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Um grande
negócio chamado violência
César
Fraga
Foto: René Cabrales
Grades,
muros, guardas, carros-fortes, vigilantes, câmeras, satélites.
A macroeconomia da segurança é um negócio
de cifras fabulosas. Já representa 6,6% do PIB brasileiro.
O negócio de proteção contra a violência,
no Brasil, consome recursos superiores ao PIB de alguns países
do Mercosul e mobiliza cerca de 1,3 milhão de homens, o
que equivale a quase cinco vezes mais do que as forças
armadas.
Os dados alarmantes
sobre o custo da segurança no Brasil são revelados
pelo trabalho do pesquisador de segurança carioca Ib Teixeira.
Apesar de fazer parte da Fundação Getúlio
Vargas, Teixeira prefere assumir por si próprio as informações,
pois segundo ele, muitas vezes suas posições são
diferentes das manifestadas pela instituição da
qual faz parte. A pesquisa tomou como base o ano de 1999, quando
vários setores da economia registraram números negativos,
o que não foi o caso do setor de segurança.
Conforme Teixeira,
no ano passado os serviços de segurança privada
em todo o país tiveram um crescimento estimado em 4% e
5% repetindo o ótimo desempenho dos anos anteriores. O
motivo apontado não poderia ser outro: O avanço
da violência nas grandes cidades brasileiras. De acordo
com levantamento nacional de furtos e roubos de veículos,
apurado pela Renavan, em apenas um ano, 371 mil veículos
desapareceram, a grande maioria, 229 mil, em São Paulo
e 54 mil no Rio de Janeiro. Se rouba mais carros no Brasil
do que alguns países da América Latina conseguem
fabricar.
Na área
de segurança privada também pode ser observado o
aumento da utilização da tecnologia em aparatos
eletrônicos, graças a incorporação
de sofisticados sistemas de proteção. Alguns incluem
acompanhamento aéreo e via satélite. Este segmento
obteve uma taxa de crescimento anual de 10%.
Estimativas
também mostram que o setor movimenta cerca de 3,3 milhões
anualmente. A maior parte destas empresas, - cerca de 120 com
reconhecimento do governo federal -, estão localizadas
em São Paulo. O total no País é de 313 companhias
que se dedicam exclusivamente às prestação
de segurança. Porém, suspeita-se que o dobro está
atuando no mercado. As outras 300 não estariam obedecendo
à regulação constante da Lei 7.002, de 1983,
nem da portaria 992/95, que estabelecem direitos e deveres no
setor.
Por isso são
consideradas clandestinas pela Polícia Federal. Outra variável
apontada pelo estudo mostra que a grandeza do setor de segurança
privada pode ser notado pela sua participação percentual
na arrecadação previdenciária total. Conforme
dados da Federação Nacional de Empresas de Segurança,
representando 1,3% do total arrecadado para o INSS, entre 1998
e 1999, no acumulado de março/agosto.
Um exército
de soldados privados
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| Produtos
eletrônicos lideram investimentos do setor |
O efetivo
da segurança privada no Brasil representa um verdadeiro
exército. São mais de 800 mil guardas, destes 500
mil regularmente credenciados (números relativos ao ano
passado) e 300 mil atuando clandestina mente.
Esses números
equivalem a um terço da população uruguaia.
Trata-se de um exército maior do que o efetivo da forças
das polícias civil e militar do Rio de Janeiro juntas e
6,7 vezes o número de policiais de São Paulo. São
três vezes e meia a quantidade de soldados das forças
armadas brasileiras incluindo Marinha, Exército e Aeronáutica.
Reunindo os três, a soma dá apenas 280 mil homens.
Um outro detalhe é que enquanto a vigilância privada,
enquadrada na Lei 7.002, que obriga o efetivo a estar devidamente
qualificado por meio de sofisticados cursos de formação,
os clandestinos, à margem da legalidade, continuam sem
atender a nenhuma regulação e oferecem risco real
aos contratantes e à população em geral.
Teixeira ressalta
que a alta incidência de seqüestros, assaltos a residências
e invasões de fábricas acabam por dinamizar outros
dois ramos do mercado de proteção. Um é o
gradeamento de edifícios, o outro a blindagem de veículos.
Esta última teve um crescimento substancial no Rio Grande
do Sul, nos últimos tempos, onde foi registrado aumento
da procura por esses serviços. A pesquisa se baseou no
preço médio do metro de grades a um custo que oscila
entre 100 e 200 reais. Além do gradeamento, outros recursos
mais sofisticados são utilizados pelos condomínios,
como monitoramento interno e externo com o uso de câmaras
e circuitos fechados de TV, cartões de acesso inteligentes
que podem ser lidos com uso de antenas e programações
especiais de horário para o trabalho dos vigilantes. Alguns
pacotes completos podem custar entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão.
A blindagem nos carros, recurso bastante usado por pessoas mais
saudáveis financeiramente (entre os quais empresários,
banqueiros e profissionais liberais) para escamotear a violência
das ruas, já ultrapassa de longe a marca dos 10 mil veículos.
As blindagens, normalmente de metal, já evoluíram
para os modernos revestimentos de cerâmica, estes capazes
de suportar descargas dos famosos fuzis AR-15, tornando o veículo
mais leve, porém bem mais caro. O hábito acaba por
fazer o monge. A demanda por segurança privada no Brasil
é tanta que a tecnologia no setor acabou evoluindo ao nível
encontrado em vários países europeus e de Israel
(por motivos óbvios). O custo vai às alturas. Muitas
vezes uma blindagem tem o preço de um veículo de
luxo ou até mesmo o dobro de um de preço médio,
ultrapassando os R$ 70 mil. Os pacotes incluem alto-falantes internos
e externos, sirenes, microfones, etc. A blindagem não se
restringe à lataria, mas também ao chão do
automóvel, tanque de combustível, grade do radiador
e compartimento do motor e vidros à prova de bala como
complemento.
Eletrônica
é a estrela da festa
Na área
eletrônica, cerca de R$ 500 milhões estão
sendo investidos pelas empresas. Como resultado, ocorre a introdução
acelerada de modernas tecnologias na área de segurança.
Consta no estudo de Teixeira, que uma empresa paulista, associada
à norte-americana Cimarron, dispõe agora de um centro
operacional que trabalha com o chamado Skymark-AVL, utilizando
satélites. A empresa se chama Gocil e é detentora
do certificado ISO 9002.
Mas o que
é isso exatamente? Trata-se de um novo sistema que rastreia
em tempo real e dá a localização exata de
veículos, além de propiciar comunicação
bilateral ampliando a margem de segurança do usuário.
Outra novidade é um simulador capaz de colocar qualquer
pessoa em situações bem próximas da realidade,
por meio de computadores que monitoram armas de tiro a lazer.
A criatividade
das empresas não pára por aí. Duas empresárias
inventaram um recurso bem mais barato, o guarda-costas de plástico.
Possui boa apresentação, olhos verdes e não
recolhe INSS. E o melhor, além de não falar e não
enxergar nada, é visto por todos que estiverem fora do
veículo.
Possui movimento
de pescoço e olhos. Outro recurso, este já bem antigo,
ainda em voga é o bom e velho cão-de-guarda. Os
canis tem aumentado a venda de cães que se prestam para
a função. Mas segundo o estudo, a grande vedete
é mesmo a eletrônica. E é ela que também
apresenta mais eficácia. O faturamento deste segmento.
Conforme a Associação Brasileira das Empresas de
Segurança, deverá ultrapassar os R$ 2 bilhões
ainda este ano, com possibilidade de crescimento de 10 a 20% para
2001, mantendo este índice anual no próximo qüinqüênio.
Um sistema chamado SPA (sistema de previsão de assaltos),
tem reduzido os assaltos a bancos paulistas utilizadores do serviço.
A sofisticação é tanta que todos os dias
pela manhã helicópteros alçam vôo na
capital paulista durante o horário comercial para observar,
através de rotas pré-estabelecidas, o cliente em
questão. Ao primeiro disparo de alarme, o helicóptero
parte para o local indicado, acompanhando do alto a evolução
dos acontecimentos e a atuação da polícia.
A qualquer tentativa de fuga dos assaltantes são acionadas
câmaras de vídeo super sensíveis a luz, tornando
possível identificar até mesmo a placa de uma motocicleta
em close up. Essas informações são repassadas
para uma base em terra e para a polícia. O serviço,
em comparação com outros, nem é tão
caro. Um ponto de observação do SPA ligado a uma
rota já estabelecida custa em torno de R$ 1.358,00.
As multinacionais
também estão de olho nesse mercado. A Philips, por
exemplo chegou a faturar R$ 1,5 bilhão e registra taxas
de crescimento de 8% ao ano. Os produtos são câmaras
de segurança, vídeos de tempo estendido, circuitos
fechados de TV e outros apetrechos. A empresa lançou no
mercado até mesmo uma pasta executiva que dá choques
em quem tentar roubá-la com alarme acoplado.
Seguros
tiram sua fatia
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| Há
grande diferença entre investimentos dos setores públicos
e privados |
Quem também
movimenta uma boa quantia de dinheiro são as companhias
de seguro. As receitas delas evoluíram de R$ 12,1 bilhões
(em 1994), para R$ 19,3 bilhões (em 1998). No segmento
de seguros de não-vida, a arrecadação de
prêmios alcançou R$ 9 bilhões, dos quais 30,95%
vieram dos seguros de veículos. No ano em que foi realizado
o estudo, 1999, foram arrecadados R$ 4,6 bilhões só
nos nove primeiros meses, chegando a R$ 6 bilhões em dezembro.
O seguro obrigatório dos veículos, o DPVAT, responde
por cerca de R$ 1 bilhão e o de transporte com cerca de
meio bilhão de reais, apresentando um crescimento de 14,79%.
O setor de seguros residenciais também causa um impacto
considerável nesta soma, cerca de R$ 1 bilhão.
Mas do grande
paradoxo constatado pela pesquisa de Ib Teixeira é justamente
entre o setor público de segurança e o privado.
Enquanto o último cresce a olhos vistos, o primeiro
mergulha em um mar de burocracia.
Ele cita o
exemplo da Polícia Militar de São Paulo que para
um contingente de 14 mil sargentos aposentados, dispõe
de apenas 1.400 na ativa. Para 53 coronéis em atividade
existem 1.000 reformados. De um total de 83 mil homens em exercício
existem 35 mil pensionistas. A banda da PM paulista possui mais
de 600 soldados. O dado mais curioso, número idêntico
ao número de barbeiros. Só na Casa Militar estão
lotados cerca de 499 PMs. Dos 81 mil efetivos, mais de 31 mil,
44% se encontram em atividades que não são a do
policiamento.
Ao que tudo
indica, as aposentadorias, geralmente muito precoces, acabam sugando
recursos públicos no setor. Um PM pode se aposentar como
coronel no mais alto posto da hierarquia, com apenas 50 anos.
Já na Polícia Civil, uma grande quantidade de leis
corporativas impedem uma justa avaliação. Tanto
faz trabalhar como não trabalhar. No Rio de Janeiro
, por exemplo, se você liga para um delegado e lhe comunica
a ocorrência de um assassinato ele responde que não
é com ele e manda ligar para uma radiopatrulha. Pelo
menos os regulamentos militares permitem punições
drásticas e rápidas na PM. Apresentar-se mal vestido,
sem barbear-se, pode significar até 30 dias de detenção.
Na Civil existe apenas a suspensão. Nela, inquéritos
sobre corrupção levam anos e quase sempre dão
em nada, garante Ib. No Rio, a despesa orçamentária
caiu de 8,7% para 7,2%. Em 1998 cerca de R$ 1 bilhão foi
destinado às polícias estaduais. Em São Paulo
se gasta praticamente o dobro, quase R$ 2 bilhões destinados
aos 38 mil efetivos da Polícia Civil e 80 mil da PM. No
Rio, o número de policiais é menor, 28.878 militares
e 10.200 civis. A estimativa de gastos nos demais estados é
de R$ 6 bilhões. Acrescentando a essas despesas o R$ 1
bilhão dos gastos de Brasília e algo em torno de
R$ 1,5 bilhão dos policiais da União (Federal, Rodoviária,
Ferroviária e outras) a soma dá R$ 14,5 bilhões.
Mas como se
trata de recursos não muito bem dimensionados, o estudo
se prende apenas nas despesas dos estados, que representam R$
12 bilhões. Em Nova Iorque, existem apenas 39 mil
guardas no policiamento das ruas.
O mesmo número
do total das polícias cariocas, por exemplo. Lá
os resultados são completamente diferentes. Mas isso já
é outra história, afirma o pesquisador.

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