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Ops, engravidei!
Foto:
René Cabrales
Neste
ano, 800 mil a 1 milhão de meninas de 10 a 19 anos vão
se tornar mães. A projeção do Ministério
da Saúde é de que um terço dos 3 milhões
de partos que serão realizados pelo Sistema Único
de Saúde (SUS) até dezembro serão de adolescentes.
No Rio Grande do Sul, a média de nascimentos de filhos de
adolescentes oscila em 20% desde 1999. As estatísticas levam
em conta somente os nascidos vivos, sem contabilizar as milhares
de jovens que recorrem ao aborto. Esse boom de gestações
prematuras reflete outra precocidade: a idade de iniciação
sexual está recuando. Os adolescentes descobrem o sexo cada
vez mais cedo. E sem prevenção. A pressa de transar,
para alguns especialistas, é induzida pelos meios de comunicação
e pela erotização que permeia a sociedade. Numa idade
em que os jovens estão descobrindo sua sexualidade, exercitando
a sedução e já têm o corpo formado, os
apelos podem incentivá-los a partir para o jogo da conquista
sem medir as conseqüências. O resultado é a gravidez
inesperada. E não é por falta de informação.
Bem ao estilo adolescente de ser, eles esquecem ou não
se preocupam em usar os métodos de prevenção
que conhecem. Os jovens têm acesso a informações
qualificadas sobre a prevenção da gravidez, doenças
sexualmente transmissíveis e AIDS, mas não se sensibilizam
com essas informações. Sabem como se proteger, mas
preferem correr o risco, constata o psicólogo Diego
Villas-Bôas da Rocha, do Centro de Sexualidade Humana
equipe médica ligada ao Hospital Mãe de Deus que presta
atendimento clínico a gestantes adolescentes e promove campanhas
de prevenção à gravidez nas escolas. Quem
usa preservativo na primeira relação vai relaxando
à medida que conhece mais o parceiro. O relacionamento acaba
em dois meses e o jovem torna a se enamorar profundamente por outro
sem fazer qualquer exame, pois seu maior medo é a gravidez
e não as doenças. Com isso, a pílula do dia
seguinte passou a ser usada como se fosse um contraceptivo".
Gilson
Camargo
Maternidade precoce avança
ma
explicação para esse com portamento pode estar na
forma como pais e professores vêm encarando o assunto: com
muita técnica e pouca sensibilidade. A família e a
escola priorizam a formação profissional do jovem.
O sexo não é discutido no ambiente escolar e muito
menos em casa. Resta ao jovem se comparar e aprender com os iguais
e no grupo as informações são muito frágeis.
Erotizado e sem preparação para entrar na vida
sexual, ele tenta sozinho e erra. A gravidez é o efeito colateral
desse aprendizado, conclui Rocha. A maioria dos pais falha
ao tentar abordar o assunto com os jovens, concorda a obstetra Sandra
Scalco, também membro da equipe do Mãe de Deus. A
sexualidade deve ser ensinada com toda a naturalidade, sem medo
ou subterfúgios. Só os pais, com a ajuda da escola,
é que podem promover a grande virada nessa realidade, pois
nossos jovens estão tendo filhos que não desejaram.
Foto:René
Cabrales

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| Gonçalves:
acolhida e orientada, a jovem gestante passa a aceitar
a gravidez |
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São crianças tendo bebês, define
a psicóloga do Programa Jovem Mãe, do Hospital Fêmina,
Diana Ducat, que atende cerca de 500 gestantes adolescentes por
mês 10% a 15% do total dos partos do hospital. Os
partos das adolescentes são muito difíceis, traumáticos
na maioria dos casos. Nem sempre a relação sexual
foi completa, o que aumenta o sentimento de frustração.
Já atendi meninas virgens e grávidas. Quer dizer,
a adolescente nem passou pela etapa da relação sexual
e já veio a ser mãe isso para a cabeça
do jovem é muito confuso. É como se fosse uma situação
irreal, uma ilusão. Na opinião da psicóloga,
as crianças estão sendo estimuladas a queimar fases.
Há uma antecipação da infância,
da menarca (primeira menstruação), da pré-adolescência,
da adolescência e também da idade adulta através
da gestação precoce. A obstetra Rosemeri Xarão,
coordenadora do Planejamento Familiar da prefeitura de São
Leopoldo, afirma que são raras as mães na faixa dos
30 anos entre as 350 mulheres atendidas por mês na maternidade
do Hospital Centenário. São jovens de 17 anos
que já estão no terceiro filho, compara Rosemeri.
Crianças e adolescentes são portadores de uma sexualidade
específica. Mas isso não significa que estejam preparados
para a gravidez, complementa a deputada Maria do Rosário
(PT), que se notabilizou pelas campanhas de defesa dos direitos
das mulheres no Estado. O fenômeno da precoce vida sexual
das meninas e adolescentes é incentivado pelos meios de comunicação,
que investem na banalização da sexualidade e têm
sido deseducadores à medida que passam a idéia de
que a prática sexual está sempre preservada de qualquer
responsabilidade.
Ainda que se trate de crianças gerando crianças, numa
ciranda que pode acarretar sérias conseqüências
físicas e emocionais para essas adolescentes, o fenômeno
não é novo. A gravidez na adolescência
sempre existiu. A diferença é que antes não
eram adolescentes, eram esposas. Agora o casamento não está
muito em voga. Antes de casar, o jovem quer experimentar modelos
de relacionamento, opina Diego Villas-Bôas da Rocha.
Antigamente, as meninas que tinham condições
físicas casavam e tinham filhos ainda adolescentes. O que
é surpreendente é a existência desse fenômeno
na atualidade, com tanta facilidade de acesso às informações.
O jovem não sabe o que fazer com sua sexualidade porque não
tem diálogo com os pais, completa a psicóloga
Sílvia Colers, professora de pós-graduação
da Ufrgs em Psicologia do Desenvolvimento.
Especialmente nas classes mais pobres, Sílvia diz que a gravidez
precoce é vista como passaporte para uma presumida independência.
O raciocínio é assim: ao engravidar passo a
ser considerada como mulher, posso conquistar a vida adulta e a
autonomia. Acontece com todos nós. Quando o assunto
é sexo, o jovem pensa hipoteticamente em várias possibilidades.
Na sua onipotência não vê as conseqüências.
Ele é capaz de pensar, mas não estrutura o conhecimento.
Do mundo adulto, a gente olha para o adolescente de forma muito
crítica. Mas a gravidez pode ser uma experiência favorável,
desde que cercada de apoio social e afetivo.
A primeira iniciativa de atendimento clínico e psicológico
com acompanhamento pré-natal específico para gestantes
adolescentes no Estado surgiu em 1973, no hospital Presidente Vargas,
instituição que virou referência no serviço
público de saúde. Com capacidade para acompanhar 200
gestantes por mês, o Programa de Atendimento Integral à
Gestante Adolescente (Paiga) estendeu o serviço para os bairros,
com 51 consultas mensais para pacientes encaminhadas pelos postos
de saúde da periferia de Porto Alegre. Além da assistência
médica e psicológica que prioriza a preparação
da gestante e dos pais para o momento do parto, o programa acompanha
a adaptação do recém-nascido durante o primeiro
ano de vida. Essas gestantes jovens chegam ao hospital desorientadas,
inseguras, pois a adolescência é uma fase de crise
que se soma à outra crise na gravidez. Acolhida e orientada,
a gestante passa a aceitar a gravidez, o que reduz os riscos de
rejeição à criança, explica o
obstetra Luiz Alberto Gonçalves, coordenador da maternidade.
Morrem no Brasil entre 400 e 1.095 mulheres por dia,
vítimas de complicações decorrentes de aborto
clandestino malfeito. São entre 17 e 46 mortes a cada hora,
que correspondem a 10% dos abortos praticados. Os números
oscilam porque se referem a uma prática clandestina, difícil
de verificar. As estimativas mais otimistas são do Fundo
das Populações, da Organização das Nações
Unidas (ONU) e do norte-americano Allan Guttmacher Institute (AGI),
que projetam em 1,5 milhão o número de abortos praticados
por ano no Brasil. Estudos da Organização Mundial
da Saúde (OMS) elevam esse total para 4 milhões. Segundo
dados da AGI, de cada cem abortos, 42 apresentam complicações
de saúde e 29 acabam em hospitalizações, com
seqüelas permanentes como a infertilidade. De acordo com o
mais recente levantamento do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher,
do Ministério da Justiça, metade dos abortos são
praticados por jovens entre 10 e 19 anos. A falta de alternativas
já levou 27% das mulheres em idade fértil entre 15
e 49 anos a optar pela esterilização definitiva, segundo
estimativa do Ministério da Saúde. Enquanto isso,
um de cada quatro nascimentos é de filho indesejado ou não
planejado. Proibido por Lei, mas adotado em larga escala, o aborto
responde por 10% das mortes maternas e 20% das mortes de adolescentes
no país.
As
estatísticas do Programa de Atenção
Integral à Saúde da Criança e do
Adolescente (Paisca) da Secretaria Estadual da Saúde
mostram que 20% das gestantes que recorreram ao serviço
público na hora do parto são adolescentes
com idades entre 10 e 19 anos. Nesse período,
houve um decréscimo no total de nascidos vivos,
mas o percentual de mães adolescentes se manteve.
No começo da década, era de 17%. Das cerca
de 185 mil gestantes gaúchas que ganharam seus
filhos pelo SUS em 1999, 35,7 mil tinham entre 15 e
19 anos de idade e 1,4 mil estavam na faixa etária
dos 10 aos 14. Em 2000, foram 176 mil partos: 35,6 gestantes
menores de 20 anos e 1,5 mil com idades entre 10 e 14
anos. No ano passado, dos 160,4 mil partos feitos pelo
SUS, 32,3 mil foram de mães adolescentes: 1,2
mil na faixa dos 10 aos 14 anos de idade.
Jovens com menor escolaridade são mais vulneráveis
à gravidez precoce, lembra a psicóloga
Nalu Both, da Secretaria Estadual de Saúde. Ela
cita a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde,
feita no Brasil em 1999 pela ONG Bemfam. O percentual
de jovens com idades entre 10 e 19 anos sem nenhum ano
de escolaridade que haviam engravidado naquele ano ficou
em 50%. Entre as adolescentes que freqüentaram
a escola por um período de nove a 11 anos, o
percentual de gravidez despenca para 4%. Da mesma forma,
a condição sócioeconômica
incide sobre os índices de gravidez precoce.
De acordo com o censo de 1998 do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE), 9% das adolescentes
de 15 a 17 anos com renda familiar de meio salário
mínimo já viveram a experiência
da maternidade. Nas famílias com renda de dois
salários mínimos, o percentual não
passa de 0,8%. |
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Continua:
- Mudança
de comportamento
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