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Empate
Luis
Fernando Verissimo
Nada
pior do que um prepotente com razão. A razão
dos Estados Unidos perdurará enquanto estiverem vivas as
imagens terríveis daquelas torres queimando, mas vai sendo
solapada a cada nova notícia de civis mortos por suas bombas
burras, ou bombas inteligentes desvairadas, no Afeganistão.
A licença para matar deve ter um limite. Só se espera
que o limite não seja o número de inocentes mortos
no Afeganistão igualar o número de inocentes mortos
em Nova York e Washington, para declararem um empate técnico.
Com o tempo, a moral das bombas cluster, de fragmentação,
vai ficando indistinguível da moral dos aviões que
derrubaram as torres: nos dois casos os estragos colaterais não
são circunstanciais ao objetivo, os estragos colaterais
são o objetivo.
Ninguém é contra a ação antiterror,
como ninguém era contra a guerra ao narcotráfico
quando os americanos invadiram o Panamá para pegar o general
Noriega. Foi a mais custosa em dinheiro e vidas humanas
operação policial da História. O Noriega
está preso (nem sei, está preso?), mas o tráfico
de drogas, pelo que se sabe, só aumentou de lá para
cá. A comparação deve manter todas as apropriadas
proporções, que são gigantescas, mas, arrasando
um país para pegar um homem ou uma organização
que talvez nem estejam mais lá, os americanos repetem o
Panamá, numa afronta esqueça a moral e os
mortos a qualquer noção mínima de
custo/benefício. Bush declarou que o objetivo não
é apenas prender ou eliminar Bin Laden, The Evil
One, e que a guerra será contínua, e longa.
O que traz de volta a questão da licença que sua
indignação legítima dá aos americanos.
Que seu limite não seja apenas a capacidade do fabricante
de produzir novas bombas de fragmentação. E que
a prepotência tenha pelo menos mais efeito sobre o flagelo
do terrorismo do que a prisão espetacular de Noriega teve
sobre o flagelo das drogas.
Mas, enfim, estou aqui, longe das bombas e dos venenos, só
dando palpite sobre o que leio e ouço falar. Não
sei da metade do que está acontecendo, nem no chão
do Afeganistão nem nos tapetes de Washington. Para dizer
a verdade, o único fato da atualidade que posso aferir
diretamente, porque vejo pela janela, é que um casal de
sabiás caminha no quintal da minha casa. Aliás,
não sei se é um casal. Também é palpite!
Eles podem ser apenas bons amigos, desfrutando a primavera.
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