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A mídia
e a crise econômica Internacional
Antonio
Carlos Fraquelli *
A
conjuntura internacional tomava um curso até o início
da manhã do dia 11 de setembro, com a desaceleração
da economia norte-americana ocupando a capa dos jornais mais importantes
do Primeiro Mundo. As manchetes dos periódicos destacavam,
em primeiro plano, que a queda no ritmo de crescimento da maior
economia do planeta poderia ainda se agravar, tranformando o quadro
vigente em uma recessão. A propósito, esta última
ocorre sempre que há decréscimos do Produto Interno
Bruto (PIB) durante dois trimestres sucessivos, fato esse que
aconteceu a última vez naquele país durante o verão
de 1990.
Tomada isoladamente, a economia dos Estados Unidos é maior
que a soma das atividades produzidas, em conjunto, pelo Japão,
Alemanha e França. Daí, pode-se dizer, em sentido
figurado, que ela representa uma locomotiva para a economia mundial.
Quando se desloca, carrega consigo a ordem econômica; quando
pára, o ambiente econômico global se ressente imediatamente.
E, assim, até aquele dia 11 de setembro, a mídia
tratava duas possibilidades: a desaceleração
redução na velocidade da máquina ou
a recessão - a locomotiva passava a deslocar-se de marcha
ré.
Acontece que o ataque às torres gêmeas de Nova York
apressou a definição do cenário. Nos dias
subseqüentes, os consumidores trocaram as compras pela permanência
em casa, acompanhando de perto os desdobramentos dos ataques terroristas.
A possível diminuição do consumo era a peça
que faltava para que a conjuntura econômica tomasse o impulso
rumo à esperada definição do comportamento
da economia dos Estados Unidos. Se o consumidor não aparece,
há retração nos investimentos e cai o ritmo
da atividade econômica.
Paralelamente, a mídia passou a relatar os desdobramentos
do ataque terrorista, a preparação para o conflito
bélico e, por fim, o início da tão malfadada
guerra. O editorial do Japan Times, em sua edição
do dia 17 de outubro, analisou o impacto da guerra sobre a economia.
O texto afirma que a escuridão, o desânimo, e não
a sina ou o destino, são as palavras mais indicadas para
descrever a situação econômica mundial. De
concreto, fica a convicção do depoimento do Presidente
do Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos, Alan Greenspan
o canal da CNNfn colocou-o no ar que, ao depor perante
a comissão do Congresso dos Estados Unidos, afirmou que
tinha três preocupações no presente momento:
o consumo não se manteria elevado, a economia mostrava
sinais de maior fragilidade e o aquecido setor da construção
civil começava a esfriar.
Uma outra faceta da crise projeta-se na dimensão política.
De um lado, Osama bin Laden é o vilão, de outro,
segundo matéria divulgada pelo Canal Discovery, os inimigos
de hoje são o produto de uma parceria de ontem. Em outras
palavras, à época da Guerra-Fria era preciso criar
um Vietnã para os soviéticos, e, assim,
os norte-americanos apoiaram no passado os inimigos do presente.
A mídia de cá prescinde da presença do barbudo
saudita na televisão. Acolá, a cadeia Al-Jazeera,
criada pelo emir do Qatar, em 1996, e que se apresenta como a
nova opção entre os árabes, insiste em divulgar
os pronunciamentos do inimigo Número Um das forças
da Otan.
E, enquanto a crise prossegue, Osama bin Laden utiliza-se de um
jornalista do Paquistão, Hamid Mir, para divulgar as suas
posições políticas. Há poucos dias,
a BBC colocou-o no ar em um programa denominado Simpson´
world. Quando o jornalista britânico indagou-o se acreditava
que o saudita era realmente o autor da queda das torres em Nova
York, Hamid respondeu que achava pouco provável que alguém
que vive tão distante, sem internet, telefone e televisão
fosse capaz de armar tamanha destruição.
Opiniões à parte, a mídia trabalha duas idéias
com muita desenvoltura neste final de outubro. A primeira diz
respeito à necessidade que a vitória aliada se concretize
nos próximos 30 dias porque depois será muito difícil
superar o inimigo em pleno inverno afegão. Nos anos 50,
os norte-americanos tiveram que firmar - contrariados - um armistício
na Guerra da Coréia para não ficarem congelados
nas montanhas cobertas de neve. Agora, certamente, não
querem repetir a experiência. Em segundo lugar, a mídia
está à espera de uma terceira onda terrorista. As
duas primeiras foram o ataque às torres e o antrax. E,
aí, o poder da imaginação transcende à
realidade e avança em algo próximo à ficção.
Enquanto essas duas questões permanecem em aberto no campo
político, a economia norte-americana mantém-se no
interregno de uma desaceleração que já aconteceu
e de uma retomada do crescimento econômico que há
de vir nos próximos meses. A lição que se
extraiu da Guerra do Golfo Pérsico é que um crescimento
econômico pujante aconteceu após o final do conflito.
Neste momento, a mídia está apostando que a dose
será repetida.
Mais alguns dias e o leitor poderá confirmar a hipótese.
Caso contrário, novos diagnósticos serão
necessários, tendo em vista que esta é a primeira
guerra do século XXI. A esta altura, é preciso apostar
que sobre ainda um pouco de bom senso entre as lideranças
mundiais para que a economia global volte a crescer e os problemas
sociais possam, de vez, voltar a ser priorizados.
* Economista
da Fundação de Economia e Estatística
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