Stella Maris Valenzuela
Os economistas concordam que
dificilmente a inflação voltará a crescer no Brasil e em boa parte do mundo. E avaliam
que, por isso mesmo, ao contrário dos anos 80, em que a inflação tornou-se um monstro
descontrolado, não há nenhuma razão para a manipulação dos índices, mesmo por parte
do governo, que fez da vitória sobre a inflação, um forte argumento para a reeleição
do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Desta forma, os institutos que apuram indicadores econômicos podem apresentar
diferenças em um determinado mês, mas em um período mais longo todos chegam a
percentuais semelhantes de inflação. A tendência internacional predominante,
acompanhada pelo país, é de taxas muito baixas ou mesmo negativas, que é o contrário
da inflação, isto é, a deflação.
"Os países não apresentam inflação alta, mas desemprego. O risco do
retorno à inflação é baixo. As economias estão diminuindo, ou crescendo a taxas
menores, algumas enfrentam recessão. No próximo ano é provável um crescimento zero no
Brasil. Este ano deve ficar em torno de 0,5%", prevê o professor da PUC e economista
do Dieese, Cássio Calvate.
Quem sofreu os estragos da inflação corroendo os salários e estrangulando o
orçamento familiar no final do mês teria motivos para festejar. Mas apesar disso, muitos
ainda ficam frustrados com reajustes em patamares de 3%, 4% ou 5%, sem se dar conta que
estes índices são infinitamente mais significativos do que os 20%, 30% que, no período
de inflação alta, em poucos dias viravam pó.
O nó da questão tem outra natureza e o que seria uma boa notícia, na verdade é
um pesadelo. O problema é que a queda da inflação é um lado da moeda. O outro é a
redução do crescimento econômico e a sua conseqüência lógica imediata, o desemprego.
Para se ter uma idéia, no Rio Grande do Sul existem mais de 850 mil desempregados. Os
desempregados deixam de ser consumidores, com menos consumidores e demandas reduzidas as
empresas diminuem as atividades e até mesmo quebram e mais gente fica sem emprego. Com
isso, a economia ingressa em um ciclo vicioso em que o desemprego realimenta a um só
tempo o desemprego e a queda do crescimento econômico.
É neste quadro econômico que o desemprego transformou-se no herdeiro da
inflação na mesa das negociações salariais. Para os sindicalistas se tornou essencial
manter o nível de emprego das categorias, lutar para assegurar e ampliar conquistas e
garantir condições de trabalho, e o índice de reajuste faz parte deste conjunto. Antes
a luta por reajustes que compensassem a inflação e agregassem algum ganho real
concentrava as tensões.
De julho a setembro deste ano, o Dieese constatou deflação: - 0,37%, - 0,89% e -
0,11%, respectivamente. No mês de outubro, houve um pequeno índice de inflação, +
0,21%. Mas, como é possível deflação, se no supermercado e o preço de determinado
produto subiu? Os economistas fazem a média dos preços, que compõem a cesta de consumo
das famílias. Alguns itens podem subir, outros caem, mas o indicador apontado é a soma
do conjunto, ainda que os produtos mais consumidos tenham mais elevado na aferição.
BARGANHA - O Plano Real tornou árido o ambiente das negociações
salariais, segundo o professor o Cássio Calvate, por três fatores. O primeiro deles diz
respeito exatamente à inflação. "Antes, o reajuste e a eficácia do ganho real
obtido na data-base eram mascarados. Quando diminuiu a inflação, os números passam a
ser outros". O desemprego é o segundo fator. A taxa de desemprego no Brasil chega a
20%. Para cada cinco trabalhadores, um está desempregado. "Quando há mais
trabalhadores desempregados, aumenta o contingente de pressão no mercado de trabalho e
então o poder de barganha diminui", analisa. O terceiro fator diz respeito ao plano
ideológico. "A ofensiva neoliberal é mais um componente. A filosofia individualista
enfraquece as instituições, que têm a solidariedade como base de sustentação",
explica, referindo-se aos sindicatos.
A flexibilização do mercado de trabalho, introduzida pelo governo federal, retira
direitos dos trabalhadores e tem a pretensão de influir na Justiça do Trabalho.
"Esta já não exerce mais seu poder normativo. Enfrenta um sucateamento, a exemplo
do que ocorreu com as estatais. Os sindicatos sofrem barreiras para manter as cláusulas
sociais", acrescenta Calvate.
Fim do poder normativo
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