital, pois
a navegação fluvial garantia diariamente a saída
de barcos da estação de Navegantes (Porto Alegre)
para Pedras Brancas (Guaíba) saindo às 8:00
e voltando às 14:00 e de Pedras Brancas para Navegantes
saindo às 8:00 e voltando às 15:00. Também
era importante a navegação fluvial para quem quisesse
pegar os trens da Estrada de Ferro Porto Alegre Uruguaiana.
Da estação de Navegantes o vapor Guapo
largava o passageiro ou a carga lá na primeira estação,
Margem do Taquari, mas, por enquanto, a última estação
era São Gabriel, e, de lá para Uruguaiana, só
a pé ou de diligência.
Já funcionavam telégrafo, para as cidades mais importantes,
e a telefonia (com fio) aqui e ali. E vinha despertando grande
expectativa a notícia de que o gaúcho Pe. Landell
de Moura havia se tocado para os Estados Unidos a fim de demonstrar
cientificamente a bruxaria de uma telefonia sem fio.
Jornais importantes: Correio do Povo e Jornal
do Comércio, na capital; o veterano Diário
do Rio Grande, em Rio Grande; A Opinião Pública,
em Pelotas; A Ordem, de Jaguarão; Diário
de Bagé, Gazeta de Alegrete, Taquariense,
etc.
Os esportes ainda capengavam, porque não havia surgido
ainda nenhum team de football. Em ciclismo, havia belas provas
de resistência entre campeões tais como Rieger, da
equipe Blotz, e Friederichs, da Liga Velocipédica. E o
que mais entusiasmava o público, na verdade, era o auto
teatral das Cavalhadas, a céu aberto, que começava
quando o embaixador muçulmano gritava: Por nenhum
preço vou abjurar minha crença, enquanto tivermos
uma lança para o peito, pistola para a cabeça e
uma espada para o pescoço de cada cristão.
E aí começavam as cruentas disputas entre mouros
e ocidentais, com torneios de lança, espada e escopeta
que levavam o público a frenéticas torcidas e solamações.
E ainda tem mais.
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