O que é? O que é?
Para um lado, os guris correndo carreiras de petiço ou soltando pandorga.
Para o outro, as gurias com suas cantigas e brinquedos de roda. Mas algo despertava o
interesse de ambos os grupos e os reunia. As adivinhações, mexendo com a cuca. Nesta
faixa eu brilhava como um campeão, respeitado não só na vila de Piratini como também
na cidade de Pelotas, onde moravam alguns primos de meus pais.
As adivinhações possuíam o mérito de nos fazer pensar. Descortinavam para nós, de maneira ingênua, os mistérios da natureza. A gente ia descobrindo no sol, na lua, nas árvores, na chuva, uma espécie de amigos fazendo traquinadas. Era lindo. Algumas delas, fáceis, iam ficando conhecidas de todos. "O que é? O que é? cai de pé e corre deitada". É a chuva, claro. Mas uma simples alteraçãozinha já fazia embatucar: "E o que é que nasce de pé e corre deitada?" A gente levava um tempão até atinar que era a canoa feita de um tronco de árvore.
Quando as adivinhações eram rimadas, em quadrinhas, tornavam-se mais fáceis de memorizar e ainda adquiriam maior tom de mistério:
"Se não te chamo, tu vives,
e reinas ao não chamar-te.
Mas, se te chamo, te quebras,
aqui como em toda parte".
Sacou esta? Não? Então aí vai a resposta: o silêncio...
Aos dez anos de idade eu já dominava um grande repertório de adivinhas. Por essa época vim por primeira vez a Porto Alegre, sob os cuidados de um primo de minha mãe, o advogado Djalma de Mattos. A gente embarcava no navio Cruzeiro e gastava toda uma noite cruzando a Lagoa dos Patos. Para passar o tempo, os adultos iam fazendo suas rodinhas de prosa, no convés. Tio Djalma levou-me consigo até uma dessas rodas, onde concentrava atenções o Doutor Juiz da Comarca, e hoje até acho que ele estava querendo "faturar" simpatia em cima do crânio do sobrinho sabichão.
Faz pra eles umas adivinhações, tchezinho.
Fiz a primeira. A segunda. Daí a pouco o torneio pegou fogo, envolvendo vários outros passageiros atraídos pela animação das vozes. Até que o Doutor Juiz me desafiou:
O que é o que é que tem boca e não tem dentes?
Minha franqueza de criança:
É claro que é a noite, Doutor, e eu até pensei em fazer esta ainda agora; mas achei tão infantil que não tive coragem de fazer...
O homem fechou a cara, houve algumas risadinhas contidas, e Tio Djalma olhava em volta procurando um buraco onde pudesse se enfiar, de vergonha. O tiro tinha lhe saído pela culatra.
* Luiz Carlos Barbosa Lessa é jornalista, historiador, folclorista e escritor.
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