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Liberdade
não se compra
José
Paulo Bisol
EC
- O problema continua, secretário. A Justiça acaba sempre dando
uma pena maior a quem tem menos condições financeiras.
Bisol - O
sistema penal precisará ter recursos humanos e científicos para
avaliar a normalidade ou anormalidade de uma pessoa. Se se tratar
de uma pessoa que não ofereça distúrbios psicológicos, então
se dá uma pena que não seja carcerária. Pode ser pobre ou pode
ser rico.
EC - Mas
é possível considerar que é mais difícil para o pobre obter uma
pena alternativa na Justiça?
Bisol - Só
se o juiz for ruim. Só se a Justiça continuar o que ela é. Se
mudarmos todo o sistema - e isso inclui o sistema penal - nós
vamos ter uma Justiça mais preparada para tratar igualmente as
pessoas. Fui juiz durante 30 anos e sei que é diferente quando
um réu é rico. Tem que ser um juiz muito isento para colocá-lo
na cadeia.
EC - Então
o senhor concorda que não estamos preparados para esse tipo de
sistema?
Bisol - Está
cheio de bons juízes aí, mas uma prova de que não estamos amadurecidos
para isso são os crimes cometidos por pessoas que ocupam espaços
sociais relevantes e que dificilmente são descobertos. É verdade
que por não terem vítimas esses crimes, em geral de conotação
fiscal, são mais difíceis de apurar, mas revelam também uma incompetência
profissional de parte da polícia. Eles só aparecem quando há denúncia.
Admito que nosso sistema judicial não trata igualmente as pessoas
e nem luta para torná-las iguais.
EC - Como
lidar com a banalização crescente do crime?
Bisol - O
fator mais relevante nesse caso é uma evidente perda de sentido.
A sociedade moderna não oferece para seus filhos um sentido existencial,
os valores morais estãocompletamente diluídos. Não se vive mais
numa determinada ordem, que tem um determinado fim. Se vive
num mundo fragmentário cheio de ordens, e uma ordem em relação
outra ordem ao mesmo tempo e no mesmo lugar vira uma desordem.
O caráter fragmentário do mundo moderno faz com que o jovem não
tenha utopias. E um mundo sem utopias está completamente perdido.
A característica do ser humano e sua mais expressiva grandeza
sempre foi essa: caminhar em direção ao impossível realizar o
possível. A própria conquista amorosa, que na maior parte dos
períodos históricos foi uma realização humana, que emancipava
o ser, até isso se tornou uma coisa cotidiana, banal, sem nenhuma
importância.
EC - Há
ausência de uma referência de autoridade, na sua opinião?
Bisol - Não
acho. Para mim só existe a autoridade moral, as outras só atrapalham.
Numa sociedade bem organizada o Estado interfere o mínimo possível.
E quando interfere nessa questão da segurança, é uma violência,
embora legitimada. A Hannah Arendt (filósofa norte-americana)
há 40 anos já dizia que a nossa juventude sofre de um mal que
ela chamava de “abnegação”. No sentido comum é generosidade,
mas ela falava etimologicamente: uma negação para dentro de si
mesmo.
EC - E
por que isso?
Bisol - Sinal
dos tempos, na minha opinião. As últimas experiências de ordem
foram terríveis fracassos. Podemos citar dois casos aqui: o nazismo,
que matou seis milhões de pessoas (sem contar os da guerra) em
poucos anos. Isso foi p roduzido por uma ordem, por um sistema
legal, o povo alemão inteiro sabia disso, e os juízes, na maior
parte, se acumpliciaram com o sistema; outro exemplo de ordem
fracassada foi o marxista, que caiu porque se transformou num
socialismo de Estado excessivamente autoritário e se perdeu de
seus próprios valores. Isso foi a última etapa da sociedade moderna.
Agora, no que se chama de sociedade pós-moderna, estamos num
vazio onde tudo é resolvido fragmentariamente, cada um dentro
do seu mundinho.
EC - Como
recuperar a autoridade moral perdida?
Bisol - Como
está aumentando a criminalidade e a violência, o pessoal quer
mais efetivos, mais automóveis, mais equipamentos. Então, a solução
é cada um casar com um policial e levar a segurança pra cama
(risos). É fácil resolver a violência assim. Mas é claro que
não adianta efetivo. Tem é que organizar a sociedade sob outros
princípios, sob o princípio da solidariedade, da igualdade. Tem
que tornar a tecnologia universal e democrática. E não fazer essa
sociedade fragmentária onde 80 são desgraçados e desempregados
e 20 estão situados. Teremos de conceber uma sociedade com outra
organização.
EC - Que
tipo de organização?
Bisol - O
Direito, por exemplo, é fundado sobre obrigações negativas. “Não
matar”. “Não furtar”. E são abandonadas as obrigações positivas,
como o direito à alimentação. A diferença entre uma e outra é
que as negativas eu posso conhecê-las e cumpri-las individualmente.
Agora, acabar com a fome dos famintos, sozinho eu não consigo.
Isso só é possível ser cumprido por toda a sociedade. Temos que
começar a pensar num tribunal que exija da sociedade o cumprimento
das obrigações positivas, por-que eu não posso exigir de você
que vá lá e mate a fome de todo mundo. Mas da sociedade podemos
exigir. Esse é o caminho para vocês, que são jovens.
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