|

Venda
direta ao consumidor
Um dos projetos pioneiros no Estado é o de Ipê, na
serra gaúcha, que se destaca pela biodiversidade. Desde
1985, os agricultores produzem desde milho, trigo e feijão,
até maçã, uva e tomate, passando por alho,
cenoura, beterraba e alface. Atualmente, são cerca de 100
famílias de pequenos produtores que, toda a semana, enchem
seis caminhões com 30 toneladas de alimentos para vendê-los
nas feiras ecológicas da capital. A grande vantagem
é eliminar o intermediário. O agricultor leva o
produto diretamente ao consumidor, diz Neudi Balancelli,
40 anos, dono de uma propriedade de 23 hectares. Em Ipê,
a tradição ecológica ajuda até a incentivar
o turismo. Na sexta-feira à tarde, quando os caminhões
são carregados, caravanas de agricultores vindas de outras
áreas do Estado e também de Santa Catarina se deslocam
para o município. A gente dá umas aulas de
ecologia para o pessoal. Faz um passeio até as propriedades
num pequeno roteiro turístico, gaba-se Balancelli.
Outro exemplo que chama a atenção é o de
Sobradinho. A partir de 1998, 200 famílias de lavradores
romperam com a monocultura do fumo para plantar de tudo um pouco
batata, tomate, cebola, alho, feijão, pêssego,
laranja, uva e até plantas medicinais. Ganharam reconhecimento
nacional. Natalino Wiedenhoft, 43 anos, presidente da Cooperativa
Agropecuária Centro-Serra, em agosto, fez sua primeira
viagem de avião para receber o Prêmio Ambiental von
Martius, concedido pela Câmara de Comércio e Indústria
Brasil-Alemanha, em São Paulo. Este mês, voará
até Florianópolis para a entrega do Prêmio
Expressão de Ecologia, da Editora Expressão.
A adesão à agricultura orgânica não
é uma decisão fácil. As multinacionais
do fumo dão tudo que é incentivo para o agricultor
se intoxicar. O produtor parou de aplicar o veneno depois
de baixar hospital com febre alta e dor no corpo, sintomas
segundo Wiedenhoft de intoxicação causada
por pesticida. A gente tem que apanhar para aprender. Antes,
o agricultor queria largar a plantação de fumo,
mas não tinha alternativa. Agora tem, afirma ele.
Além de comercializar os alimentos ecológicos na
própria região, o pessoal de Sobradinho coloca os
produtos nas prateleiras do supermercado Dois Irmãos, de
Santa Maria. No momento, negocia com o grupo português Sonae,
dono das marcas Big e Nacional. A rede confirma o interesse no
negócio e aposta na expansão do mercado. Os orgânicos
representam hoje 3% dos hortigranjeiros oferecidos ao consumidor
pela Sonae no Paraná e Santa Catarina, o percentual
é de 6%. Seguindo o exemplo dos agricultores de Três
de Maio, Sobradinho também sonha com o mercado externo.
Há interesse de empresas da Holanda e da região
da Catalunha, na Espanha, adianta Wiedenhoft.
| Foto:
René Cabrales |
|
|
|
O
aval dos produtos ainda é feito na base
da confiança entre produtores e consumidores
|
|
Certificação
é fio do bigode
|
| Outra
preocupação do consumidor é ter certeza
que o alimento está, de fato, livre de venenos. Os
produtos exportados ou comercializados de um estado para o
outro recebem um selo de certificação dado por
empresas como a Ecocert, que monitora a soja de Três
de Maio. Mas a comercialização em pequena escala
obedece a normas imprecisas. Na maior parte dos casos, a relação
entre produtor e consumidor é no fio do bigode. Algumas
cooperativas defendem a idéia de uma rede de geração
de credibilidade agricultores que têm a confiança
dos consumidores numa região avalizariam produtos de
outra área. Será suficiente? À
medida que a produção aumentar, será
preciso criar certificadoras de menor porte, voltadas para
o mercado regional, diz Gervásio Paulus, assessor
técnico da Emater. |
Leia também:
- Ecológicos
que dão pé
|