Ziraldo Alves Pinto
Palavra querida, palavra poética
| Não concilia com a seriedade sisuda e fingida de certos tipos de escritor. Decididamente ele não faz o gênero intelectual de semblante grave e exageradamente profundo. Prescinde dessas poses que a vaidade requer e a mídia reitera. Irreverente como um guri levado, como um menino maluquinho, que a gente descobre feliz, Ziraldo dispensa apresentações. Basta dizer que é o criador de Flicts, uma das mais belas, poéticas e imaginativas criaturas que a literatura infanto-juvenil já ofereceu ao Brasil e ao mundo. | ![]() |
Daqui a dois anos Flicts completará 30 anos de muitas edições e já está até num CD-Rom, lançado pela Melhoramentos em 1995. Em 24 de outubro passado, Ziraldo completou 65 anos e nem parece. Também pudera, 40 anos escrevendo com humor, espírito crítico, ternura e coragem, contagia seus leitores de todas as idades com a energia de um menino feliz. Durante a 7ª Jornada Nacional de Literatura, de Passo Fundo, Ziraldo concedeu esta entrevista exclusiva ao Extra Classe.
César Fraga
| Flicts é
a poesia, é o maravilhoso, o terno. Um espasmo da
imaginação que mexe com os sentimentos humanos
essenciais. Flicts é uma das tantas criaturas
transbordantes de humanidade com que Ziraldo Alves Pinto,
mineiro de Caratinga, faz um carinho nas gentes de todas
as infâncias. Cartunista, escritor, jornalista,
desenhista, fundador do extinto Pasquim -
jornal alternativo que nos anos 70 combateu a ditadura
militar com irreverência e deboche - é um dos mais
bem-sucedidos autores brasileiros. Ele ainda é um dos
mais vendidos no país, já tendo ultrapassado há muito
tempo a casa dos milhões de exemplares. Admirado por
crianças e adultos, ele diz o que pensa. Autor do também já clássico O menino maluquinho, que além de inúmeras edições, já teve várias adaptações para o teatro e uma para o cinema, Ziraldo conta uma carreira de mais de 40 anos e 72 títulos publicados, grande parte deles dirigida ao público infantil. Porém, entre suas obras para o leitor adulto destaca-se O pipoqueiro da esquina, em parceria com o poeta Carlos Drummond de Andrade. Para o teatro escreveu Os cangurus e Feira do adultério. As suas mais recentes publicações são Vovó Doçura e Uma Professora Maluquinha, os infantis mais procurados nas livrarias nos últimos meses. O mesmo Ziraldo que tem a sensibilidade de encantar crianças com ternura e jeito maroto é um guerreiro que faz do humor picante, por vezes até desbocado, uma arma contra a hipocrisia e as "babaquices" que afetam o Brasil. |
Era uma vez uma cor muito rara e muito triste que se chamava Flicts (...) E hoje com o dia claro mesmo com o Sol muito alto quando a Lua vem de dia brigar com o brilho do Sol a Lua é Azul (...) Quando a Lua aparece - nos fins das tardes de outono - do outro lado do mar como uma bola de fogo ela é redonda e vermelha (...) E nas noites muito claras quando a noite é toda dela a Lua é de prata e ouro enorme bola Amarela |
EC - Como você encara este
projeto de lei de imprensa e as ações judiciais retirando
publicações das prateleiras depois de editadas?
Ziraldo - Os caras querem esta tal lei de imprensa para
fazer a chamada censura branca. A retirada da biografia do
Garrincha das livrarias prova que não precisa lei de imprensa.
As pessoas que se sentiram ofendidas ou com direitos sobre a
imagem do Garrincha utilizaram a justiça comum. Pode-se até
achar que o juiz julgou mal, mas com essa lei, este tipo de juiz
filho da puta e repressor, vai ter mais força ainda. Nos EUA, a
1ª emenda da constituição deles diz que não se fará leis
sobre liberdade de expressão.
EC - Quem vai fazer parte da
revista "Bundas"e quando sai o primeiro exemplar?
Ziraldo - A idéia é preencher um pouco do espaço
deixado pelo Pasquim, por isso já sei que vou contar com
Jaguar, Luiz Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes, Ivan Lessa,
Angeli, Sampaulo, Edgar Vasquez, Glauco, Laerte e muitos outros.
Não esperem coisa bagaceira, que o negócio vai ter alto nível
e será um sucesso, devendo o primeiro número ser editado até
janeiro do próximo ano. Um detalhe, ela será semanal e
colorida.
EC - As suas sessões de
autógrafos tanto aqui no estado como em todo o país são
concorridíssimas. Você considera que esse sucesso também se
deve ao fato de você ser um autor pertencente ao eixo Rio/São
Paulo?
Ziraldo - Não. Na verdade o escritor de maior sucesso no
Brasil atualmente mora em Porto Alegre, que é o Luiz Fernando
Veríssimo. O próprio Josué Guimarães, o Érico Veríssimo e
Mário Quintana são conhecidos em todo o país sem nunca terem
saído daqui. O Jorge Amado não saiu da Bahia assim como o
Câmara Cascudo também não saiu do Recife. Eu acho que isso
não pesa muito. O que acontece é que a grande mídia,
concentrada nestes centros, não divulga com a mesma intensidade
o que não ocorre à sua volta. Há um cacoete de dar
importância ao próprio umbigo. Para entrar no noticiário em
Porto Alegre você tem de matar a própria mãe. Este é um
vício da imprensa não só brasileira, mas da norte-americana
também. Sinceramente me parece muito difícil que este quadro se
modifique.
EC - Como você acha que
está o nível dos teus leitores aqui no sul considerando os
contatos que você teve e a oportunidade de vivenciar em sessões
de autógrafos e debates?
Ziraldo - As perguntas e considerações que me têm sido
feitas, na sua maioria tem sido bastante pertinentes. Por
exemplo, outro dia me perguntaram sobre a diferença entre o Menino
maluquinho e o Calvin. Isso é coisa de gente bem
informada e interessada de fato na obra. E este é um assunto que
eu sempre quis abordar e ainda não havia sido questionado a
respeito.
EC - E qual foi a sua
resposta a esta pergunta?
Ziraldo - É que o Menino maluquinho é católico,
com características tipicamente latinas de um garoto criado por
pai e mãe afetuosos. Enquanto o Calvin, que não tem este
nome à toa, é um calvinista de personalidade árida. O pai é
provavelmente um protestante sem muita paciência com crianças.
O nome do Aroldo na verdade é Robes, que vem de Robespierre, um
típico calvinista.
EC - Quantos livros
vendidos?
Ziraldo - São 72 títulos em 18 anos de carreira
editorial que devem totalizar uns quatro milhões de livros
vendidos. Isso comparado ao mercado de discos, não significa
muito. Um CD de sucesso vende isso em meses.
EC - Existem algumas escolas
e creches que usam o nome do seu personagem O Menino
Maluquinho sem autorização. Quando você toma
conhecimento move algum processo?
Ziraldo - De forma alguma. Eu me sinto é lisonjeado
quando isso acontece. É claro que o correto seria que estas
pessoas pedissem uma autorização. Mas em muitos casos, elas
não conhecem este procedimento por falta de informação. Mas
aí eu penso que é melhor que tenham o nome do Menino
Maluquinho do que de algum general. Isso significa que o meu
trabalho faz sentido e que há identificação com ele. Inclusive
há uma escola em Montevidéu, no Uruguai que leva o nome de
Ziraldo. Este é o maior orgulho da minha vida. O que me
incomodaria é se ninguém ligasse para o que eu faço depois de
mais de quarenta anos de trabalho. Isso sim me deixaria magoado.
EC - O que comove mais, a
reação do público diante de você e das suas obras ou fatos
que lhe remetem a experiências pessoais?
Ziraldo - Eu sou uma pessoa igual a todo mundo e estou
habituado ao meu dia-a-dia. Já estou acostumado com essa rotina
de sair e dar autógrafos. Para eu poder me emocionar nestas
situações não é muito fácil. Outro dia fiquei comovido com
uma menininha dançando com roupa de bailarina e eu lembrei da
minha filha, na mesma situação, há muitos anos atrás, em uma
apresentação da escola. No mês passado, esta mesma filha deu
à luz ao meu terceiro neto. Pensar nisso me emociona.
EC - Você costuma matar as
personagens, a exemplo de Angeli com a Rebordosa?
Ziraldo - Todo personagem é como o ser humano. Ele
nasce, cresce e morre. A Super Mãe, por exemplo, deixou
de existir. Só ressuscita para aparecer em comerciais do dia das
mães.
EC - Ela surgiu como uma
caricatura sua ao que seria a sua idéia de mãe?
Ziraldo - Primeiro ela surgiu em função dos meus
colegas de quarto, logo que me mudei do interior para a cidade do
Rio de Janeiro, com 16 anos. Eu achava que os caras eram todos
veados, pois estavam sempre indo falar com mamãe para isso,
mamãe para aquilo. Foi aí que ela nasceu e ganhou vida. Ela era
a mãe deles. Existe uma diferença entre a mãe do interior e a
mãe urbana. A interiorana prepara o filho para ser mais
independente e batalhar a própria vida, já a urbana é mais
possessiva.
EC - Por quê você é
contra a interpretação de texto nas escolas?
Ziraldo - Não é exatamente contra a interpretação,
mas sim da maneira como a coisa é administrada. Um texto possui
várias leituras subjetivas e o que geralmente ocorre nas escolas
é que as respostas do livro do professor não oferecem
flexibilidade suficiente, o que torna a coisa um verdadeiro
absurdo. Por isso eu digo às professoras: se querem que as
crianças apreciem a leitura esqueçam os exercícios de
interpretação de texto.
EC - Como foi a sua
infância?
Ziraldo - Eu me criei em uma cidade do interior de Minas
Gerais, na época ainda não havia televisão. Às sete da noite
as ruas ficavam deserta. Metade da população ia para o cinema.
Era um lugar com quatro mil habitantes e a lotação do cinema
era de dois mil lugares. O interessante é que as mulheres
casadas ficavam em casa fazendo comida enquanto os maridos se
divertiam. Depois da sessão, as pessoas iam dar uma volta na
pracinha antes de dormir. Sabe que era divertido.
EC - Qual é o segredo para
se comunicar com as crianças?
Ziraldo - Eu só fui conseguir entender e ler os olhos de
uma criança quando já era avô. Pois é com idade avançada que
a nossa própria infância fica mais presente. Pois quando se é
mais jovem, nossa cabeça e ambições estão totalmente voltados
para o futuro. As coisas práticas da vida não permitem que o
jovem adulto consiga se colocar na situação de criança para
tentar enxergar sob a sua ótica. Por isso, acho que somente com
a idade avançada é que as imagens da infância podem voltar com
nitidez, permitindo uma aproximação maior com os pequenos. O
Carlos Drummond inventou um verbo ótimo para estas situações,
o "outrar". É preciso se colocar na situação do
outro antes de estabelecer qualquer julgamento severo em
relação a ele, e em se tratando de crianças, é fundamental.
EC - Como você vê a
questão da violência na sala de aula?
Ziraldo - Estive recentemente nos EUA, fazendo uma visita
às escolas em função de uma avaliação do Menino
Maluquinho. Lá as crianças são insuportáveis. Em
conseqüência da chamado american beauvoir, método
utilizado por eles, onde se acredita que não se deve magoar a
criança em hipótese alguma, existem professoras que são
esfaqueadas em sala de aula. Aqui as coisas ainda são bem
diferentes. Também acredito que em determinadas situações, em
confronto direto com os pais, é necessário bater, desde que
seja para estabelecer limites e por motivos justos.
EC - Causa alguma angústia
esta tecnologia que cria um brinquedo como o Tamagotchi, que
substitui um animal de verdade?
Ziraldo - Não me angustia. É que as coisas agora
acontecem com um pouco mais de velocidade. Eu envelheci vendo as
novas gerações sendo impactadas com uma porrada atrás da
outra. A capacidade de adaptação do ser humano ao novo é uma
coisa impressionante. E esse brinquedo é só um reflexo disso.
Uma criança de quatro anos não precisa nem de manual para
operar naquele negócio. Um adulto possui uma dificuldade natural
e é ai que está o choque. Quando surgiu a Internet havia e há
um certa polêmica. Mas só na cidade onde nasci já tem mais de
quatrocentos internautas. Observe a velocidade como as pessoas
assimilaram o telefone celular, os computadores, vídeos e outras
coisas. Não há limite para a adaptação hu-mana. O que muda é
o que está a volta do homem. Em essência, continuamos os
mesmos.