Economia solidária na vida real

                                Foto: René Cabrales
Oficina de reciclagem de resíduos sólidos aposta na coleta
seletiva de lixo para garantir renda às famílias com poucos recursos

No decorrer da conferência que esmiuçou várias facetas do que vem a ser economia solidária, a peruana Rosa Guillén, da Rede Latino-americana Mulheres Transformando a Economia, contextualizou a situação feminina e criticou a lógica capitalista, “que faz uma diferenciação entre o desenvolvimento, a manutenção e a expansão das capacidades humanas, prejudicando as mulheres de forma especial. A idéia capitalista - prosseguiu Rosa - é de que as mulheres se restrinjam ao âmbito doméstico, com se não fizessem parte do desenvolvimento econômico”, ressaltou.

Aqui em Porto Alegre, muitas mulheres já entraram de cabeça na proposta do modelo econômico solidário. Há sete anos, a dona-de-casa Dejanira Rosa Einloft fundou a Grife do Morro da Cruz, uma cooperativa que trabalha com aproveitamento de materiais para a elaboração roupas. “Eram mulheres excluídas do mercado de trabalho em função da idade, ou que precisavam ficar mais próximas dos filhos”, explica Dejanira. Segundo ela, hoje, as oito mulheres que compõem o grupo chegam a faturar de R$ 300 a R$ 500 por mês. Para ela, a economia solidária vale a pena, mas é preciso ter persistência: “o lucro não é imediato, mas, trabalhando duro, hoje conseguimos ter renda”.

A semente do Morro da Cruz já está dando frutos. Hoje, além de manter o trabalho com a grife, Dejanira dá aulas gratuitas de corte e costura para 30 alunos, entre pacientes reabilitados do Hospital Psiquiátrico São Pedro e moradores da Vila São Pedro. “É uma iniciativa da Secretaria Municipal da Indústria e Comércio (Smic) e da Fundação Solidariedade que coordena o curso”, conta. Além de costura, o grupo aprende o manejo das máquinas, a modelagem e a montagem das peças; os alunos também têm aula de gestão para saber como se organizar, regularizar a futura cooperativa.

O trabalho do grupo já está dando retorno, com a comercialização de banners para empresas e bolsas que foram vendidas durante o II Fórum Social Mundial. As dependências do Hospital São Pedro abrigam também outro grupo que trabalha com base no mesmo conceito. “São ao todo 45 pessoas que realizam um curso de triagem de resíduos sólidos, em busca capacitação profissional e com o objetivo de criar uma associação”, explica o coordenador administrativo do projeto Coletivo São Pedro, Márcio Cairuga. Segundo ele, os alunos recebem uma bolsa de R$ 220 durante seis meses, além de uma conta bancária. “A iniciativa, coordenada pelo programa Coletivas de Trabalho, da Secretaria Estadual do Trabalho, Cidadania e Ação Social, resgata a cidadania, dá um posto de trabalho e foge da lógica do patrão, pois eles são os próprios patrões e podem dar o rumo que quiserem para a associação deles, numa lógica diferente do que a lógica do capital”, completou Cairuga.

Outra iniciativa é a da Associação de Artesãos Santo de Casa que trabalha há oito anos com o princípio da comercialização coletiva. “Temos três pontos de vendas onde todas as despesas são divididas entre os 60 associados, que trabalham com artesanato. No início pensamos em comercializar móveis, mas o preço da madeira era muito alto”, conta a presidente da entidade Zenaide Soares Bonneau. Ela declarou que a proposta da economia solidária é importante, congrega as pessoas que buscam trabalho e renda, e que sozinhas não se sustentariam. “Se fosse montar uma loja sozinha, não teria capital”, afirma Zenaide.

A idéia da artesã de trabalhar com madeira é realidade para a Associação Emana. Com sede em Madri o grupo desenvolve duas frentes de inserção social: a Biomueble, que se dedica à fabricação artesanal de móveis e à de perfumes, criados por mulheres com dificuldades financeiras e dificuldades para ingressarem no mercado de trabalho.


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