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Uma conversa
com Stoer
Verás
A
trajetória deste inglês teve sua guinada em 1975,
quando estava terminando sua tese de licenciatura sobre a educação
e a transição entre o regime salazarista e a democracia
que constituiu a década de 70 em Portugal. Ao concluir
a tese, para a Universidade de Londres, Stoer decidiu ir para
Portugal juntar-se à Revolução dos Cravos
e, desde então, vive na pátria de Camões.
Em 1986, mais de dez anos depois de concluída, a tese foi
publicada pelas Edições Afrontamento com o título
Educação e Mudança Social em Portugal: 1970-80,
uma década de transição, dando início
a uma série de publicações de livros e artigos
(veja anexo). Atualmente professor da Faculdade de Psicologia
e Ciências da Educação na Universidade do
Porto, Stoer é o diretor e pesquisador responsável
do Centro de Investigação e Intervenção
Educativas (CIIE), da mesma Universidade. O Centro é uma
unidade de investigação financiada pela Fundação
para a Ciência e Tecnologia do Ministério de Ciência.
Criado em 1989, as atividades do CIIE estruturam-se em torno de
linhas de investigação que identificam questões
centrais no desenvolvimento e produção de conhecimento
em educação.
Phd em Sociologia da Educação, Stephen Stoer é
também diretor, desde a sua criação em 1994,
da revista Educação, Sociedade & Cultura. A
revista, segundo Stoer tem, entre outros objetivos, a divulgação
do conhecimento produzido por todos os que trabalham nas Ciências
Sociais (com destaque para a Sociologia, a Antropologia e a História),
e que tomem como campo de estudo e/ou investigação
o campo da Educação/Formação; é,
também, entre outras coisas, um espaço para promover,
quer nas suas páginas, quer através da organização
de outras atividades, uma vigilância sociológica
das políticas e das práticas realizadas, formal
e informalmente no campo da Educação/Formação.
Leia a seguir a entrevista realizada com o pesquisador.
Extra Classe - De que forma pode ser evitado o desvio da escola
para todos e de que forma o Estado pode intervir nessa
distorção?
Stephen Stoer - Tem que haver um desenvolvimento da comunidade
educativa (que não pode ser reduzida aos agentes do mercado
e das empresas) num sentido que possa aproveitar um profissional
de ensino que é cada vez mais relocalizado e globalizado.
Isto é, as alianças e as redes de cooperação
e desenvolvimento integrado já não passam sobretudo
pelo nível nacional, passam pelos níveis local,
regional e global. O Estado tem que defender os agentes educativos
perante o poder empresarial e do mercado ajudando a criar os espaços
necessários para o desenvolvimento de tais redes e alianças.
O Estado também está a reconfigurar-se no que diz
respeito à cidadania, passando de uma concepção
de cidadania pensada a partir daquilo que é comum (mesma
língua, mesmo território, mesma religião),
para uma concepção de cidadania pensada a partir
das diferenças (locais, pertenças étnicas,
sexuais, etc.).
EC - O senhor falou em sua conferência no Brasil sobre
a passagem da educação de uma gestão controlada
da desigualdade, que é gerada socioeconomicamente, para
uma gestão controlada da exclusão social, que tem
raízes socioculturais. O senhor poderia falar um pouco
mais sobre essa questão?
Stoer - A gestão controlada da desigualdade implica
para a educação escolar o desenvolvimento de uma
educação compensatória que é, no fundo,
mais da mesma coisa (aulas de recuperação, etc.).
A gestão controlada da exclusão social implica para
a educação escolar um investimento na educação
inter/multicultural que é, sobretudo, um olhar sobre as
diferenças para mais as controlar. Isto é, não
se fala com a diferença mas com os discurso sobre a diferença
(que já estão contaminados pelo poder vigente).
EC - Como o ensino português tenta resolver os problemas
da desigualdade na escola e simultaneamente garantir a transição
escola-mercado de trabalho? E qual seria a forma de a escola criar
indivíduos capacitados para enfrentar o mercado mundializado
e em vias de reconfiguração?
Stoer - O ensino português tenta resolver os problemas
da desigualdade na escola e garantir a transição
escola/mercado de trabalho através de programas de formação
profissional (incluindo a criação das Escolas Profissionais
- 10º ano até 12º ano); através da revisão
curricular (que se apresenta como a gestão flexível
do currículo), que pretende dar mais acompanhamento
pelo professor ao aluno e tornar a escola mais capaz de lidar
com a constante atualização dos saberes; através
da organização de territórios educativos
na forma de agrupamento de escolas; e através de mecanismos
que têm como fim responsabilizar os pais dos alunos e os
próprios professores. A forma da escola capaz de criar
indivíduos capacitados para enfrentar o mercado mundializado
e em vias de reconfiguração será um mandato
renovado para a escola pública, enquanto parceira da comunidade,
como lugar privilegiado de comunicações interculturais
e que defende que um princípio ético e político
de justiça social deve orientar não só as
práticas pedagógicas dos agentes educativos como
também a própria seleção do saber
para o currículo.
EC - Como se desenvolve a educação escolar em
Portugal? Na sua opinião, quais as semelhanças entre
os dois países?
Stoer - Há algumas semelhanças entre a educação
escolar portuguesa e a do Brasil. Em ambos os países a
educação escolar (para todos) encontra-se num processo
de simultânea crise e consolidação. Isto é,
por um lado, esses países estão envolvidos na consolidação
dos seus sistemas escolares públicos (a criação
de uma cultura de escolarização; a fiscalização
do direito de estar na escola e de ter sucesso acadêmico),
por outro, já estão a sofrer uma crise, que também
abala os sistemas escolares dos países centrais, que ameaça
pôr em causa a escola pública, privatizando-a e/ou
reduzindo a sua influência entre a classe média,
classe essa fundamental para o bom desenvolvimento da escola pública.
Leia também:
- A
educação como direito
- Entre a
democracia e a meritocracia
- Um
paradoxo chamado Ulbra
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