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A obra
chega aos cinqüenta
Aclamado
como marco da cultura literária gaúcha, O Continente
começou a ser "profetizado" por Érico
Veríssimo em 1942
Dóris
Fialcoff
Há
meio século, Erico Ve-rissimo (1905-1975) lançava O Continente,
a primeira parte da trilogia O tempo e o vento, um gigantesco
romance histórico que garantiu ao autor ser reconhecido como
um clássico da literatura brasileira. Maria da Glória Bordini,
coordenadora do Acervo Literário Erico Verissimo da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC), conta que o
projeto da obra iniciou em 1939, quando Erico pensava em escrever
um romance cíclico sobre o Rio Grande de 1740 a 1940, a que chamaria
Caravana. Entretanto, em plena eclosão da Segunda Guerra Mundial,
sentiu que não era a hora e acabou desistindo.
Foi apenas
em 1947 que O Continente começou a ser escrito, depois de já
ter sido “ficcionalmente profetizado pelo autor gaúcho no seu
livro O resto é silêncio (1942), quando o protagonista, também
um escritor, durante um concerto no Theatro São Pedro, em Porto
Alegre, se dá conta da quantidade de etnias que está na platéia.
O próprio personagem, então, começa a pensar que essa mistura
de colonizações da formação do Rio Grande merecia ser romanceada.
Ali, Erico estava construindo a imagem de o O Continente”, interpreta
Maria da Glória.
A coordenadora
do acervo revela que Erico, desde que começara a escrever ficção,
achava que não devia divinizar os heróis de um estado que tinha
uma história de guerras e tropelias. “Se fosse escrever, teria
que ser um resgate do lado mais verdadeiro e humano da história,
diferente do pensamento oficial do Estado Novo”, analisa. E isso
pode ser percebido já no início de O Continente, quando o personagem
Liroca, de arma em punho na espreita do sobrado, transborda os
medos e ansiedades de um jovem que a qualquer momento pode ter
a vida roubada naquela batalha.
Para o crítico
literário e escritor Paulo Bentancu, O tempo e o vento é a mais
importante obra da literatura gaúcha. Considerando-o um ciclo
romanesco, avalia serem “novelas isoladas que somadas compõem
todo o mosaico da história do Rio Grande do Sul”. E reverencia:
“Pobre do Rio Grande do Sul sem o Erico. Ele é 50% da literatura
gaúcha”. Bentancur acredita que, apesar do texto do também autor
de Saga e Incidente em Antares ser “irresistível, saboroso e
ter uma funcionalidade popular sem ser superficial, não chega
a ser rico. Erico era um escritor alerta para o seu tempo, muito
mais atento à política do que ao estilo”, opina, lembrando as
palavras do próprio autor: “Não sou um talento verbal”. Bentancur
entende que existem os escritores que as pessoas amam e os que
admiram. “O Erico eu amo”, confidencia.
Na opinião
de Bentancur, Erico Verissimo influenciou vários escritores gaúchos,
entre eles Josué Guimarães, Luiz Antonio de Assis Brasil, Tabajara
Ruas e Sergio Faraco. No país, acha que não fez tanta escola
quanto os autores nordestinos da geração de 30, como Graciliano
Ramos e Rachel de Queiroz. Entretanto, já foi modelo para Prêmio
Nobel de Literatura. “Gabriel Garcia Márquez afirmou, certa
vez, que foi muito influenciado por O tempo e o vento ao escrever
Cem anos de solidão. Para mim, pela arquitetura do projeto, isso
aconteceu mesmo com a primeira parte de O Continente, intitulada
O sobrado. Tanto que Cem anos de solidão era para se chamar A
casa”, revela.
Uma verdadeira
devoradora de livros, Maria Raquel Cavalcanti, hoje com 73 anos,
conta que leu os volumes da trilogia no período em que foram editados.
Como ela também conhece as obras que Erico escrevera antes, tem
a impressão que, “a partir de certa época, tudo que ele fez foi
sempre com o pensamento ligado à trilogia que um dia escreveria”.
Ela, que considera O tempo e o vento uma obra muita pesada, densa,
principalmente O Continente - “talvez pela minúcia e pelo tema
histórico” -, confessa: “foi algo que eu li porque achava um
absurdo não ler, mas não que tivesse feito com grande prazer”.
Quanto às
preocupações estilísticas do autor, Maria Raquel lembra de quando
ele mesmo dizia não ser um romancista, mas um contador de histórias.
Apesar de acreditar que havia muita modéstia naquelas palavras,
também acha que ele não se preocupava, apenas narrava. “E, como
por um dom natural, o fazia bem. Assim como a gente conversa,
ele escrevia”, compara. Por falar em comparação, após ser explícita
sobre o quanto lhe agrada ler Erico Verissimo, garante: “quem
eu gostava tanto quanto do Erico era do Machado de Assis, em
sua segunda fase, quando publicou Quincas Borba, Brás Cubas,
Dom Casmurro...”.
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