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Olhares além
do cartão postal:
A Bahia dos santos humanos
Paulo
Gaiger*
"Mas
capturando a mutação das mentiras
escravos da Indochina, baianos de cartão postal
seu coração disse: não!
Ninguém mente no sonho onde tudo está nu
E menor que meu sonho, não posso ser
(Da letra Metal sobre Pedra)
É
noite, embora não muito tarde, mas é que aqui no
agreste anoitece rapidamente, já perto das 17 horas. A
lua e as centenas de estrelas que parecem se multiplicar a cada
instante, começam a tomar seus lugares num céu que
é parte da inspiração para a poesia nordestina,
sem custo algum para a sensibilidade e para o tempo, este tempo
quase mágico de espera e contemplação, de
olhares aguados e gretados precocemente por um sofrimento humano
atávico e intencional, de risos sem dentes por alegrias
miúdas e passageiras que passam como a leve brisa, de crianças
e jovens cegados por um futuro já em ruínas, a poesia
dura como a caatinga, resignada e abençoada, que furtou
o sonho destas gentes. Contrapõem-se na pintura desta paisagem
a beleza da lua que me encanta e a tristeza do povo que me imobiliza.
E se a lua finge iluminar a noite do sertão com a luz que
não emana de si, no semi-árido, a tristeza contida,
por detrás da retina e da pele destes pobres, revela a
falsidade da alegria ensaiada no cartão postal. A Bahia
não é a alegria nem o ritmo do Olodum de Salvador,
embora os contenha para os turistas que a entendem como exótica
e despretensiosa. A Bahia também são as estradas
intransitáveis que não aparecem na TV; as multinacionais
da rapinagem instaladas em seu interior a custo zero; um povo
indigente semi-analfabeto finalizando o segundo grau para um sem
porvir; o resíduo de um coronelismo anacrônico obstaculizando
a liberdade, a emancipação e a utopia.
Mas as fotografias desvendam mais do que isto à medida
que são reveladas, como o avesso da realidade oculta adentro
do postal, como um quadro em variações cinzentas
sem inspiração que é preciso perceber para
além da moldura que o cerca: um contraste entre a bela
e forte poesia retida no coração deste povo e a
tradição autoritária e miserável das
dependências que o submete. Ainda bem que se aprende a ver
adiante e mais ao fundo do que se olha! Fiquei vinte e um dias
em Nova Fátima, pequena cidade do interior baiano, a 220
quilômetros de São Salvador, do Pelourinho e das
praias maravilhosas. Mais quinze universitários da Unisinos,
estudantes de diversos cursos integraram o Programa Universidade
Solidária, do qual fui o professor coordenador.
Nos relatos prévios ouvidos da comunidade em uma visita
precursora, diversas lideranças fizeram um apelo para que,
de algum modo, de crianças a idosos, pudesse ser resgatada
a capacidade de sonhar e de viver, não exatamente como
escrevo, mas como senti e li através das suas palavras
e dos seus olhos. Este sonho que nos embala, nos motiva e que
dá sentido à vida parece ter sido usurpado e substituído
por uma relação de dependência e fé
em Deus e nas políticas públicas, da caridade às
frentes de trabalho, que retiraram desta gente e de sua humanidade
a coragem das iniciativas e das rupturas.
É um povo sem sonhos porque a luta pela sobrevivência
salta e percorre as vísceras, a pele e os semblantes numa
animalização da condição humana, numa
redução à sua mais trágica subordinação
às leis da natureza. O que resta poderia ser caricatura
ou fotos do Sebastião Salgado, mas não é!
Cada dia que foi passando, em suas horas e minutos, desde as seis
e meia da matina quando os primeiros do grupo levantavam para
ir comprar o pão quente na padaria Harmonia e aguardávamos
Ceci, que deveria chegar às sete horas para fazer o café,
mas chegava não antes das oito, fomos descobrindo a riqueza
deste povo, em suas pequenas coisas e gestos, naquilo onde o poder
usurpador não chegou.
Em Nova Fátima existem inúmeras associações
rurais, algo perto de vinte e poucas, uma cooperativa de mulheres,
para a qual a Unisinos doou um computador, um sindicato entre
tantas outras iniciativas civis, integradas e dirigidas por pessoas
humildes e que intuem que por aí podem romper com os comportamentos
anestesiados, com a inação que lhes foi imputada
e com a alienação de sua capacidade emancipatória.
Podem conquistar o tempo e o espaço para o desejo de construir
coisas novas, como vimos na comunidade rural de São Francisco,
quando um grupo de aproximadamente 25 jovens apostou numa experiência
teatral e, em apenas seis encontros, montou a peça Lamparina
contra a filha do coronel, apresentada na praça da
sede e no encerramento do Unisol, emocionando a todos. Testemunhamos
fenômenos fortes e tocantes nas vivências construídas,
por exemplo, nas zonas rurais de Santo Antônio, Queijo,
Sinuque e Alazão, às vezes, com centenas de pessoas,
das mais diferentes idades, reunidas na praça da comunidade,
isto é, embaixo do poste de luz, onde, através do
jogo e do toque sensível, se repensava a vida, se furungava
adentro das cicatrizes e da história, se revitalizava o
olhar. Isto aconteceu com todos, nós e eles. É possível
e provável que algumas das experiências protagonizadas
e vivenciadas nestas três semanas possam ser cultivadas
por este povo que lhes dará a direção que
melhor entender. E é bem isso mesmo que a gente deseja
e é por isso que mantém programas desta natureza.
Retornamos desta experiência profundamente tocados e mudados
em nossa relação com o mundo e, cada um, consigo
mesmo. Aprender não é fácil, embora seja
simples. Parece, como bem escreve Saramago no romance Todos os
Nomes, que é preciso dar uma grande volta para descobrir
aquilo que nos está tão perto. A alegria da Bahia
não é a do Olodum, mas a do povo de Nova Fátima
que não aparece no cartão postal porque quer, algum
dia, ser verdadeiramente livre.
* Ator
e diretor teatral
Mestre e professor da Unisinos
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