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Viramundos
vão onde o povo está
Ana
Esteves
O teatro
instala-se nas ruas e o instante de comunhão entre os atores
e a platéia faz ressoar ainda mais vibrante o interior
dos inquietos e necessitados seres humanos. Essa é
a química que permeia os espetáculos do Viramundos,
um grupo mambembe, de Passo Fundo, que percorre as cidades do
interior do Estado levando teatro para pessoas carentes. Nosso
trabalho é para o interior do interior, zonas rurais e
periferias, onde as pessoas não têm acesso ao teatro,
seja por uma questão de recursos financeiros ou pela distância
que os separa dos centros urbanos, explica o coordenador
do grupo Antônio Flávio Nunes.
De acordo
com ele a falta de teatros e centros culturais em muitas destas
cidades também impossibilita um contato do público
com apresentações teatrais. Muitas destas
pessoas nunca assistiram um espetáculo. É por isso
que a cultura mambembe vai perdurar, comemora Nunes. Ele
acredita que a proposta de teatro itinerante deveria fazer parte
da política cultural dos governos. Como é
que tu vais levar um espetáculo para os 500 municípios
do Rio Grande do Sul? É difícil. A única
forma é promover estruturas móveis que não
fiquem só na capital, conta.
A peça
escolhida para a estréia do grupo foi O Ferreiro e a Morte,
uma montagem popular com uma adaptação gauchesca.
É uma história medieval que conta a trajetória
do ferreiro Miséria, que aprisiona a morte e causa muitos
problemas no céu, na terra e no inferno, explica
Sandro Pasini, ator que interpreta o ferreiro. O público
embalado pela música com acordes gaudérios se envolve
com o espetáculo, entra no clima e muitas vezes dá
alguns palpites. É uma energia diferente do palco
convencional. Durante os espetáculos de rua as pessoas
ficam gritando e dizendo o que a gente deve fazer. Muitas vezes
elas tem reações inusitadas, mais espontâneas.
A idéia é que as pessoas interajam e se identifiquem.
Até hoje ninguém disse parem com essa coisa
a gente não quer assistir essa porcaria, diz
Pasini.
Antônio Flávio Nunes explica que a peça foi
escolhida por se tratar de uma grande comédia, divertida
e alegre que se torna acessível ao público. Não
adianta querer encenar Shakespeare na favela, diz. Além
disso o espetáculo trata de questões muito próximas
destas pessoas como exclusão social, a miséria e
a morte.
Um dos inconvenientes
da vida mambembe é justamente a falta de rotina. Nós
estamos sempre viajando, com pouco tempo para ficar com a família.
Não temos final de semana desde agosto deste ano e não
teremos tão cedo. Mas trabalhar é a sina da gente
e o nosso destino é rodar por aí e levar o espetáculo
para o maior número pessoas possível, revela
Pasini. Para ele tem sido gratificante se apresentar para pessoas
que nunca viram teatro. Um brilho nos olhos das pessoas
é algo impagável, revela.
Na estrada
deste maio deste ano, o Viramundos já se apresentou para
mais de 30 mil pessoas em 16 municípios do Rio Grande do
Sul e duas apresentações em São Paulo. Até
o final de 2000 o grupo estará se apresentando em outras
70 cidades no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nunes diz que
a meta para 2001 é cumprir a agenda de 150 apresentações
do Ferreiro em 100 municípios.
O projeto
criado em 1998, tem o patrocínio de cinco empresas: Grupo
Grazziotin, Comercial Zaffari, Caixa Econômica Federal,
RBS TV Passo Fundo e Governo do Estado do Rio Grande do Sul. O
investimento foi de R$ 250 mil, revela Nunes.

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