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Viúva
de Cássia
Elisa
Lucinda
Foi
como um soco na minha cara, um chute na boca do meu estômago.
Cássia morreu, dizia-me Lina, uma menina de
12 anos, lá no meio do mato onde estávamos em minha
casa de praia, Itaúnas, Espírito Santo, quase Bahia.
Notícia chocante que ela tinha recebido numa comunicação
pouco clara por um celular, numa conversa com a mãe. Comecei
a chorar e a Lina dizia: Nossa, eu amava tanto ela. Conhecia
o filho dela que estuda lá no meu colégio, a mulher
dela é tão legal, tão atenciosa com o menino,
uma verdadeira mãe.
Do meio do meu choro, mesmo em desespero daquela perda inesperada,
eu observava aquela garota bem criada emitindo declarações
emocionadas sobre esta magnífica artista e sua família,
sem nenhum resquício de moralismo no tom, nem nas palavras.
Eu gritava: Nãaaaao !!! Eu queria falar com ela, queria
parcerias com ela, fiz uma música para ela gravar, adorava
aquela voz, ela era maravilhosa! Lina me olhava com seus olhos
lindos, cheios de lágrimas. Nossos corações
mudos cantavam talvez nesse momento a mesma melodia de desamparo:
Quem sabe ainda sou uma garotinha...
Aquela morte me pegara como o pior presente que uma nação
pode receber no meio das festas de final de ano e preparativos
para um novo tempo. Cássia Eller era uma cantora sem concorrentes.
Cantava até à rapa da panela, lixava o fundo das
coisas. Era capaz de arrepiar fácil porque a sua emoção
era o cavalo, as rédeas e o galope do seu cantar. Uma cantora
com assinatura. Era fácil identificá-la no meio
de um mercado tão rico de excelentes cantoras, mas ao mesmo
tempo cheio de repetidoras de um certo modelo de voz, de um certo
comportamento burocrático. O mau comportamento
de Cássia assinava embaixo o atestado de um serviço
útil à sociedade brasileira. No trote forte do seu
dom, ela acabava por nos representar em ousadia, originalidade
e coragem. Desde aquele dia é ruim pensar que não
haverá outras músicas, a não ser as já
gravadas, que terão direito à beleza de sua voz
especial e à força de sua interpretação.
Tudo que cantava ganhava sentido. Penso que se ela gravasse até
atirei o pau no gato poderia virar um hino revolucionário
na boca do povo. Estou viúva dela. O Brasil está.
Somos todos Eugênias querendo o melhor para
a melhor obra dela, para sua melhor interpretação
do mundo, para sua melhor canção que atende pelo
nome de Chicão.
Pelo amor de Deus, não é segredo para ninguém
que Eugênia é a mãe do menino e deve continuar
sendo. A essa altura dos acontecimentos, promover na vida dessa
criança mais perdas seria um crime. Esse senhor, Altair,
parece não estar apto a responder perguntas básicas
sobre esta criança, por cuja guarda está brigando
na justiça, porque simplesmente não a conhece. Chicão
sabe disso - não o reconhece como parente próximo,
não manifesta vontade de viver com ele. Esse avô
desembarcou agora na vida do neto, me parece, por interesses alheios
aos laços, já que o viu nos seus 8 anos de vida
apenas 3 vezes. Ao ser perguntado sobre este fato, o advogado
do Sr. Altair respondeu que achava esta questão irrelevante.
Ah, dá licença, mas eu não acho. O que eu
entendo até agora como normal clássico na atitude
dos avós é o fato de eles paparicarem os netos e
não o contrário.
Não sei nada sobre a vida que Cássia teve ao lado
desse personagem militar. Imagino que, com sua alma livre, não
deve ter sido fácil para ela. E também nem sei se
Cássia era a filha preferida dele. Não sei se ele
se orgulhava dela, de suas posições, seu jeito escrachado
e seu gênero de amor.
Mas, nesta hora, eu tinha muita vontade que existisse assombração
e que o fantasma de Cássia Eller aparecesse para esse senhor
de madrugada e falasse forte, com aquele vozeirão: Tu
se liga, hein, meu velho! O Chicão vai ficar com a Eugênia
e aproveita que eu tô calma. Tenho certeza de que
ele de novo voltaria atrás. Daria adeus aos milhões
de reais, que o filho herdou da mãe e não o pai
herdou da filha, e tudo ficaria, no mínimo, sensato.
Chicão quer Eugênia, Eugênia quer Chicão,
os professores e a diretoria do Ceat são testemunhas contundentes
da maternidade atuante que Eugênia exerce na vida desse
garoto, os amigos do casal também, toda família
de Cássia considera um absurdo o desejo do pai de brigar
por essa guarda, era da vontade explícita de Cássia,
e toda imprensa sabe disso, que o menino ficasse com Eugênia.
E por fim a sociedade considera um impropério da parte
desse avô, uma atitude mais próxima de uma questão
ética, longe de ser amor e mais conhecida popularmente
como olho grande.
Resta agora que a Lei preserve a causa ganha por Eugênia
em primeira instância, respeite a vontade de Cássia
e do menino, e não deixe que nenhum moralismo retrógrado
ou algum falso testemunho contra a idoneidade dessa mãe
venha inviabilizar uma possibilidade de equilíbrio e felicidade
que essa criança está ardentemente procurando no
meio desse caos. Basta de orfandades para Francisco. Será
um absurdo que ele sofra o desamparo da mãe-lei que, em
princípio, existe para protegê-lo.
Viúva de Cássia, choro. Choramos também,
meu marido, meu filho, meus amigos. E no meio dessas lágrimas
queria que a juíza dessa questão se chamasse Lina.
elisalucinda@radnet.com.br
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