|

Ecológicos
que dão pé
Foto: René Cabrales
Os
pequenos agricultores da região de Três de Maio,
no noroeste do Estado, estão aliando qualidade de vida
a bons negócios. Há dois anos, a Cotrimaio
uma das cinco maiores cooperativas gaúchas, com seis mil
associados em 12 municípios e faturamento de R$ 100 milhões
anuais estimula produtores a trocarem a soja convencional
pelo produto orgânico, de olho na demanda cada vez maior
do mercado de alimentos naturais nos países desenvolvidos.
A iniciativa está mudando o perfil cultural da região.
131 produtores já aderiram à soja orgânica.
72 deles concluíram o período de conversão
das lavouras numa área de 367 hectares e preparam-se para
iniciar, este mês, o plantio da primeira safra que será
exportada para a Europa, os Estados Unidos e o Japão
os demais agricultores ainda estão na fase de purificação
do solo, que dura dois anos. A expectativa é colher, em
abril de 2002, cerca de 500 toneladas. A meta é integrar
mil agricultores à proposta num prazo de dois anos,
afirma o presidente da Cotrimaio, Antônio Wünsch.
Paulo César Teixeira
rês
de Maio é apenas um dos exemplos de adoção
bem-sucedida da agricultura sem a utilização de
adubos químicos e pesticidas. Atualmente, 3.370 famílias
de agricultores gaúchos desenvolvem culturas a partir de
técnicas ecológicas, ocupando área de 13
mil hectares em 162 municípios, de acordo com dados da
Emater/RS. Há dois anos, eram pouco mais de mil famílias
que plantavam 2,5 mil hectares sem o uso de venenos. Ao mapear
a agricultura orgânica no Estado, a Emater constatou que
os pólos de produção se pulverizaram, atingindo
praticamente todas as regiões.
Ainda incipiente no Brasil, o mercado de alimentos orgânicos
está em franca expansão na Europa. Em 1999, o presidente
da Cotrimaio viajou para a França e a Inglaterra. Na
Inglaterra, tivemos acesso a uma pesquisa realizada por grandes
supermercados, indicando que 20% dos ingleses queriam consumir
alimentos acima de qualquer suspeita, mas apenas 3% tinham acesso
a eles, relata Wünsch. O passo seguinte foi garantir
a certificação da soja de Três de Maio através
da Ecocert empresa de origem francesa presente em 70 países.
A certificadora controla a qualidade do produto do plantio à
industrialização. Além de proibir o
uso de pesticidas e adubos químicos, vasculhamos a origem
genética das sementes, com testes de DNA nas folhas da
planta, e verificamos até se as máquinas usadas
para lavrar a terra não estão contaminadas por venenos
de outras lavouras, diz João Augusto de Oliveira,
secretário-executivo da Ecocert Brasil.
Antenor Desconsi, 53 anos, dono de uma propriedade de 13 hectares
em Três de Maio, há dois anos adotou a agricultura
orgânica. Mudei por uma questão de consciência,
afirma. O conselho, para entrar no novo filão, ele recebeu
em casa, de um dos quatro filhos Cristiano, 22 anos, formado
em Agroecologia, em Braga, a 50 km de Três de Maio. No primeiro
ano, Desconsi plantou um hectare de soja orgânica. No segundo,
ampliou para cinco hectares. O entusiasmo foi tanto que decidiu
desenvolver a produção de leite orgânico.
As minhas vaquinhas são todas tratadas à homeopatia,
esclarece. O produtor esfrega os dedos pensando na lucratividade
que terá ao exportar a soja orgânica no próximo
ano. Em relação à soja convencional,
vou faturar o dobro e mais um pouquinho, prevê. O
agrônomo Onairo Freitas Sanches, gerente da Cotrimaio, é
mais cauteloso. O preço varia conforme as oscilações
do mercado internacional. Este ano, a saca de 60 quilos da soja
orgânica para consumo humano chegou a valer US$ 20, o dobro
do produto convencional. Para 2002, é de se esperar uma
diferença de preço menor, de 40% a 50%.
A experiência de Três de Maio, voltada para o mercado
externo, ainda é exceção. A maior parte dos
orgânicos produzidos no Estado é comercializada na
própria região ou em feiras ecológicas dos
principais centros urbanos, que se expandem rapidamente. Em Porto
Alegre, por exemplo, o número de feiras que vendem só
produtos orgânicos aumentou de duas para dez, em cinco anos.
Algumas cooperativas formaram uma rede de distribuição
solidária a Ecovida , que espalha os alimentos
em todas as regiões do Estado e também pelo interior
de Santa Catarina e Paraná. O caminhão chega
aqui abarrotado de grãos e retorna ao local de origem carregado
de frutas, exemplifica Paulo Lenhart, diretor da Ecocitrus
(Cooperativa de Citricultores Ecológicos do Vale do Caí).
Fundada em 1994, a Ecocitrus capta resíduos de origem vegetal
e animal, como cascas da acácia negra, cinza de lenha e
gordura e sangue do gado sacrificado em frigoríficos, para
transformá-los em biofertilizantes. São 450 famílias
de agricultores que faturam R$ 800 mil anuais, produzindo 15 mil
toneladas de frutas (o carro-chefe é a bergamota do Caí)
em 450 hectares de pomar. Até 2003, ampliaremos para
mil hectares. Em dez anos, esperamos contar com 500 famílias
numa área de 3 mil hectares, planeja Lenhart.
| Como
está o mercado |
| Embora
tenha aumentado consideravelmente, a área ocupada pela
agricultura orgânica ainda é modesta algo
entre 1,5% e 2% do total de área plantada no Estado.
A expectativa da Emater é de um crescimento anual de
20%. A ampliação das lavouras ecológicas
é motivo de comemoração, mas traz à
tona novos problemas. Um deles é o preço elevado
pago pelo consumidor. A justificativa é a de que o
produto é de melhor qualidade e exige mão-de-obra
intensiva no campo. Além disso, na ausência de
aditivos químicos, o desenvolvimento das lavouras é
40% mais demorado em relação ao plantio convencional,
com perda de 30% da produção. |
Leia também:
- Venda direta
ao consumidor
|