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Direito
não se negocia
Divulgação
No
início do mês de outubro o Governo Federal encaminhou
ao Congresso uma proposta de mudança na legislação
trabalhista brasileira. A proposta prevê livre negociação
entre patrões e empregados e cria uma espécie de
flexibilização na CLT. O texto, obviamente, é
defendido pelo ministro do Trabalho Francisco Dornelles que espera
a aprovação ainda para este ano. Os congressistas
de oposição querem empurrar a discussão do
tema para 2002. A verdade é que o assunto é polêmico
e ainda deve gerar muito debate. O Extra Classe ouviu o presidente
Nacional da CUT, João Felício, que explica de forma
bastante didática os perigos que os trabalhadores estão
correndo em caso de aprovação deste projeto.
César Fraga
Extra Classe
O que pensa a CUT sobre as mudanças propostas pelo
Governo Federal que alteram a CLT?
João Felício Na verdade, já faz
alguns anos que o governo tenta mudar a legislação
trabalhista, especialmente o que diz respeito aos direitos do trabalhador.
Já foi assim com a previdência, com a reforma administrativa,
contrato temporário etc. Também é assim com
a chamada reforma do Estado e outras reformas. Algumas delas não
passam por causa da resistência que enfrentam dos movimentos
sindicais, principalmente a CUT e seus sindicatos filiados para
que não haja perda de direitos ou flexibilização
das leis que os garantem.
Algumas eles conseguiram mudar, especialmente com o apoio da Força
Sindical e da Central Sindical, esta última apóia
a imensa maioria dos projetos que o governo tem apresentado.
Eles conseguiram implementar o contrato temporário. Há
pouco tempo queriam ter alterado o artigo (7) totalmente, isto é,
acabar com os direitos do artigo (7).
EC Qual a essência das intenções
do governo?
Felício O artigo (7) da Constituição
que é combinado com o artigo (618) garante o 13º salário,
o Fundo de Garantia, o final-de-semana remunerado, o pagamento em
dobro da hora extra, que são os direitos mais básicos.
Em outras palavras: quem quisesse garantir esses direitos, que fosse
negociar com os patrões. Eles não conseguiram . O
que eles fizeram agora? Criaram um texto, um dispositivo acoplado
a este artigo (618) que admite a possibilidade de flexibilizar a
aplicação do direito. Eles não acabam com o
direito diretamente, mas admitem a flexibilização
dele, isto é, flexibilização na aplicação
dele.
EC O que essa flexibilização pode acarretar?
Felício O que pode ocorrer é flexibilização
na aplicação do direito, o que dá ao dirigente
sindical o duvidoso direito de negociar o que está escrito
na lei.
EC Dê um exemplo:
Felício Então, vamos pegar o exemplo do
13º salário. Hoje ele tem de ser pago, no máximo,
em duas parcelas, certo? Como nós estamos numa conjuntura
difícil, os patrões têm oferecido baixos reajustes,
alguns reajustes zero, outros reajustes muito baixos. Você
sabe o que pode ocorrer? O patrão chega para o empregado
e diz o seguinte: Olha, eu não vou dar reajuste nenhum
na sua data base, mas o senhor aceita antecipar seu 13º já,
o do ano que vem, em suaves prestações mensais?
Entendeu? Em suaves prestações mensais, um doze avos
ao mês. É óbvio que o empregado vai aceitar:
Está bom, né? Já que eu vou ter reajuste
zero, pelo menos eu acabo recebendo o 13ª antecipado,
vai pensar. Isso é uma forma de subsidiar reajuste pelo 13º,
aí ficaria escrito no contrato lá, a antecipação
do 13º em doze parcelas. Isso, para nós, seria muito
ruim, péssimo. Você acaba não tendo o reajuste
e acaba flexibilizando. Mas este princípio serve para qualquer
outro direito: licença à gestante, em vez de dar quatro
meses consecutivos, dá dois meses agora, um mês depois
e outro mês depois. Você vai flexibilizando a aplicação
do direito. É um caminho para no futuro acabar com ele.
EC E a negociação com os sindicatos como
fica?
Felício Vou responder com outro exemplo: o patrão
chega para o dirigente sindical e diz ou você concorda
com a flexibilização do direito tal ou eu mando um
número x de funcionários embora. Ele vai usar
a força política dele. Aí ele manda embora
devido à situação econômica da empresa,
que não está vendendo nada. Mas ele vai usar o argumento
da flexibilização de direito para dizer que vai mandar
embora. É a chantagem permanente que vai ser usada. A chantagem
agora vai ser a lógica da negociação por parte
do empresariado, não todos os empresários, (partindo
do princípio de que os empresários não são
iguais), mas por parte daqueles empresários mais reacionários,
conservadores, etc.. Eles vão usar esse argumento para acabar
com os direitos. Num país onde até hoje tem o trabalho
forçoso, entendeu? Quase trabalho escravo num país
onde tem esse tipo de gente, tem gente para flexibilizar direitos
também.
EC Então a não aceitação por
parte da CUT é uma questão de princípio?
Felício Nós nunca admitimos aqui na CUT,
e isso é um princípio que nós temos: direito
não se negocia. Cumpre-se a lei. Sindicato que tiver força
política amplia direito. Como é a lei hoje? A lei
hoje é muito clara: você tem os direitos consolidados
aí, artigo (7), CLT (um monte de coisas), mas têm sindicatos
que acabam numa mesa de negociação, ampliando e conquistando
novos direitos: formação profissional, pagamento maior
pela hora extra, participação nos resultados... A
lei não impede que você, num processo de negociação,
amplie o que diz o artigo (7). Portanto, não tem essa história,
o argumento que o ministro está usando de que quer fortalecer
os sindicatos e valorizar a negociação em detrimento
da legislação não cola, ao contrário,
isso vai enfraquecer.
EC Central Sindical e a Força Sindical acreditam
que se essas mudanças fossem mais amplas se fortaleceriam
os sindicatos, isso é verdade?
Felício Não, não concordamos. Mesmo
que venha um dia o contrato coletivo de trabalho, que a CUT defende,
assim como o reconhecimento legal das centrais sindicais, que a
CUT também defende desde a sua origem. Mesmo que venha o
reconhecimento dos delegados sindicais, dos direitos que nós
temos, nós nunca vamos abrir mão. Uma coisa não
tem nada a ver com a outra. A Força Sindical tem uma mania
de querer colocar determinadas coisas, para negociar o que ela quer,
para poder justificar para a sociedade olha, eu perdi isso,
mas eu ganhei aquilo. Por isso que nós não concordamos...
EC Existe a tese de que a legislação original
não seria eliminada, porque o que seria negociado seriam
apenas garantias constitucionais. Como é que fica isso na
prática?
Felício Com esta proposta, não se acaba
com os direitos constitucionais, você acaba flexibilizando
a aplicação deles. São aqueles exemplos que
eu estava dando, sobre 13º salário e tudo o mais.
EC Isso significa perda real de direitos?
Felício Pior. Quando você flexibiliza a
aplicação do direito, você perde recursos, perde
dinheiro e esse dinheiro você está repassando para
os empresários. Quando você perde direito, alguém
fica com o teu de direito na forma de recursos financeiros.
EC Então é quase como se o trabalhador se
responsabilizasse pelo ônus da crise?
Felício É, você está transferindo
recursos teus para os empresários como se você fosse
o responsável pela crise existente no Brasil. É novamente
aquele exemplo que eu te dei do 13º salário. O patrão
tinha intenção de dar o reajuste, ele não dá
o reajuste e antecipa o 13º. Você perde o reajuste, entendeu?
Você fica com o seu poder de compra reduzido. Quando você
substitui a licença gestante por uma outra coisa, por um
acordo efetivado e tal, você perde um direito histórico
que a mulher tem e que talvez seja um dos direitos mais universais
que existe na humanidade.
EC Qual o principal argumento para não aceitar
esta proposta?
Felício Há um argumento muito forte, que
nós temos usado que é o seguinte: quando você
tem a lei que garante um conjunto de direitos, isso serve para o
Brasil numa situação financeira melhor que são
os estados mais industrializados, onde a população
tem um poder aquisitivo melhor, os sindicatos são grandes,
etc., etc., mas também garante esse direito para as regiões
mais pobres do país. Com baixa industrialização,
com poder aquisitivo menor e sindicatos menores submetidos a uma
opressão muito maior, a lei obriga o patrão deste
lugar a pagar. Quando você flexibiliza a aplicação,
quem vai perder é o mais pobre.
EC Como fica a questão da concentração
de renda?
Felício Aí tem uma concentração
de renda até entre as categorias. Quer dizer, aqueles mais
organizados, mais fortes, mais ousados que têm uma organização
sindical muito mais antiga, esses não vão perder rapidamente.
Mas um outro pobre coitado, miserável, um pequeno sindicato,
sai perdendo de cara, porque não tem força política
para manter. Então, é uma forma de concentração
de renda até entre os trabalhadores. Agora, a concentração
de renda maior é a transferência de recursos nossos
para os empresários. Os empresários estão querendo
responsabilizar o altíssimo desemprego existente no Brasil
com a existência de direitos trabalhistas.
EC E essa iniciativa do governo, ela está mais
para looby do empresariado ou uma forma de o próprio governo
se proteger?
Felício São as duas coisas. De um lado
realmente existe o lobby dos empresários. Há muito
tempo o empresariado reivindica uma redução dos direitos
nossos. Eles querem acabar com os direitos. Gozado, tem um exemplo
típico bastante interessante: os empresários têm
dois e meio por cento sobre a folha de pagamento da empresa que
vai para sustentar o chamado sistema S que são Sesi,
Senai e Senac que pertencem às confederações
e federações empresariais. Eu nunca vi um empresário
propor acabar com esses dois e meio por cento. E é uma verba
pública, é uma verba que não pertence aos empresários,
porque não são eles que pagam, é embutido na
folha que eles tiram do produto e diminui o lucro deles. Eu nunca
vi eles proporem acabar com isso, eles só propõem
acabar com o direito nosso.
EC Por que isso?
Felício Porque eu acho que os empresários
do chamado Sistema S, que é um projeto deles Sesi
Senac e Senai , eles querem continuar administrando sozinhos
esses recursos e não querem que haja uma administração
transparente nem dar satisfação para a sociedade.
A CUT, há muitos anos, reivindica a participação
dela na fiscalização, no debate, sobre a metodologia
dos recursos, que tipo de ênfase tem de ser dada assim como
a própria aplicação dos recursos. Eles nunca
admitiram a nossa participação. Por quê? Porque
é luta mesmo, é luta de um setor que quer avançar
sobre os recur sos do outro setor. É a velha luta que sempre
existiu.
EC Existe a possibilidade real dessas mudanças
passarem no Congresso?
Felício Eu duvido que os deputados aprovem um
projeto dessa natureza no Congresso Nacional num ano como esse que
estamos vivendo e até mesmo no ano que vem. Em 2002 tem eleição.
O deputado que votar num projeto dessa natureza com certeza terá
divulgados o nome e a fotografia do cidadão. Porque não
é possível. A conjuntura não está para
ficar debatendo flexibilização do direito. A conjuntura
está para debater aumento salarial e garantia de emprego
e não retirada de direitos. É uma discussão
extemporânea, fora da conjuntura, porque é querer se
aproveitar de um momento difícil, de uma conjuntura recessiva,
para avançar sobre conquistas históricas intenção
que o governo tem já há muito tempo, que não
teve coragem de fazer até agora, mas que vem com toda a força
nesse momento. Justamente numa conjuntura mais difícil, de
mais desemprego, de mais recessão, com o argumento de que
com isso vai aumentar a possibilidade de emprego. Mentira. O contrato
temporário veio e o desemprego continua crescendo. Todos
os países onde houve flexibilização de direitos
não aumentaram as possibilidades de emprego, ao contrário,
o desemprego continua crescendo.
EC Quer dizer que essa medida agravaria ainda mais a crise?
Felício Claro, isso só agrava a crise.
Todas as vezes que você retira poder de compra, retira direitos,
significa menos dinheiro no bolso do cidadão e menos dinheiro.
Se compra menos, comprando menos, a indústria produz menos
e o comércio vende menos. É isso.
EC Existem técnicos, como o professor José
Pastori da Usp, que defendem a proposta do governo. Como o senhor
analisa isso?
Felício Olha, o professor José Pastori
apóia todos os projetos do governo que procuram flexibilizar
direitos e transferir os recursos dos trabalhadores para os empresários.
Todos. Se você pegar ao longo da história as teses
defendidas pelo José Pastori, todas elas caminham nessa direção.
Assim que surge um projeto que flexibiliza direitos e retira direitos,
pode ter certeza que José Pastori está apoiando. É
a concepção que ele tem de achar que a existência
de direitos no Brasil é exagerada. Sabe o que eu disse para
um jornalista esses dias, o jornalista disse assim é
mas nos EUA, na Itália, na Alemanha, na França e no
Japão não têm tantos direitos assim, você
não acha que o trabalhador brasileiro também poderia
ter menos direitos?. Eu disse o seguinte: Olha, o dia
que no Brasil tivermos um sistema educacional tão eficiente
como nos outros países, um sistema de saúde tão
eficiente, um salário como eles ganham, uma proteção
social ao desempregado, etc., etc., aí nós vamos conversar.
Agora, querer trocar um pássaro na mão por dois voando
ah, vamos flexibilizar para que um dia nós possamos
ter um poder de compra melhor, mentira. Mesmo tendo um um
poder de compra melhor, nós não vamos concordar, mas
a gente vai discutir. Agora, com essa situação em
que nós nos encontramos... nem pensar.
| "Olha,
o dia que no Brasil tivermos um sistema educacional
tão eficiente como nos outros países,
um sistema de saúde tão eficiente, um
salário como eles ganham, uma proteção
social ao desempregado, etc., etc., aí nós
vamos conversar" |
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| Foto:
René Cabrales |
EC O que existe em comum entre a reforma da previdência,
a reforma administrativa e a implantação do contrato
temporário? Todas essas iniciativas são do governo
FHC. O que existe de comum em todas essas propostas, qual o objetivo
político?
Felício Existe uma estratégia. Uma das
lógicas da concepção de uma política
neoliberal é o enfraquecimento da organização
sindical, a retirada de direitos, diminuir o papel do estado na
vida dos cidadãos e considerar que o mercado domina tudo.O
mercado que resolve, que estabelece as coisas. Esta concepção
deixa o movimento sindical jogado às feras. Eles que resolvam
os problemas deles. A idéia, portanto, é acabar com
qualquer legislação feita pelo estado para proteger
a vida do cidadão. Essa é a lógica que permanece
em tudo, assim foi na reforma da Previdência, na implantação
do contrato temporário e na reforma administrativa . Todas
as reformas seguiram essa lógica. Como na concepção
deles, o mercado resolve tudo, os conflitos capital e trabalho
seguem nessa mesma direção. Em qualquer conflito,
quem tiver mais força prevalece, não precisa de lei
para proteger o mais fraco. O mais fraco que vai lá disputar
com o mais forte, mas só se ele tiver força política
para fazer prevalecer sua opinião.
EC Qual é a diferença entre a livre negociação
entre os trabalhadores representados pelo sindicato e os empregadores
e a atual proposta do governo?
Felício É uma diferença muito grande.
A CUT sempre defendeu a livre negociação entre o capital
e o trabalho, como uma forma de fortalecimento dos sindicatos, mas
sempre partindo de um patamar mínimo. Qual é o patamar
mínimo? É aquilo que diz a lei. Acima disso, livre
negociação. Aquilo que eu estava dizendo, quem tem
força política, com a livre negociação,
amplia direitos, conquista mais. Mas o patamar mínimo não
pode ser alterado. É preciso proteger justamente o mais fraco,
aquelas categorias mais fragmentadas e com sindicatos menores. A
livre negociação, que a CUT defende, vai nessa direção.
O sonho nosso é um dia ter nesse país um contrato
livre de trabalho, de abrangência nacional, mas nós
não temos um contrato livre de trabalho. Nem as centrais
sindicais têm um reconhecimento legal. Mesmo se um dia nós
tivermos isso, acabando com o poder normativo da Justiça
do Trabalho, alguns direitos têm de permanecer, garantidos
pela lei, para proteger os mais fracos, como eu estava dizendo.
Quais são os direitos? São esses que estão
na lei, aí. Nunca a CUT vai admitir a perda de 13º,
licença gestante, fundo de garantia. Isso nós não
abrimos mão, nenhum sindicato nosso. A orientação
nossa é sequer admitir a possibilidade de flexibilizar alguns
desses direitos. Isso é um princípio que nós
defendemos e ao qual somos irredutíveis.
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