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Uma
escola para voar
RUBEM
ALVES
Foto:
René Cabrales
Professor,
escritor, teólogo, psicanalista. Aos 68 anos de vida,
Rubem Alves é tudo isso, mas acima de tudo um sonhador.
No bom sentido da palavra, ele sonha com a construção
de uma escola ideal, que dê asas e ensine
as crianças a pensar e a gostar de aprender. Sobre
este sonho escreveu até um livro A escola com que sempre
sonhei sem imaginar que pudesse existir.
Carismático entre os professores, o escritor demostrou
certa resistência na hora de responder às perguntas
formuladas pela reportagem do Extra Classe. Segundo ele, seria
preciso mais espaço para comportar tantas idéias,
o que é absolutamente compreensível vindo de
um escritor como ele. Rubem Alves é daquelas pessoas
que costumamos dizer ter o dom da palavra, com dezenas de
crônicas e livros editados. Entre os títulos
de maior destaque estão Conversas com quem gosta de
ensinar, Cenas da Vida e Estórias de quem gosta de
ensinar. Todos eles define como fotografias, feitas para ajudar
as pessoas a ver.
Doutor em filosofia pela Universidade de Princeton (EUA),
é professor emérito da Unicamp, bacharel em
teologia pelo Seminário Presbiteriano de Campinas,
também é Membro da Academia Campinense de Letras
e psicanalista pela Associação Brasileira de
Psicanálise de São Paulo.
Ana Esteves |
Extra
Classe O senhor costuma dizer que a escola ideal é
aquela que dá asas. Como a define?
Rubem Alves É uma escola que encoraja os seus
alunos a pensar, que não corta a sua imaginação.
É uma escola que os faz confiantes em si mesmos. É
uma escola que cria, entre os alunos, um espírito de solidariedade
e cooperação. São escolas que ajudam as crianças
a ver. Insisto nessa palavra ver: A primeira missão
da educação é ensinar a ver, dizia
Nietzsche, ensinar a se assombrar diante das coisas do mundo e
da vida, e ensinar a pensar. Não existe nada mais fatal
para o pensamento que uma resposta pronta.
EC Qual o contraponto dessa escola?
Rubem Infelizmente há também escolas
que são gaiolas. As crianças se sentem dentro delas
como pássaros. Não podem voar. São engaioladas
pelos programas e pelos professores a que se referiu Brunno Bettleheim,
um dos maiores educadores do século XX. Numa entrevista
que deu já no fim de sua vida, ele disse o seguinte: na
escola os professores me ensinavam coisas que eu não queria
aprender e do jeito como eles queriam ensinar. Por isso
as crianças sofrem. Mas os professores são engaiolados
também dentro da mesmice dos programas que têm de
repetir ano após ano. Esses professores são como
aqueles guias de excursão que, diariamente, são
obrigados a repetir as mesmas informações para os
turistas. Ao final é um tédio, uma impaciência,
uma irritação, um desejo de aposentadoria.
Hermann Hesse disse que na escola ele aprendeu duas coisas: aprendeu
latim e aprendeu a mentir. Gabriel Garcia Marques, num artigo
que escreveu para os jovens, com conselhos sobre como se tornar
um escritor ou um artista, diz que a primeira regra é:
não fazer o que as escolas mandam.
EC Esta escola que dá asas existe?
Rubem É uma escola que visitei e por que me
apaixonei, em Portugal, num lugar chamado Vila das Aves. Chama-se
Escola da Ponte e sobre ela escrevi um livro A escola
com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. É
absolutamente fantástica, contraria tudo aquilo que eu
imaginava sobre educação. Uma escola onde não
há professores dando aulas, não há quadro
negros, não há professores pedindo silêncio,
não há turmas, não há campainhas separando
as aulas ( pois não há aulas), uma escola onde crianças
com síndrome de Down estão normalmente junto a outras
crianças.
EC Esta dificuldade de ensinar a pensar
pode ser considerada como um dos principais problemas da educação
no Brasil?
Rubem Sim, acho que esse é o maior problema
da educação brasileira: ela não está
ensinando o povo a pensar. O objetivo da educação
é ensinar a pensar, não é dar informações.
As informações são como a peças de
um jogo de xadrez. Quem só tem as peças não
sabe coisa alguma. O que importa é a dança das peças
nos espaços vazios. Assim é o pensamento. Conheço
pessoas que sabem uma infinidade de coisas parecem-se enciclopédias
mas não sabem pensar. O seu saber é inútil.
A questão é que o corpo, que é o sujeito
da educação, só pensa coisas que lhe são
vitais. Ele pensa para viver. Teríamos, então, de
estar a cada dia fazendo a pergunta: o que é vital para
essas crianças e adolescentes?
EC E o que é vital para essas crianças
e adolescentes?
Rubem Faz algumas semanas andei pelas praias de Alagoas
e fiquei amigo de crianças que lá viviam. As questões
vitais, as curiosidades e os desafios que aquelas crianças
enfrentam são completamente diferentes daqueles que enfrentam
as crianças do Rio de Janeiro ou do Rio Grande do Sul.
Mas todas elas se encontram engaioladas num mesmo currículo,
como se elas morassem num mesmo mundo. Os programas escolares
pressupõem que as crianças são todas iguais,
têm os mesmos interesses, vivem em contextos semelhantes,
e aprendem no mesmo ritmo. Essas pressuposições
são simplesmente absurdos e proibidas pelos mais elementares
conhecimentos de psicologia e sociologia. No entanto, é
assim que acontece. Recursos financeiros são necessários
para a educação. Mas só os recursos financeiros
não melhoram a educação. Pode-se educar bem
com poucos recursos e educar mal com muitos recursos. Por vezes
o excesso de recursos perturba a inteligência.
EC Qual o processo ideal de aprendizado e como os programas
escolares costumam ensinar?
Rubem As crianças, por natureza, são
curiosas. Elas se espantam diante dos objetos mais simples, uma
minhoca, um caracol, um ninho, uma nuvem. Quando menino eu me
deitava no capim e ficava olhando para as nuvens, assombrado,
com mil perguntas na minha cabeça. O que são elas?
Por que aparecem e, de repente, desaparecem? O que faz com que
umas sejam como flocos de algodão e outras com longas tiras?
Por que se transformam em chuva? Na minha cabeça estavam
as perguntas que são o início do espírito
científico. O aprendizado é sempre assim: primeiro
a curiosidade, a pergunta. Depois, a busca da resposta. Por isso
aquilo que é aparentemente aprendido (tiram notas boas
nas provas) é rapidamente esquecido. O que restou, em nossa
memória, de tudo o que tivemos de estudar e sobre o que
fizemos provas e tiramos notas boas? Quase nada.
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"
Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias
vivias. Memórias vivas são aquelas que continuam
presentes no corpo. Uma vez lembradas, o corpo ri, chora,
comove-se, dança".
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EC
Qual seria então a saída para que as crianças
gostassem realmente da escola?
Rubem As crianças amariam as escolas se as escolas
as ajudassem a entender as perguntas que elas fazem. Um amigo,
grande educador de Portugal, me contou que certa vez pediu às
crianças que escrevessem em folhas de papel as perguntas
que gostariam de ver respondidas. As crianças, sem exceção,
fizeram perguntas que tinham a ver com coisas simples da vida.
Era a vida que as fascinava. Perguntas do tipo: Por que
a água fervendo endurece o ovo e amolece a cenoura?
Por que os dedos ficam enrugados quando ficam muito tempo
dentro da água? Por que as bolas de sabão
têm a forma de bolas de sabão? Aí ele
pediu que os professores fizessem o mesmo. E todos eles fizeram
perguntas do programa das disciplinas que ensinavam. Eles já
não tinham nem olhos e nem cabeças para a vida.
EC Como assim? Explique melhor.
Rubem Vou devolver a pergunta. Que criança ama
a escola? É preciso não se iludir. Quando as crianças
se alegram por ir à escola, em 99% dos casos, elas se alegram
porque a escola é melhor que suas casas ou por causa das
brincadeiras no recreio. A prova de que uma criança realmente
ama a escola, eu a encontraria se visse dois alunos conversando
animadamente sobre a aula anterior. Vocês já viram
alunos conversando animadamente
sobre a aula anterior? Na verdade, o grande desejo dos alunos
é que os professores fiquem doentes e faltem às
aulas. Porque, na maioria absoluta dos casos, o assunto do programa
não os interessa, absolutamente.
EC E em relação à leitura: existe
alguma fórmula para fazer crianças e adolescentes
gostarem de ler?
Rubem Quando menino, o meu único prazer na escola
era a aula de leitura. Na verdade não era uma aula, porque
a professora não ensinava nada. Ela só lia para
nós livros de literatura, Monteiro Lobato, aventuras...
E o maravilhoso é que não se pedia nada. Era um
puro exercício de prazer e vagabundagem. Não havia
testes de compreensão a serem respondidos. E nem exercícios
e interpretação. Na Escola da Ponte
referida no início da entrevista há
um pôster com os direitos e deveres das pessoas em relação
aos livros. E o primeiro é: Toda criança tem
o direito de não ler o livro de que não gosta.
EC Neste sentido, qual a sua opinião sobre a
obrigatoriedade da leitura imposta por muitas escolas? Ela realmente
pode incentivar as crianças a desenvolveram o prazer pela
leitura?
Rubem O que se consegue obrigando a criança
a ler um livro de que não gosta? O mesmo que se consegue
obrigando a criança a tomar óleo de fígado
de bacalhau: ela vai odiar óleo de fígado de bacalhau.
A criança aprende a odiar os livros. Tenho sugerido às
escolas que elas façam concertos de leitura. Isso mesmo.
Concertos. Pois não há concertos de piano, de violino
e de rock? Leitura é arte. O executante, o leitor, em tais
concertos, deveria se preparar como um artista. Trabalhar o texto
com a mesma seriedade com que um pianista prepara uma sonata.
E ao final não haveria testes ou perguntas: apenas as conversas
provocadas pelo que se ouviu.
EC Qual a relação entre a sua atividade
de escritor e sua atividade como educador?
Rubem Para mim, minhas atividades de escritor e de
educador são a mesma coisa. Escrevo para ajudar as pessoas
a ver. Meus textos são fotografias. E escrevo
para fazer as pessoas pensarem. Por isso eles nunca terminam com
conclusões, mas com aberturas. Textos científicos
fecham, levam o pensamento a uma conclusão. Textos literários
abrem: inauguram um novo espaço de pensamento.
EC Como analisa o fato de um analfabeto ter sido aprovado
duas vezes no vestibular?
Rubem Num sistema de avaliação baseado
em múltiplas escolhas, essa possibilidade existe sempre.
É uma questão de estatística. Um analfabeto
passa no vestibular segundo as mesmas leis estatísticas
que fazem com que uma pessoa acerte na Sena.
EC O senhor está com algum livro saindo do forno?
Quais os lançamentos, tanto na literatura infantil, quanto
adulta?
Rubem As Cores do Crepúsculo: A Estética
do Envelhecer, recém lançado. O Médico e
Livro Sem Fim . O livro aAs Cores do Crepúsculo
contém uma série de crônicas que tenho estado
a escrever através dos anos sobre a experiência de
ficar velho. Quando a gente fica velho, passa a pensar de forma
diferente... mas eu acho uma pena responder a sua pergunta dessa
forma, porque a resposta não diz nada, há coisas
que não podem ser resumidas. O mesmo é verdadeiro
dos livros a serem publicados: O Médico e Livro Sem Fim.
O primeiro é sobre o médico. Mas como vou resumir
o que está lá. Literatura não pode ser resumida.
Uma sinfonia não pode ser resumida.
EC Há algum tipo de dificuldade ou diferença
em escrever para crianças ou adultos?
Rubem Não há dificuldade maior ou menor.
Os textos aparecem na cabeça e o que faço é
apenas copiá-los. Acontece que os textos para crianças
aparecem mais raramente.
EC Da totalidade da sua obra, existe algum livro de
que o senhor goste mais?
Rubem Se você me perguntasse: das músicas
escritas, há alguma de que o senhor goste mais?
eu não poderia responder. Tudo depende de como a alma se
encontra, no momento. Às vezes, é um, às
vezes é outro. Mas, para não deixar a pergunta sem
resposta: Livro infantil: A Menina e o Pássaro Encantado
e o adulto O Retorno Eterno.
EC O senhor continua dando aulas?
Rubem Aposentado, faz tempo...
EC O senhor é bacharel em teologia, porque decidiu
formar-se psicanalista? Atua na área?
Rubem Me deu vontade... Muitas coisas acontecem sem
que haja razões claras para elas. Angelus Silésius,
místico, disse: A rosa não tem porquês;
ela floresce porque floresce. A mesma coisa: resolvi ser
psicanalista porque resolvi.
EC O que o levou a escrever uma carta para o diretor
das Organizações Globo, Roberto Marinho?
Rubem Está dito no texto, e no livro Entre
a ciência e a sapiência. É tão
curtinho. Três páginas. Sugiro que se leia o texto
que se encontrará a resposta. A resposta não pode
ser dada em duas linhas. Além disso, não tenho a
menor idéia se ele leu a carta.
(www.secrel.com.br/jpoesia/rua01.html)
| Rubem
Alves reuniu mais de 1.700 professores |
O
dia 1º de março foi marcado pela Aula Inaugural
2002, promovida pelo Sinpro/RS, com a presença de Rubem
Alves. Dando início ao ano letivo, o evento ocorreu
no prédio 41 da PUCRS e contou com um público
de mais de 1.700 professores três dias antes
do evento, os ingressos na sede estadual do Sindicato já
estavam esgotados.
Rubem Alves falou sobre o seu livro A escola com que sempre
sonhei sem imaginar que pudesse existir. Trata-se de uma escola
que ele conheceu em Portugal: Contraria tudo o que eu
imaginava sobre educação, uma escola em que
não há professores dando aula, não há
quadros negros e nem professores pedindo silêncio,
explica Alves.
| Foto:
René Cabrales |
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"As
escolas devem ajudar os alunos a
entenderem as perguntas que eles fazem"
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A iniciativa do Sinpro/RS tem como objetivo estimular os professores
no início do ano letivo. A experiência
que tivemos no ano passado com a Aula Inaugural do Milênio,
em que trouxemos Içami Tiba, foi muito apreciada pela
categoria, revela a diretora da entidade, Cecília
Bujes, que completa: Foi decidido no último Congresso
que realizaríamos eventos tratando da violência
na escola e os dois palestrantes (deste ano e do ano passado)
tratam implícita e explicitamente deste tema. |
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