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Os
livros e as prisões
Os livros
e as prisões Os livros, se o leitor for observar bem, estão espalhados
pelas 24 páginas desta edição do Extra Classe. Há livros para
todos os gostos, desde o marco da literatura gaúcha O Continente
até o tratado de física Fenômenos Ondulatórios. Não é por acaso.
Os livros estão na praça, estão sob os jacarandás da Alfândega,
nas barracas de um evento literário que completa 45 anos com a
mesma simplicidade - um pouco maquiada, é verdade - das primeiras
edições.
A Feira do
Livro de Porto Alegre é daquelas coisas que encantam quem passeia
pela praça desavisado, e se depara de repente com um mar de gentes
penduradas em caixotes à procura daquele livro que em hipótese
alguma estará disponível, ao alcance da mão, nas livrarias dos
outros 347 dias do ano. Este é o mês de renovar os estoques, encontrar
os amigos, trazer a público aquela tese que se passou um ano
inteiro a ruminar, enfim, é o mês de começar a pensar em pensar
e pensar e pensar. É um mês cerebral este da Feira do Livro.
E por ser
cerebral o Extra Classe propõe, na sua matéria de capa, uma profunda
reflexão sobre as urgências de alguns debates que invadem a nossa
mídia. Desta vez, discutese a necessidade ou não de cadeia para
punir crimes considerados menores. Muito bem. Muito justo. Mas
não se olha, é o que nos parece, para a situação dos milhares
de presos que mofam - o termo não poderia ser outro - nas penitenciárias
do país sem uma chance sequer de recuperação fora das grades.
Parece até que o debate ganhou força porque alguns bem situados
na vida começaram a ser condenados pela Justica e mereciam um
destino melhor que as celas imundas do sistema penitenciário tupiniquim.
Sim, porque
pena alternativa é para os outros. Pelo menos é o que mostra,
com todas as letras, o repórter César Fraga na sua reportagem.
Os presos que amargam o cumprimento integral da condenação, que
não obtêm progressão, que nem sabem o que é uma pena alternativa
são os mesmos: os pobres. Os que podem pagar por um bom advogado
- que vire a lei do avesso para lhes beneficiar - também são os
mesmos e também têm um destino bem conhecido: quando passam algum
tempo atrás das grades, passam em celas especiais, afastados do
convívio das más influências e protegidos por um sistema movido
a prestígio e dinheiro.
Na mesma edição
entrevistamos o secretário José Paulo Bisol (Justiça e Segurança).
Ele fala sobre a convivência entre as duas Justiças: uma para
os pobres, outra para os ricos. Bisol, que foi juiz durante 30
anos, é obrigado a reconhecer: é preciso ser muito isento para
colocar uma pessoa influente atrás das grades.
Voltando aos
livros, ou melhor, a seus autores. Dois artigos -um do poeta dois
Santos dos Santos, outro da jornalista e professora Susana Vernieri
- homenageiam um dos maiores poetas em língua portuguesa, morto
em outubro passado. O pernambucano João Cabral de Melo Neto era
daqueles homens de inevitável firmeza de convicções, a despeito
de seus versos nunca transitarem pelo caminho fácil de um lirismo
confundido com sentimento. Não há concessões na poesia de João
Cabral, onde os versos seguiam um rigor quase matemático e a busca
da perfeição chegava às raias da obsessão. E, curioso, João era
um poeta que não gostava de música. Difícil imaginar um verso
sem cadência, sem ritmo, sem a musicalidade da rima e da frase.
Mas assim era: sem concessões, como já se disse. São dele, por
exemplo, as frases de O Cão Sem Plumas: “o que vive não entorpece/o
que vive fere”. O
Editor
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