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A terceira
margem do trabalho
Marcia
Camarano
Foto: René Cabrales
O
acampamento visto ao lado da fábrica da GM, entrando pela
BR 130, em Gravataí, não é mais uma ocupação
do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), como podem pensar
os desavisados. Trata-se, isto sim, do primeiro acampamento organizado
pelo Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), onde, desde
maio, convivem 200 famílias vindas da região metropolitana
cujos chefes, seja por falta de qualificação, escolaridade,
idade, sexo ou qualquer outro perfil exigido numa
proposta de emprego, não encontram mais lugar no mercado
de trabalho.
A área
ocupada, com 22 hectares, foi desapropriada no governo Britto
e está sub judice. Hoje, os líderes do MTD e o governo
do Estado estão negociando um acordo para a desocupação,
desde que haja o reassentamento em outro local, com garantia de
trabalho e moradia. Enquanto isso não ocorre, os acampados
sobrevivem, resolvendo de forma coletiva os problemas que, antes
dessa realidade, eram individuais.
Se estou
desempregado, o problema é meu, diz a sociedade lá
fora. Mas quando a gente se junta, o problema passa a ser coletivo,
afirma Rosimar Vieira, 33 anos, casado, pai de dois filhos. Metalúrgico,
ele ficou quase nove anos no seu último emprego, uma fábrica
de armas em São Leopoldo, hoje quase falida, com menos
de 10% da força de trabalho que tinha há 10 anos.
Demitido e carimbado por pertencer ao sindicato da
categoria, as portas se fecharam. Então, surgiu a proposta
do acampamento e Rosimar abraçou. Hoje, ele faz parte da
direção estadual provisória do MTD.
Quem
pensa que é só ir chegando para pertencer ao grupo,
está enganado. Viver em coletividade tem suas regras e
o primeiro acampamento de desempregados organizados tem um regimento
interno com normas básicas de comportamento. Quem não
cumpre, está fora. As famílias são divididas
em núcleos e os adultos têm tarefas a cumprir para
manter a vida em comum organizada, seja na educação,
higiene, saúde, alimentação e segurança,
entre outros itens. As regras são mais rígidas em
relação ao consumo de álcool e drogas. Por
não se adequarem ao regimento, mais de 40 pessoas já
saíram.
Os que
visualizam um futuro, esperança de uma vida melhor, amparados
um no outro, esses ficam. Os outros vão embora, explica
Mauro Cruz, um dos coordenadores do MTD. E os que ficam, pelo
menos têm o que dividir, pois uma horta comunitária
fornece verduras, temperos e até chás. Nela trabalham
10 pessoas, coordenadas por Cézar Carvalho 41 anos, pedreiro
de profissão, mas que nos últimos tempos conseguia
raros biscates. Ele saiu de Sapiranga e veio para o acampamento,
junto com o filho e a mulher, Geci dos Santos, 39 anos, 17 dos
quais trabalhando no ramo calçadista. As duas últimas
firmas em que trabalhei faliram, lembra. Geci, hoje coordenadora
de núcleo e integrante da direção do acampamento.
E
não é só isso. Para matar a fome no acampamento,
que possui 62 crianças, entre seis meses e 16 anos, o grupo
instituiu uma mini-padaria, que consegue produzir 50 pães
por dia. Isso, no entanto, é uma luta diária. No
dia 16 de outubro, por exemplo, não teve pão, porque
a farinha acabou. Um problema enfrentado pelo grupo hoje é
a falta de estrutura para ampliar o projeto, pois o sonho de quem
trabalha na padaria é produzir pães para vender
fora do acampamento.
Se temos
problemas, temos que pensar em como resolver juntos, ensina
Marli Vieira, que possui o 2º grau e assumiu a função
de professora do Mova (alfabetização de adultos).
Com todas as dificuldades que isso acarreta, acrescenta.
Sim, porque no início, se inscreveram 21 alunos para as
aulas, dadas em um galpão que também serve para
as reuniões da comunidade.
Lidar com
adultos é mais difícil, porque eles têm suas
tarefas, seus sistemas de vida e isso significa falta de seqüência
das aulas. Mas a gente vai tocando, porque esse é
um projeto importante e muita gente não consegue emprego
lá fora porque não é alfabetizada.
Já
as crianças estão sendo matriculadas nas escolas
próximas, com a ajuda da Delegacia de Ensino de Gravataí.
Porém, muitas não conseguiram vagas, porque chegaram
com o ano letivo em andamento. Encaminhamos para a Secretaria
de Educação a proposta de uma escola itinerante,
que até é mais conveniente para a realidade das
nossas crianças, informa Marli. Para auxiliar na
organização, alguns homens resolveram construir
uma ciranda, uma espécie de creche, onde as crianças
brincam e aprendem sob os cuidados de um adulto enquanto os pais
trabalham.
No local que
serve de sala de aula, carteiras e quadro-verde foram doados,
assim como as cinco máquinas de costura, equipamento básico
para os trabalhos artesanais que estão sendo confeccionados:
luva para forno, bolsas, porta-óculos, porta papel higiênico,
puxa-saco e capa para colchão.
Todos sonham
com cooperativas de trabalho, de onde possam tirar seu sustento.
Rosimar informa que está sendo gestada a cooperativa de
trabalhadores em construção civil e metalurgia e
a outra frente de trabalho é a cooperativa de artesanato.
Bem ao lado
da sala de trabalho funciona a farmacinha básica, com alguma
coisa para curativos rápidos e dores de cabeça,
coordenada por Hélio Coromberque, um vigilante de 47 anos
que perdeu o emprego há três meses, e Lídia
Selva, 46, uma costureira que não conseguia mais emprego
por causa da idade e não agüentava mais ouvir a frase
passa outro dia. A menina dos olhos deles é
a coleção de ervas para chás de todos os
tipos, mais conhecidos como fitoterápicos. Há
quatro meses fiz um curso de especialização,
comemora Hélio. Casos mais complicados de doenças
são encaminhados para as unidades de saúde ou para
o pronto-socorro de Gravataí
Todas as histórias
são de vida e de trabalho, de gente que vivia com dignidade
e que, com a perda do emprego e sem perspectiva de outro, viu
o mundo desmoronar, sem a solidariedade de ninguém. Um
segmento cada vez maior da sociedade, o dos desempregados, que
até agora não tinham qualquer tipo de organização.
Nós começamos a nos juntar, conversar e resolvemos
fazer um núcleo permanente de organização
dos desempregados, lembra Mauro Cruz.
O embrião
foi a luta pelo não pagamento de água e luz por
quem não tivesse emprego. A idéia se transformou
em projeto de lei da deputada Jussara Cony (PC do B) vetado pelo
então governador Antônio Britto. Perderam um combate,
mas não perderam a guerra e agora, estruturados, a tendência
é, cada vez mais, surgirem acampamentos de desempregados
pelo Estado e até pelo Brasil. O primeiro é
o de Gravataí, mas o até o final do ano, haverá
outros, diz Mauro Cruz.
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