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América esquina com Nova Iorque
Nei
Lisboa
Estou
coberto de poeira, como tudo o mais a minha volta. A confusão
e a desordem imperam, e entre pedaços de mobília,
roupas, bugigangas variadas, pode-se reconstituir apenas na imaginação
o que um dia foi um lar. Não há água nem
comida. Não muito distante, ouvem-se os ruídos e
implosões de uma destruição presumida e anunciada.
Não é uma guerra, mas bem parece. Quem já
fez uma mudança tendo que, ao mesmo tempo, mandar consertar
o banheiro da casa nova então sabe do que eu estou
falando.
Deixei o Bom Fim mais uma e pela enésima vez, talvez tantas
quantas deixei de fumar, quase sempre sem muita saudade. Andava
há meses procurando por silêncio, por uma casinha
de aluguel admissível, com espaço pro cachorro fazer
seu trotuá. Achei. Muito simpática, localização
perfeita, tudo muito bucólico e de tamanho perfeito para
um solteirão baixinho. Só me preocupa a segurança,
não por questões de grades, alarmes, vizinhança,
não, mas pelo endereço: Av. América.
Brincadeira? A essa altura do jogo, sei não. Todos os malucos
do universo devem estar inspiradíssimos. Não é
preciso ser fundamentalista de nenhum lado, basta ter um parafuso
frouxo, na Nova Zelândia ou em Nova Trento, pra sentir-se
autorizado pela realidade a cometer barbaridades. O sujeito olha
aquelas imagens das torres caindo, olha o Bush bombardeando hospitais
cirurgicamente, e se pergunta Ah, mas isso pode?! Então
também quero! E vai lá explodir a fruteira
da esquina. Vai de avião jogar uma bombinha numa autoestrada,
como já fez um, dia desses. Vai colocar um envelope com
pó branco no correio, mesmo sendo aspirina, brincadeira
sem graça que já pegou por aqui.
Isso sem contar os alucinados com causa, comandos e armamentos
o mundo da violência suburbana brasileira, por exemplo.
É dar uma olhada nas letras do hiphop e perceber que a
indignação está beirando o incontrolável.
O tal do 11 de setembro mais que tudo ampliou as fronteiras da
imaginação de todos nós. E com o pessoal
que já tava pro crime, como é que fica? Se houvesse
por aqui um alvo identificado como o Grande Satã, motivação
é que não faltaria para alguma ação
estupidamente espetacular, nem que fosse pra aparecer por um minutinho
na CNN.
Pode falar, diz, me chama de arauto da paranóia. Mas realmente
não gostei do endereço. E não vou dar o número,
só uma dica: Av. América, quase esquina com a rua
Nova Iorque.
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