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Verão em
Bogotá
Nei
Lisboa
Chove
em Porto Alegre, já dizia uma música do Mutuca.
E como chove, como choveu nesse último mês de outubro,
há anos não chovia tanto nessa época. O mesmo
se disse do frio dos meses de julho e agosto, o que nos faz pensar
que o calor do final de ano será também um recorde
insuportável. Há que se ter muito boa saúde
pra suportar as idas e vindas do tempo por aqui, considerando
ainda que a umidade relativa do ar é quase sempre alta,
o que acentua as sensações de frio e de calor.
Esses anos
atípicos (ou serão eles os verdadeiramente típicos?)
ajudam a desfazer o mito saudosista de que não se fazem
mais invernos como antigamente, nem verões, nem outonos,
nem polainas. Não sigo essa filosofia, vou mais pelas estatísticas,
e elas parecem mostrar que, na média, a meteorologia continua
a mesma desde os tempos do Comendador Coruja. Mas pactuo com a
saudade, é claro, em respeito até, sempre que um
taxista mais idoso lança mão da frase, concordo
gravemente que não se faz mais nada como antes, e me justifico
lembrando a enchente de 1965, no meu primeiro ano de colégio,
quando ficamos um mês sem aulas para que as salas servissem
de abrigo aos flagelados. É claro que nunca mais haverá
uma enchente como aquela, tão claro como jamais voltarei
a ter seis anos e descer de um bonde chacoalhando as galochas
em frente ao Rio Branco.
Mas ao acordar
hoje pela manhã ou menos que isso, apenas um olho
aberto e pouco convicto numa manhã chuvosa de segunda-feira
, dei com as manchetes da guerra no Oriente Médio,
da guerrilha e da intervenção norte-americana na
Colômbia, e de uma vitória do Internacional por quatro
a zero. Uma conjugação um pouco confusa de épocas,
dos anos cinqüenta aos setenta, talvez, mas certamente distinta
da data impressa no jornal, que não dei bola, erro de revisão,
essas coisas acontecem. Fiquei procurando as galochas no armário,
a passagem do bonde, o pão e a garrafa de leite ao lado
da porta, no corredor do edifício.
Não
estavam lá. Pra falar a verdade, nem o edifício
estava lá, a porta dava direto para a calçada e,
entre a gurizada que seguia para o coleginho aqui da Floresta,
divertida com o sujeito boquiaberto a ensopar o pijama, ninguém
usava galochas. Voltei ao jornal, então, e à realidade,
enfim, de que pelo menos há quatro décadas judeus
e palestinos se matam por um pedaço de terra, colombianos
se matam entre si por um pedaço de pão, e os norte-americanos
ajudam todos a resolver seus conflitos. Muy amigos.
Imagino que
o clima de Jerusalém seja oposto ao de Bogotá, um
totalmente seco, outro amazonicamente úmido. Numa e noutra
cidade, sempre há de se encontrar a figura saudosista a
lamentar que não se fazem mais invernos, enchentes e insolações
como antigamente. Mas não posso crer que a imensa maioria
de seus habitantes já não esteja farta de viver,
através de gerações, no pavor da chuva de
bombas, de pedras, de balas, na seca da intolerância, da
incapacidade de negociar para os seus e com os seus vizinhos uma
solução minimamente razoável além
da perspectiva de mais quatro décadas de mortandade. Como
São Pedro não apita nada nessas questões,
é hora de se trocar os pajés das tribos, hora de
se ver que o Bill Clinton entende de cachimbos da paz tanto quanto
de charutos, e de agradecermos a nós mesmos pelo excelente
clima da cidade de Porto Alegre.
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