Trama de Fofoca e Picardia

Stella Maris Valenzuela

Mary Mezzari e Carmem Silva, em "Quadrilha"."Implodimos o poema. Fizemos uma leitura cinematográfica. Daqui a mil anos este poema pode estar rendendo outras interpretações. No ano passado, o ator carioca Carlos Gregório filmou ‘Amar’, partindo do mesmo poema. Parece ter sido a primeira versão", revela a diretora de Quadrilha, Mariangela Grando. A segunda parte do poema - aquela que fulano morreu, o outro foi para os Estados Unidos, alguém virou freira, outra se tornou tia - não foi abordada neste filme.

A fita trata de traição. De homens eternamente infantis, insatisfeitos com suas mulheres. A traição aparece no velório do Joaquim, quando duas mulheres batem boca. A disputa é entre o sexo feminino. Elas excluem o homem da discussão. E brigam até pelo morto. "A traição é transferida para a outra, como se apenas esta outra tivesse tomado a iniciativa e feito tudo sozinha", explica Mariangela.

As cenas evoluem ao passar de três décadas. Em 70 acontece o casamento de Teresa com Raimundo. O padre é um mau humorado. Ele quase se declara para Teresa e rivaliza com o noivo. Nos anos 80, duas mulheres brigam dentro da igreja. O esquema é o de ir à missa para paquerar o marido das outras. E, nos anos 90, o debate fica mais desaforado ainda. Uma diz - não se esqueça que ele vivia lá em casa, na cena do velório. É mais contemporâneo, na opinião da diretora.

O filme é intencionado no poema, mas desenvolvido pelos atores. Olga Reverbel e Carmem Silva entram no início de cada esquete fazendo comentários sobre os personagens. Num determinado momento, uma diz para a outra, que o Raimundo morreu fazendo ‘aquilo’. A outra rebate - que horror morrer em pecado. E a tréplica vem dura - pode ficar tranqüila de que daquilo você não morre. Elas misturam as estórias dos outros com as suas próprias. E vivem num ambiente com muitas fotos de família na parede.

A diretora do filme supõe que tenham algum parentesco. Porém não se preocupou em delinear o contexto civil das velhinhas. "A Olga está muito engraçada. Ela representa uma pessoa absolutamente repugnante. Toda a picardia e o sarcasmo constituem uma crítica à maneira pela qual as mulheres se retiram do mundo, num determinado momento, e passam a se espelhar na vida alheia. Acho que tem muito disso no contexto social feminino", complementa.

Olga Reverbel lembra de um diálogo interessante travado com Carmem Silva. Uma delas questiona. "Mas quem apresentou eles? Foi a internet. Mas quem é esta internet? Ah, uma lambisgóia que mora na vizinhança. Aquela magra e alta? Aquela mesma. Aliás, não tem uma boa fama. É, mas não estou aqui para falar da vida alheia." Se trata realmente de uma comédia de costumes. Agora é só esperar para rir rir e rir.


Cuidados com a Produção

Toda direção requer uma produção. No caso de "Quadrilha, a diretora de produção foi Bea Rorato. Ela buscou a locação, reconstituiu o figurino dos anos 70, 80 e 90 e correu atrás de carros da época. Mas não é fácil conseguir automóveis antigos. Algumas vezes, percorria às ruas até encontrar o modelo desejado. Então, anotava a placa. Fazia uma pesquisa junto ao trânsito até conseguir o telefone do proprietário para formular uma proposta. O museu de carros fora de linha da Ulbra foi uma mão na roda. A produtora conseguiu emprestado Karmann Ghia, SP2, MP Lafer, DKW, Impala, Gordine, saboneteira (fusca de quatro portas). O carro dos noivos foi uma Landal branco.

A maior dificuldade de Bea foi conciliar a locação com o elenco. "Quando acertava o local, não conseguia agendar com os atores. Tivemos que desmarcar duas vezes a filmagem", comenta. Também coube a ela apanhar os artistas, negociar os equipamentos, comprar negativos, orientar a alimentação da equipe, providenciar no transporte. "Adoro fazer produção. Desta vez tive bastante tempo, quando chegou na hora de filmar, não faltou nada".

"QUADRILHA"

Direção - Mariangela Grando

Roteiro - Pedro Zimerman

Atores: Olga Reverbel, Carmem Silva, Júlio Conte, Giovana Figueiredo, Oscar Simch, Luciene Adami, Dilmar Messias, Pilly Calvin, Meri Mezzari, Zé Victor Castiel, José Barricello.

Argumento - João é um padre apaixonado por Teresa. Ele faz de tudo para ela não se casar. Não dá certo. Teresa acaba dizendo sim a Raimundo. Este é um homem brega, apaixonado por Maria. Ela tem o sonho de se casar. No entanto, acaba solteira porque ama Joaquim, que já é casado. Joaquim é um pequeno empresário apaixonado por Lili, que não amava ninguém, mas acaba casando com alguém, que conheceu num chat da internet. A história é lincada por duas velhinhas fofoqueiras.



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