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Milênio
O
pior de toda essa euforia com o reveillon do milênio não é nem
o desrespeito com o calendário, nem o descompasso com a situação
do país. O pior mesmo são os preços que vai enfrentar quem quiser
participar da festinha. Já falaram dos oitocentos reais por uma
mesinha de plástico bamba no Pão-de-Açúcar, mas esse tipo de coisa
sempre foi para poucos e muito loucos. Nós, os terráqueos, sonhamos
é com um bom descanso em uma pousada de Florianópolis, não é mesmo?
Pois bem,
fiz um test-drive do verão na Lagoinha, gentileza da “La Caracola”:
dez metros de janela frente ao mar, tamanho paraíso que na verdade
não tem preço. Se tivesse que pagar, em janeiro? Cento e vinte
dólares a diária. Está barato, muito barato. Ali ao lado, noutra
pousada, um quarto y baño aguarda a metade da Argentina que vem
sambar aqui pela bagatela de cento e cinqüenta bucks. Trezentos
reais por dia, que tal? Se já não estivesse lotada para todo
o verão, você poderia pensar no assunto. Ouvi falar que o jogo
de frescobol com o Guga vem incluído no preço. Eu já me antecipei
e fiz reserva: vou seqüestrar alguém na sessão de autógrafos
da Feira e exigir o resgate em livros, antes de buscar refúgio
em uma pensão de Igrejinha até o milênio passar.
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E a Feira
é a Feira do Livro do milênio, como todo o resto (incluindo o
Finados do Milênio, bom nome pra bloco deeuforia milênio o descompasso
O que participar falaram uma no tipo poucos terráqueos, um
pousada é drive gentileza metros tamanho verdade tivesse
e barato, lado, y Argentina aqui cinqüenta reais estivesse
verão, no jogo vem reserva: alguém da livros, refúgio Igrejinha
Livro resto Milênio, de sujo). Não dá pra perder. Já estou compensando
a leitura atrasada algumas décadas com dois presentaços de trabalho
que o birô recebeu da Sulina: o relançamento de “O Escravismo
Brasileiro”, do patrono Décio Freitas, uma vasta aula de História,
tão coloquial e agradável que entre um capítulo e outro a gente
pede licença ao livro para ir ao banheiro - e volta correndinho;
e “Teses por uma Esquerda Humanista e outros textos”, belos textos,
do Marcos Rolim, leitura para a militância petista entrar a
meia-noite comendo lentilhas e resoluções, do qual surrupiei
um trecho para o EC: “O socialismo para a esquerda brasileira
é (…) um sentimento vivido como realidade, com o qual se encobre
a ausência de um projeto real com algum sentido.” Outro: “O PT
não é uma catedral; é uma casa para seres humanos, feita de virtudes
e vícios, exposta a chuvas e trovoadas e povoada por lutadores
dos mais variados sonhos e pesadelos.”
Pois é. O
Aleph Editorial entra em recesso até março ou abril, que este
seu criado tipógrafo vai preparar um novo disco, e nada melhor
que sair de cena editorando uma dupla de peso dessas. Até o mascote
da casa, meu pastor alemão emergente, anda abanando o rabo com
uma certa soberba. Se a força da raça, tal como nos homens, não
costumasse transformar rapidinho elegância em genocídio, eu levava
o Luther pra desfilar nessa Feira.
*Nei Lisboa
é cantor e compositor
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