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Sem truques
Luiz
Carlos Barbosa
Tinha
mesmo de ser o inquieto historiador Mário Maestri a encarar um
desafio prosaico só na aparência. Poucos intelectuais empreenderiam
a tarefa de considerar Paulo Coelho e sua literatura com seriedade.
Isto por si mesmo mostra a propriedade do suscinto e profundo
ensaio do professor da Universidade de Passo Fundo, doutor pela
Universidade de Louvain (Bélgica) e um dos especialistas mais
qualificados na pesquisa do modo de produção escravagista no Brasil.
Um certo preconceito
“aristocrático” que preside os salões da crítica literária no
país impedia o estudo de um fenômeno que pode ser medido pela
venda de 21 milhões de exemplares. Ou por uma ficção festejada
por franceses, chilenos e italianos, e por milhões de almas da
classe média brasileira. Ou então, por um autor prestigiado por
personalidades tão díspares quanto Francisco Weffort, Augusto
Pinochet e o dirigente italiano Massimo D'Alema, do PDS, partido
da esquerda democrática. Partindo da indagação cunhada no título
da obra, sem preconceitos e sem ataques supérfluos ao autor, Maestri
desvenda o mistério sobre o sucesso do “mago escrivinhador”,
como ele chama o autor de bestsellers como “O diário de um mago”,
“O alquimista”, “As Valkírias”.
Maestri se
imiscui no âmbito da literatura e suas teorias com rigor científico,
sem dispensar a sua habitual verve de afiada ironia. Ao propor
a questão “Por que Paulo Coelho teve sucesso”, de início, discute
as posições conceituais do que é e do que não é literatura. Adota
a orientação que enquadra a produção de Paulo Coelho na chamada
“literatura trivial”, que abarca o “gênero” da autoajuda, uma
das vertentes que constituem, junto com o esotérico”, os elementos
integrantes dos livros de Paulo Coelho.
Sem exagero,
o resultado é um exame sintético, profícuo e agradável de se
ler sobre o processo cultural contemporâneo e sua indústria nos
quadros do capitalismo neoliberal. Quer dizer, sobre a cultura
de massas e a sua função para a hegemonia política. Maestri desnuda
o combate entre a racionalidade e a irracionalidade, como extratos
culturais determinados historicamente e suas expressões contemporâneas,
incorporadas à disputa ideológica. Desta forma, naturalmente e
indissociavelmente como estética e como ideologia política, Paulo
Coelho reflete e registra um período em que o capital derrota
( Muro de Berlim) o movimento revolucionário engendrado no século
passado e palmilhado neste século por experiências como a Revolução
Russa e o Maio de 68.
A contravenção
às regras da língua padrão, a exigüidade e repetição da estrutura
narrativa e a pobreza da escritura de clichês e lugares comuns,
assim como as saídas individualistas e esotéricas estão de acordo
com a lógica do capitalismo triunfante, que fortalece as explicações
mágicas para encobrir as razões de suas mazelas. Sem a arrogância
míope daqueles que não leram e não gostaram, Maestri explica o
fenômeno Paulo Coelho e, inclusive, identifica uma evolução temática
e conceitual que verifica no livro mais recente, de 1998, “Veronika
decide morrer”. Sem truque e sem magia.
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