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Entra
e sai
No
outro dia nasceu o hexabilionésimo, se é assim que se diz, habitante
da Terra. A ONU decidiu que ele (é um menino!) nasceu em Sarajevo,
e o secretário-geral Kofi Annan estava lá para dar as boas vindas
em nosso nome e dizer que, qualquer coisa, estamos aí. Todos os
anos nascem uns 80 milhões de pessoas no mundo, a maioria na Ásia.
Asituação na China é tão potencialmente explosiva que lá já existe
uma coisa inédita na História do mundo - uma sociedade sem tios.
Em pouco tempo não haverá mais irmão na China e “tio” só em sentido
figurado. Como os filhos únicos costumam ser mimados e difíceis,
o resultado é que no futuro os chineses serão menos do que temíamos,
mas mais chatos. Toda a população do mundo está crescendo menos
do que o previsto, o que não deve nos consolar. O drama demográfico
fica maior a cada dia, principalmente num mundo em que a distribuição
de recursos, energia e comida fica mais injusta a cada minuto.
Mas podia ser pior e, assim como pessoas nascem outras cumprem
seu papel neste infindável vaudeville e saem, convenientemente,
de cena. Era natural que ao nascimento simbólico em Sarajevo correspondesse
uma morte simbolicamente simultânea em outro lugar - mas precisava
ser o Milt Jackson? Você sabe que também está chegando a hora
de sair do palco e dar seu lugar a um chinês quando descobre que
quase todos os músicos que gosta de ouvir já se foram. Me dei
conta que ultimamente só ouço mortos. Aexceções eram raras, e
uma delas era o Milt Jackson, o homem que conseguiu o milagre
de transformar o vibrafone, metálico, percussivo e dependente
em eletricidade, num instrumento intimista. No Quarteto de Jazz
Moderno ele era a alma arrebatada em contraste com o cerebralismo
recatado do pianista John Lewis, e o contraponto entre os dois
foi uma das glórias da música deste século. Ninguém tocava uma
balada com o bom gosto de Milt Jackson, mas também ninguém ia
buscar um blues lá no fundo como ele. Mas estava na hora de desocupar
o lugar e ele foi para a banda dos mortos, que fica cada vez melhor.
Enquanto você leu isto, sabe quantas pessoas nasceram no mundo?
Não, não adianta eu escrever textos mais curtos. Não vai mudar
nada.
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Já somos 6
bilhões de pessoas no planeta. Se fosse um planeta bem administrado
isto não assustaria, mas além da fertilidade de coelhos temos
o caráter de chacais, que, como se sabe, são animais sem qualquer
espírito de solidariedade humana. As megacidades, que um dia
foram um símbolo da felicidade bem distribuída que a ciência
e a técnica nos trariam -um helicóptero em cada garagem e caloria
sintética para todos, segundo as projeções futuristas dos anos
20 - se transformaram em representações da injustiça sem remédio,
cidadelas de privilégio cercadas de miséria, a repetição do mundo
feudal só que com monóxido de carbono. Nosso futuro é o aperto
urbano e associedades se dividem entre as que se preparam - conscientemente
ou não - para um mundo desigual e sem espaço e as que confiam
que as cidadelas resistirão.
Os jornais
brasileiros ficaram todos mais finos, recentemente, para economizar
papel mas também porque com o tempo diminuirá o espaço para a
expansão dos nossos cotovelos. Chegaremos ao tablóide radical,
duas ou três colunas magras em que tudo terá que ser dito com
concisão desesperada. Adeus confortáveis advérbios de modo,
adeus frivolidades e divagações superficiais -como estas. A tendência
de tudo feito pelo homem é para a diminuição progressiva - dos
telefones e computadores portáteis aos assentos na classe econômica
- embora o volume do próprio homem, pelo menos do homem que
se alimenta bem, esteja aumentando. Ou talvez por isto.
No Japão,
onde muita gente convive há anos com pouco lugar, o espaço é sagrado.
Surpreende a extensão dos jardins do palácio imperial no centro
de Tóquio, uma cidade onde nem milionário costuma ter mais de
dois quartos, o que dirá um quintal. É que o espaço é a suprema
deferência japonesa. O imperador sacralizado é ele e sua enorme
circunstância.
Já nos Estados
Unidos, reverencia-se o desperdício de espaço. Para entender os
americanos você precisa entender a sua classificação de camas
de acordo com o tamanho: Queen Size, tamanho rainha, King Size,
para reis e, era inevitável, Emperor Size, do tamanho de jardins
imperiais. É o espaço como a suprema ostentação, já que - a não
ser para orgias e piqueniques - nada mais supérfluo do que espaço
de sobra na cama, exatamente o lugar onde não se vai a lugar algum.
E os americanos não se deram conta de que, quando chegar o dia
em que haverá chineses embaixo de todas as camas do mundo, quanto
maior a cama, mais chineses.
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