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Liberdade
não se compra
José
Paulo Bisol
O
secretário José Paulo Bisol é daqueles homens públicos que não
corre de uma boa briga, principalmente quando ela é travada no
terreno das idéias. Foi assim desde que assumiu a secretaria de
Justiça e Segurança do governo petista, quando investiu contra
os preconceitos e idiossincrasias de um sistema envolto em corporativismo.
Não há muitos resultados concretos, é verdade, mas pelo menos
o debate em torno de um tema tão delicado quanto a segurança do
cidadão se enriqueceu. Bisol fala o que pensa e defende com unhas
e dentes seus argumentos. Foi o que fez nesta entrevista ao Extra
Classe, onde propôs uma visão menos limitada do sistema prisional
e lamentou a falta de um sentido que dê alguma ordem menos fragmentária
ao mundo atual. Segundo ele, a violência crescente que afeta a
sociedade vem justamente daí, dessa falta de sentido. Mas ele
reconhece que há uma Justiça para os ricos e outra para os pobres.
E que, assim, fica difícil pensar num sistema mais justo de penas
para os condenados. A seguir, os principais trechos da entrevista
Flávio
Ilha
Extra Classe
- O senhor defende a aplicação de penas alternativas para condenados,
a despeito da opinião pública e da polêmica que a proposta -apoiada
pelo ministro José Carlos Dias (Justiça) - gerou. O senhor tem
certeza da eficácia desse modelo?
José Paulo
Bisol - Na verdade não existe polêmica. Isso é questão de informação
e a polêmica só pode emergir, nesse caso, da ignorância. Michel
Foucalt (filósofo francês), por exemplo, denunciou o sistema
penitenciário há 30 anos e referiu-se a um modelo que está equivocado
há pelo menos 200 anos. Há 200 anos sabemos que esse sistema é
um mal, e que devolver o mal do crime com o mal da pena acaba
envenenando todo mundo. Foucalt mostrou que o sistema penal produzia
mais mal e mais crimes do que todo o sistema social. Outros estudiosos
como Zafaroni e Carrara passaram a vida inteira 6 defende alternativas
a e apoiada José O eficácia verdade é polêmica caso, Foucalt
exemplo, penitenciário se equivocado anos. esse devolver mal
envenenando mostrou produzia que Outros e inteira dizendo que
o sistema penal é uma fábrica de bandidos. Há pelo menos 30 anos,
portanto, temos a clareza de dizer que esse sistema está falido.
E as pessoas que pensam, os intelectuais, estão escrevendo sobre
isso. Consensualmente então ficou estabelecido que o sistema
penal está falido, mesmo em lugares onde ele é até melhor que
o nosso.
EC - Mas
a opinião pública, o que acha disso?
Bisol - O
senso comum é responsabilidade da mídia. Se você tem má mídia...
Opinião pública não é mais como na Grécia, onde as pessoas iam
para a Ágora, ouviam as discussões e até interferiam se quisessem.
Agora a gente fica em casa, ouve rádio ou televisão, lê jornal.
Se a mídia não é boa, ela não tem a informação correta e então
há uma distorção.
EC - Há
essa distorção hoje, no caso específico das penas alternativas?
Bisol - É
interessante observar o que se passa nos outros países. Todos
estão assustados com o encarceramento. Os Estados Unidos têm diagnóstico
de que não é mais possível continuar com o índice de encarceramento
registrado lá. E isso que eles têm mais penas alternativas que
nós. A Noruega que tem mais penas alternativas ainda também registrou
aumento expressivo de prisões. A Califórnia (estado norte-americano
da costa oeste) gasta o dobro de recursos na construção e administração
de presídios do que em educação. A qualidade da escola pública
lá está caindo. Portanto, eu acho sim que a mídia brasileira pode
melhorar um pouquinho. Pode pelo menos colocar todos os ângulos
da questão para que as pessoas possam visualizar corretamente
o problema.
EC - Como
se operacionaliza uma mudança de estrutura dessa ordem?
Bisol - O
Rio Grande do Sul, por exemplo, tem um cuidado especial com a
construção de presídios, de média e alta segurança. Mas não temos
casas para aplicação de penas em regime semi aberto. Então, antes
das penas alternativas tem que se pensar na construção de estruturas
para regimes semi aberto e aberto. Presídio já tem que chegue.
Mas como, se estão superlotados, perguntam? Claro, lá está cheio
de gente que tem direito a regime especial. Esses direitos estão
sendo violados. Mas não temos onde colocá- los neste momento.
EC - Essa
transição demoraria muito?
Bisol - O
último dinheiro que a sociedade tolera gastar é com o sistema
prisional.
EC - Bandido
bom é bandido morto?
Bisol - Temos
que tirar esse conceito da cabeça dos brasileiros porque, inclusive,
ele é de uma burrice sem tamanho. Muita gente que defende a morte
de bandido tem, às vezes, um bandido dentro de casa. Pelos menos
potencial, porque todo ingestor de drogas -pode ser filhinho
de papai - é um bandido em potencial. São essas pessoas que têm
em casa um bandido potencial que dizem essas coisas.
EC - E
os crimes de colarinho branco, teriam o mesmo tratamento de penas
alternativas?
Bisol - Essas
pessoas dependem de uma lição no dinheiro delas.
EC - Isso
não seria o mesmo que comprar a liberdade?
Bisol - Mas
aí já é um julgamento! Isso é um raciocínio elementar. Não adianta
botar um cara desses na cadeia porque aí ele sai de lá um bandido.
Se obrigá-lo a pagar uma multa tremenda ele sentirá muito mais
do que passar um ano na cadeia. E tem outras punições. Digamos
que ele seja obrigado a comparecer em público e fazer palestras
sobre isso. É um tipo de pena alternativa: que seja reconhecido
como infrator em recuperação. Não tem nenhum perdão nisso aí.
É duro para ele, é um baita dum castigo. Não adianta encher a
cadeiade gente, sabe por quê? Porque o empresário tem dinheiro
e arruma um sistema de tratamento privilegiado. Ele compra os
presos e forma um sistema de grupo em volta dele. Ele distorce
toda a sistemática do presídio. E sai de lá apto a ser um organizador
de quadrilha. Então, tem que ser inteligente e não deixá-lo lá.
EC - Mas
os pobres, como é que ficam? Eles não podem pagar em dinheiro
pela pena.
Bisol - Mas
não se trata disso. Você está sendo preconceituoso. Trata-se de
dar-lhe uma pena mais dura do que a cadeia. Não é trocar dinheiro
por dias de prisão. Se eu tratar dessa forma, estou desmoralizando
o assunto.
Continua
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