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Um abraço
ao tarado
Elisa
Lucinda
As meninas
de minha época passaram toda a infância e adolescência
e algumas, grande parte da juventude assim dita, à espera
medrosa, curiosa e fatal de um personagem criado pela estrutura
repressora do prazer, em especial o prazer feminino, anunciado
pelos nossos pais, vizinhos, tias, avós e principalmente
pelas madrinhas e mães. Trata-se portanto do Sr. Tarado.
Aquele que
estaria em cada esquina da rua, em cada portão de colégio,
em cada festa sem escolta paterna ou mesmo do irmão, em
cada piquenique, acampamento, viagem, excursões, enfim,
em cada possível espaço de liberdade. Esse homem
monstruoso tinha várias técnicas diferentes de ação;
todas marginais.
Uma delas
era de extremo perigo: ele lançaria sobre nós inesperadamente
uma fumacinha que nos deixaria tonta e aí pronto, perderíamos
a razão e lá se iria a flor.
A imagem desse
ser era como a de um Deus às avessas, cujo nome era sempre
evocado como uma forma coercitiva de lei. A lei do medo. Que te
castra dentro. Que nos proibia ou pelo menos tentava, em nossos
próprios bastidores de meninas. Então ele era sempre
lembrado para que jamais nos esquecêssemos... Por isso até
hoje me recordo. Tenho certeza de que todas nós nos arrumávamos
com fervor e medo; cheirosas e medrosas.
Em nome da
nobreza da coisa imaculada, do modelo de uma tal virgem
Maria, a virgindade estava por algum tempo assegurada em relação
aos nossos possíveis namoradinhos; porque ser virgem era
uma valorização da mercadoria disfarçada
em nobreza ou pureza espiritual. Portanto, nesta hora em que os
hormônios ricocheteavam no embrião do desejo, nesta
hora em que se adormecia menina e se amanhecia moça já,
de peito e tudo, nesta hora o único homem que poderia violar
essa dificuldade da realização do desejo seria exatamente
o Tarado. Só ele poderia considerar sem o saber, a nossa
vontade escondida e não a vontade manifestada dos que nos
queriam matar libidinosamente. Só ele poderia habitar nossas
fantasias eróticas onde ele é que seria o culpado
e nada melhor do que pecado que já vem com um culpado de
brinde. Ora, então era para ele, o único violador
corajoso para quem nos adornávamos, por quem batiam nossos
coraçõezinhos ingênuos e assanhados
em cada caminho escuro de volta para casa. Era pra ele a taquicardia,
o susto.
Mesmo porque
os namorados desta época amavam a essas moças de
família sem poder desejá-las. Se excitavam com elas
para irem gozar nas mulheres verdadeiras, que nunca éramos
nós. Nós éramos apenas aquecimento.
Então
era para ele... ele, o Louco... ele, o Maníaco... era para
ele o pó de arroz, o batom que a gente passava na boca
só lá na rua longe das mães e derivados...
Era tudo deliberadamente para ele. Aquele que numa esquina iria
surpreender a nós com seu modo grosseiro, com seu instinto
desenfreado, com seu barbarismo danado de nos devorar sem pedir
licença como o Lobo Mau que comeu a neta e a avó
numa casinha bucólica no meio da floresta, perto do rio...
Era para ele as saias dobradas no cós pra que encurtassem,
também longe das mães e das freiras do colégio.
Eu mesma tinha
um plano. Quando ele viesse, eu iria fingir que queria. Se conseguisse
escapar de sua fumacinha mágica, eu o beijaria (por mais
monstruoso que fosse, dizia o estatuto do meu plano) e quando
eu pudesse alinhar meu joelho direito entre suas pernas, no torpor
do beijo planejado eu lhe desferiria um golpe baixo!
Mas como esse
monstro era também uma espécie de super-herói
imbatível, eu tinha medo de que o golpe não doesse
muito e ele por isso se tornasse subitamente mais feroz. Bem,
o certo é que até cheguei a ensaiá-lo diante
do espelho, algumas vezes, mas ele nunca veio.
Nos espalhávamos
cada uma nas respectivas esquinas de nossas respectivas ruas perigosas
e ele nunca veio. Nunca apareceu pra nenhuma de nós. Os
exemplos usados eram sempre casos fantasmas que nunca conhecemos
de perto: nem os lobos nem as chapeuzinhos. ELE nunca veio.
Inúteis os perfumes... inúteis as pinturas... ele
nos deu um enorme bolo. Hoje sei que nós o desejávamos
mais que ele a nós. Porque apesar da guarda do medo consciente,
apesar do medo ser o escudo que ia à frente, nós
o desejávamos na grande cama do inconsciente onde não
há moral nem lei.
Além
do que, há que se considerar que o grande trabalho de marketing
feito em prol dele pela nossa família era altamente eficiente:
as sórdidas peripécias desse moço eram contadas
e repetidas sempre por essas que diziam ter experiências
de vida, diziam que tivéssemos cuidados com drogas postas
no copo de Coca-Cola.
Eles tinham
o saber, sabiam que o monstro era implacável, mas ele,
na sabedoria de cão excitado, devia saber bem a força
de um cio represado, até a chegada absoluta de seu amor.
Então ele próprio teve medo.
Fugiu de todas
as esquinas, dos portões dos colégios, sumiu no
meio das hóstias pra não ser devorado por cada uma
de nós.
As meninas
foram pontuais! Estiveram em todos os perigos infalíveis...
mas ele... ele nunca veio!
elisalucinda@radnet.com.br
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