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Fotos: René
Cabrales
Eduardo
Bueno
Contador
de Histórias
Irônico
e articulado, o jornalista e escritor conversa com o EC a respeito
da polêmica que cerca seus livros sobre o Brasil Colonial
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| "É
obvio que um dos componentes das críticas é
pela minha figura quase caricata e histriônica. Agora,
o seguinte: eu sou assim, gosto de ser assim e eu gosto de
incomodar careta. Gosto mesmo" |
EC
Tu te tornaste um homem rico com a venda de teus livros?
Eduardo
Bueno É a pergunta mais óbvia e um tanto
improcedente, na verdade, num país onde até esta
semana o juiz Lalau recebia R$ 15,7 mil por mês de aposentadoria
depois de já estar foragido e onde o Dunga recebia R$ 200
mil para levar o drible elástico e um balão do Ronaldinho...
Mas, de qualquer forma, eu ganhei o suficiente para o leite de
amêndoas das crianças. Na verdade, o que esses livros
me propiciaram de dinheiro foi um apartamento de R$ 150 mil. Eu
acho um absurdo você considerar que alguém que consegue
comprar um apartamento de R$ 150 mil esteja rico. Mas, de qualquer
forma, o que realmente interessa nessa questão são
dois lados. Primeiro: ficou claro que dá para viver de
livro no Brasil. Não é só uma instância
individual, mas isso mostra para outras pessoas que existem nichos
de mercado, que existe um público ávido por determinados
tipo de livros e determinada informação e que tal
interesse pode permitir que você viva de literatura. A única
coisa que eu sei fazer na vida é escrever. Se eu quisesse
ficar rico escrevendo, eu só tinha uma alternativa: ser
publicitário gigolô de palavras. Então dinheiro
nunca foi minha prioridade. Se fosse, eu seria publicitário
não jornalista nem escritor. Então eu acho que no
decorrer dessa entrevista vão aparecer outros tópicos
que vão deixar clara aquela frase do Tom Jobim: sucesso
no Brasil é ofensa pessoal. Então um dos motivos
para as pessoas perguntarem se eu sou rico é, mais uma
vez, o feio sentimento da inveja. Embora nem todas as pessoas
se manifestem de forma tão patética quanto o professor
Luís Roberto Lopez.
EC
Esse sucesso não saiu do nada. Como tudo começou?
Eduardo
Bueno Começou com os colecionáveis da
Zero Hora. Eu estava insatisfeito com minha vida na redação,
que era muito desgastante, muito estressante. Pensei na possibilidade
de chutar o balde mas já estava velho demais para chutar
o balde, já tinha chutado várias vezes na vida,
então resolvi procurar uma saída que mantivesse
um vínculo com um jornal onde eu tinha sido muito bem tratado
pela direção até então. Propus a História
do Brasil em fascículos colecionáveis, desde a pré-história
até o governo FHC.
EC
O gancho era o descobrimento do Brasil, os 500 anos...
Eduardo
Bueno O gancho era a proximidade dos 500 anos. E o
nicho dos colecionáveis, que são uma das maiores
fontes de renda dos jornais. Eu já meio que coordenava
esse setor de colecionáveis na Zero Hora, que eram comprados
do Exterior e propus a produção de um colecionável
próprio sobre a História do Brasil com um grande
apelo visual, muita imagem, porque os colecionáveis têm
de ter essa coisa visual, e que fosse uma
história narrativa porque eu achei que havia um nicho e
achei que a história do Brasil não era contemplada
por essa história narrativa com ênfase no aspecto
visual. Eu queria me livrar um pouco do ranço didático
e de alguns aspectos eventualmente pernósticos da produção
acadêmica. Fui encarregado de fazer esse colecionável
como um produção independente minha. Como sou péssimo
empresário, me vi arruinado e tive um saldo negativo de
R$ 70 mil embora o colecionável tenha sido publicado pela
Folha de São Paulo, Zero Hora e O Globo e depois por mais
dez jornais. Agora vai sair em livro, para alegria dos meus detratores,
pois quero avisar que não estou me atendo a história
colonial mas sim a toda história do Brasil...
EC
Voltando ao fracasso financeiro como empresário...
Eduardo
Bueno Sim, daí eu me vi arruinado, com um imenso
prejuízo e desempregado. Fui para o Rio de Janeiro de ônibus
e ofereci a coleção Terra Brasilia para Roberto
Faith, da Editora Objetiva. Algumas pessoas,
dentro dessas acusações que são feitas a
mim, dizem que por causa do sucesso do primeiro livro foram saindo
os outros. Não. A gente tem um contrato assinado para sete
livros e mesmo que o primeiro tivesse vendido apenas dois mil
exemplares eles manteriam o contrato porque tem multa contratual
se eles romperem assim como tem multa contratual se eu romper.
Então inclusive foi uma grande vantagem para a editora
ter feito esse contrato de sete livros. Estou escrevendo o quarto
no momento, que deveria ter sido entregue em março de 2000,
o que significa que estou atrasadíssimo.
EC
Entre as coisas que se erguem contra ti e teus livros há
a acusação de que tu não darias o devido
crédito à tua consultoria.
Eduardo
Bueno As acusações feitas contra mim
são tão injustas que uma delas é essa de
que eu não dou crédito à minha consultoria.
É um absurdo porque o Ronaldo Vainfas, que é o consultor
técnico da coleção, tem o nome dele bem grande
estampado na capa. E embora o trabalho
dele seja mais profundo, mais científico, mais fundamentado
que o meu, é óbvio, o nome dele nunca foi tão
lido quanto agora por causa dessa coleção.
EC
Outra crítica que se levanta é a falta da mesma
profundidade no teu trabalho, ao contrário da maioria dos
livros de história convencionais.
Eduardo
Bueno
É óbvio que não tem e nem se propõe
a ter. Na verdade, é o seguinte: nessa entrevista, até
por ser para um jornal de professores, a gente deve se ater às
críticas. Mas quero deixar claro que as críticas
são uma parte imensamente menor que os elogios. Meus livros
causaram um impacto positivo muito maior do que qualquer crítica
eventual. Evidentemente existiram críticas pertinentes
e eu estava preparado para essas críticas. Mais do que
preparado, eu estava disposto a ouvir as críticas realmente
procedentes. Não é culpa minha que a maior parte
das críticas tenha sido feita por gente limitada, medíocre,
com uma produção patética como o professor
Luís Roberto Lopez.
EC
Qual é a bronca com Lopez?
Eduardo
Bueno Estou falando dele aqui, não vou falar
dele num lugar onde ninguém nunca ouviu falar o nome dele.
Então ele não vai me usar de escada. Ele está
me criticando para o nome dele aparecer em outros lugares. Não
vai. Vai aparecer no jornal dos professores que é o que
ele é. E um mau professor além de tudo. Alguns dos
maiores historiadores do Brasil elogiaram meus livros porque sabem
das próprias limitações desses livros. Claro
que essa crítica de que os livros não têm
a profundidade de uma obra historiográfica é procedente
até um ponto porque a proposta deles era essa. Eu escrevi
um livro que, realmente, é repleto de simplificações
e de generalizações correndo o risco consciente
de fazer essas generalizações para atingir um número
maior de pessoas. Eu sempre fui um cara ligado à cultura
pop, ligado à cultura cinematográfica e quis transmitir
essa linguagem jornalística, essa coisa mais pop, essa
coisa mais acessível, essa coisa mais visual e essa narrativa
mais fluente para a História. Por pura, acredite se quiser,
e talvez eu esteja dando margem para novas críticas, por
pura ge-ne-ro-si-da-de. Porque é o seguinte: eu acho que
falta generosidade, além de uma certa competência
no estilo, à produção adacêmica do
Brasil. As limitações de estilo existem, mas acho
que elas não prejudicam tanto quanto uma certa arrogância
na postura de alguns historiadores. De alguns, porque a produção
historiográfica brasileira é de primeira grandeza,
eu devo muito a ela. A minha obra é uma obra de segunda
mão, sim. É uma obra de divulgação,
sim. Não sou historiador, sou jornalista, agora acho que
o que se deve discutir também é o quanto as pessoas
que nunca tinha ouvido falar em história colonial do Brasil
ou que tinham raiva de capitanias hereditárias, de João
Ramalho, de Bacharel de Cananéia, do rei Carlos V, do rei
Dom Manuel, o Venturoso, passaram a freqüentar este universo
com muito mais prazer.
EC
Há quem diga que essa tua paixão pelo período
colonial da História do Brasil te leva a certos exageros,
a uma tendência a colorir a História,
que te deixa próximo da inverdade histórica.
Eduardo
Bueno Não.
Eu acho, como já falei, que a crítica mais procedente
são quanto às pinceladas breves e pano rápido
e às simplificações e generalizações
e às extrapolações. Agora, tudo que está
ali é documentado. Tudo. Eu posso, eventualmente, forçar
um pouco a mão no colorido porque eu sou favorável
a uma narrativa mais luxuriante porque acho que a História
do Brasil tem esse lado épico tipo o filme A Missão,
o único produzido até agora sobre isso, sobre esse
período que eu acho especialmente movimentado. Agora, eu
desafio qualquer um a dizer qual é a inverdade histórica
efetiva que exista em qualquer um dos meus livros. Até
pode ter, mas fruto de engano e não de má fé.
EC
Tu não achas que não apenas o fato de não seres
historiador mas o teu próprio jeito informal
de ser incomoda um pouco e provoca parte das críticas?
Eduardo
Bueno Claro, sem dúvida. E talvez eu até
devesse ser mais comedido. Quem vive do jeito que eu vivo, se
comporta do jeito que eu me comporto e diz as coisas que eu digo,
vai na TV e bota a cara desse jeito, tem de estar preparado para
a crítica. Eu estou. Até para a crítica baixa
e rasteira. Eu só lamento que a crítica seja baixa
e rasteira porque acho que qualquer pessoa bem intencionada, e
eu sou bem intencionado, pode aprender com a crítica real,
com a crítica efetiva, com a crítica séria.
Eu adoraria receber uma crítica do Luiz Felipe Alencastro,
por exemplo, que eu sei que é um cara que não morre
de amores, não perde tempo lendo meu livro, no que talvez
ele esteja certo porque ele sabe muito mais e está em outro
grau de aprofundamento de todas as questões que eu roço.
Agora, é óbvio que um dos componentes das críticas
é pela minha figura quase caricata e histriônica.
Agora, o seguinte: eu sou assim, gosto de ser assim e eu gosto
de incomodar careta. Gosto mesmo. Quer dizer, eles nos incomodaram
a vida inteira, eles construíram um mundo de merda, uma
vida de merda, uma estrutura de merda, um país de merda.
Então o seguinte, cara: é a nossa vez. Eu faço
parte da geração dos anos 60 e acho que tenho mais
é que incomodar mesmo. Deixou de ser meu objetivo preferencial
na vida e não escrevi esses livros para incomodar ninguém,
agora, fico bem feliz que incomodem. Escrevi para, generosamente
- e vai ver que vou ser criticado por isso que vai ser como uma
pretensão -, para generosamente compartilhar com o maior
número possível de pessoas, a aventura do Brasil
colonial que é claro que não foi só aventura,
é evidente que foi trágica, mas que também
tem esse seu lado cinematográfico.
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