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O ponto
de ruptura
Luis
Fernando Verissimo
Não
me lembro de título, diretor, nada. Era um filme italiano
com o Mastroianni. Faz anos. O Mastroianni tinha uma obsessão:
vivia enchendo balões até que rebentassem. Precisava
descobrir o ponto exato que antecedia a ruptura dos balões,
o exato ponto em que um sopro, um hálito a mais faria o
balão estourar na sua cara. E é claro que só
descobria até onde podia soprar depois que o balão
estourava na sua cara. O ponto exato era o que antecedia o estouro,
só podia ser descoberto quando não adiantava mais
nada. Você só sabe até onde pode ir quando
já foi.
Também
não me lembro que uso simbólico fazem, no filme,
dessa atormentada obsessão do personagem, nem como ela
se encaixava na trama. Devia ter algo a ver com nossa relação
com o tempo e o autoconhecimento. Afinal, nossa biografia só
faria sentido para nós depois de nossa morte, literalmente
depois do último hálito, quando nada mais faz sentido
para ninguém. A trama certamente não terminava bem.
Desconfio que o Mastroianni morria no fim, não de filosofia
de mais mas assassinado por alguém aos gritos de Pare
com esses malditos balões!. Não sei.
Às
vezes acho que o Congresso brasileiro está atrás
do mesmo ponto de ruptura, do mesmo limite de até onde
pode ir. O que você e eu chamamos de desfaçatez seria,
na verdade, uma busca ontológica de últimas verdades,
sobre eles mesmos e sobre a capacidade do saco nacional. Mas só
vão descobrir que foram longe demais quando for tarde demais.
Não há perigo aparente de ruptura institucional
como antigamente. Mas pior que um estouro na cara deve ser a lenta
degradação até a desmoralização
terminal do legislativo ou seja, da democracia entre
nós. Vá lá que seja apenas uma especulação
filosófica ou um teste de resistência de materiais.
Devem encerrá-la imediatamente. O ponto máximo está
próximo. Já encheram o bastante.
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