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Esses
moços, pobres moços
César
Fraga
Fotos: René Cabrales
A
onda jovem, fenômeno de crescimento populacional
na faixa etária entre 15 e 24 anos detectado pelos demógrafos,
tem aspectos preocupantes. Pesquisas indicam o crescimento da
violência provocada por jovens que tem como principais vítimas
a própria juventude com uma média de 42 mortes por
dia
Nunca fomos
tão jovens, tão violentos, tão sem emprego
e tão sem educação. Nunca, numericamente,
o Brasil teve tantos habitantes na faixa etária entre 15
e 24 anos. Nunca tantos jovens ficaram sem acesso a escola e,
em conseqüência, a empregos dignos. Com isso, agrava-se
uma atmosfera propícia ao aumento da violência, violência
esta de que os jovens não apenas são os principais
atores, mas as primeiras vítimas.
Vivemos um
momento de pico de população jovem, a chamada onda
jovem, segundo expressão cunhada pelos demógrafos.
Conforme Felícia Reieber Madeira, demógrafa da Fundação
Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE/SP), o principal
motivo foi o alto índice de fecundidade do início
dos anos 80. Ao todo são cerca de 32 milhões em
todo Brasil, conforme as estimativas baseadas em dados do IBGE,
representando 19,8% de toda a população brasileira
que gira em torno de 167 milhões de habitantes. Apesar
da proporção já ter sido maior na década
80, quando representavam 21% (cerca de 25 milhões) de 119
milhões de habitantes, numericamente é bastante
superior. Para Madeira, tal pressão demográfica
é uma forte agravante para a já difícil situação
enfrentada pelos jovens brasileiros nesta virada de milênio.
Trata-se de um fenômeno populacional sui generis na
história do país. A constatação
é de Jacobo Weizenfilsz, coordenador de desenvolvimento
Social da Unesco e autor dos relatórios Mapa da Violência
I e II, o último publicado na segunda quinzena do mês
de setembro. O mais grave de tudo isso é que sofremos de
uma falta de políticas públicas para atender e entender
toda essa gente, o que, para ele, não é exclusividade
do Brasil, mas um fenômeno mundial. Como conseqüência
das novas tecnologias de produção e da globalização
do mercado nunca se exigiu tanto preparo para o ingresso no mercado
de trabalho e nunca se ofereceu tão poucas condições
para isso, detona o pesquisador. Ele diz que já existem
poucos empregos para quem tem nível médio de escolaridade
e até superior. E o que resta para quem não
tem escolaridade nenhuma?, pergunta sem dar respostas. Não
bastasse isso há também a síndrome da eterna
juventude, introduz. E, acrescenta que associada à
essa síndrome, há uma série de exigências
sociais vinculadas a símbolos de sucesso. A pressão
social fica sendo muito grande em relação a isso.
Em contrapartida há cada vez menos canais legítimos
para que este sucesso seja alcançado. Para ser alguém
deve-se usar determinado tênis, roupa ou freqüentar
tais e tais lugares. Só que o trabalho, como atividade
socialmente aceita, que deveria ser a via legítima para
a obtenção deste sucesso, é cada vez mais
escasso. Com isso, ficam as vias ilegítimas, o roubo, a
prostituição, o tráfico e por aí vai,
diz Weizenfilsz.
Atualmente,
segundo dados da Fundação Getúlio Vargas,
cerca de 8 milhões de jovens estão fora do mercado
formal de trabalho. Um dado otimista. Conforme estimativas do
IBGE e do MEC, apenas 30% dos jovens entre 15 e 20 anos têm
acesso a escola de nível médio (2º grau), cerca
de 9,6 milhões. Os 70% restantes, que totalizam 22,4 milhões
de adolescentes, não tem nem terão escolaridade
suficiente para enfrentar um mercado de trabalho que é
altamente competitivo. Isso sem contar que escolaridade de nível
médio em hipótese alguma é uma garantia efetiva
de colocação neste mesmo mercado, mas sim uma condição
para isso. Isso vai contra o próprio texto da LDBEN
(Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional),
que inclui em seu texto, que o exercício da cidadania e
a formação para o trabalho são responsabilidade
do sistema de educação, diz professora Zuleide
Araújo Teixeira, pedagoga e assessora de educação
da bancada do PT no Senado Federal. De acordo com o estudo realizado
pela Unesco, cada vez mais as possibilidades sociais ilegítimas
se tornam alternativas recorrentes. Elas ficam sendo institucionalizadas
para certas camadas sociais, como o narcotráfico e outras
atividades ilegais.
Dependendo
de onde se mora, basta dar uma volta na quadra para perceber os
efeitos imediatos desta onda. Embora os jovens que se mantém
na marginalidade sejam considerados minoria em relação
ao seu universo, quando observado em números absolutos
mostra-se alarmante. De repente, os jovens em geral se tornaram
críticos terríveis de todas as instituições:
igreja, família, escola e poderes públicos,
constata Jacobo. Nunca os jovens foram tão descrentes,
inclusive da própria democracia. Embora a maioria prefira
esta forma de regime político, 30% a 40% é indiferente.
Eles não têm sequer uma concepção de
mundo formulada.
Parte da pesquisa
foi realizada em três cidades satélites de Brasília
apontadas como áreas de maior índice de violência:
Samambaia, Ceilândia e Planaltina, mas também há
dados relativos a várias capitais brasileiras. Só
em Brasilia 810 jovens foram entrevistados, onde 1% se assumiu
como participante de gangues. Este número levado ao universo
maior apontaria uma projeção de cerca de 320 mil
jovens em todo o país, integrantes de gangues. Neste
caso não importa se a proporção é
pequena, o fato é que em uma cidade com massa crítica
de 30 mil jovens, pelo menos 300 estão dispostos a atividades
ilegais e até violentas. Imagine 300 pessoas espalhadas
em uma cidade querendo confusão, explica o pesquisador.
Problemas como o tráfico e a prostituição
já existiam, porém tendem a se agravar devido a
pressão demográfica desta faixa etária.
Jovens
morrem mais
A
taxa global de mortalidade da população brasileira
também mostra dados preocupantes. Para se ter uma idéia,
em 1980 havia 633 óbitos para cada 100 mil habitantes,
destes 128 de cada 100 mil eram jovens. Isso, proporcionalmente
a faixa etária entre 15 e 24 anos, era um pouco maior do
que a taxa encontrada hoje. Conforme dados do Data SUS
Ministério da Saúde, em 1998 caiu a taxa geral de
mortalidade para 574 pessoas a cada 100 mil habitantes. Porém
subiu sensivelmente o índice de mortes entre jovens entre
15 e 24 anos, para 140 a cada 100 mil habitantes. Se por um lado
a população aumentou e a mortalidade geral reduziu,
a mesma lógica não se aplica à juventude,
que cada vez morre mais. De acordo com o Mapa da Violência
II, estes dados podem ser usados como referência para 2000
com algum acréscimo. Conforme o coordenador de desenvolvimento
social da Unesco os homicídios e os acidentes de trânsito
são os campeões e principais responsáveis
por esta realidade. Em alguns locais do país, como São
Paulo, Recife e Rio de Janeiro, chega a mais de 50% o índice
de homicídios vitimando pessoas entre 15 e 24 anos. Já
no trânsito, a média é de 19,6 a cada 100
mil.
| Percentual
de homícidios - 15 a 24 anos - capitais |
| São
Paulo ......................................................57,6% |
| Recife.............................................................53,5% |
| Rio de
Janeiro.................................................52,1%
|
| Manaus..........................................................43,8% |
| Porto
Velho....................................................42,5% |
| Cuiabá...........................................................41,4% |
| Brasília..........................................................40,3% |
| Porto
Alegre...................................................26,6%
|
*
39,9% é a média nacional entre as capitais referentes
ao total de assassinatos que vitimam jovens entre 25 e 24
anos.
Fonte: DATASUS/ Ministério da Saúde |
A taxa de
óbitos por homicídios na população
geral acusa cerca de 25 a cada 100 mil habitantes. Na população
jovem, 47,4 a cada 100 mil habitantes. Conforme estas estatísticas
um cálculo simples nos leva a um número absurdo.
Quinze mil jovens foram assassinados em média, em 1998,
em todo o Brasil, o equivalente a quase uma lotação
do ginásio Gigantinho. Isso representa 42 mortes por dia.
A mídia destaca que em geral os jovens são
os principais responsáveis pela violência, mas também
são eles as primeiras vítimas. Se incrementa cada
vez mais o número de mortes entre jovens e isso não
é destacado, justifica Jacobo.
Quase
diariamente encontramos nos jornais: fulano de tal, 18 ou 19 anos,
é morto a tiros, geralmente em algum bairro da periferia.
Desconfia-se de guerra de gangues. O motivo, na quase totalidade
das vezes, é o narcotráfico. Assim era lido o nome
de Alexandre de Souza na página policial de um diário
da capital gaúcha. O rapaz foi encontrado morto, teria
sido executado com um tiro na cabeça, em um final de semana
de setembro. Apenas mais um caso para ser relatado sem destaque,
em letras pequenas, ocupando três linhas de texto, o que
denuncia, de certa forma, a trivialidade de uma ocorrência
policial de rotina que sequer chama a atenção. Fora
das páginas do jornal, em conversa com a polícia,
o EC descobriu que Alexandre, mais conhecido como Bananinha,
que já havia sido preso por assalto - foi vítima
de sua própria fúria. Após uma visita à
namorada, no bairro Cavalhada, saiu dando tiros a esmo, sem motivo
aparente. Teria sido advertido pela Brigada, mas estava a fim
de confusão e seguiu seu intuito.
Segundo o
relato da polícia, cerca de 10 moradores do local cercaram
o rapaz e o executaram para evitar danos maiores na
comunidade. Mais adiante, seguindo o texto do mesmo jornal, mais
três linhas abaixo, outro rapaz morto Vitor César
da Silva, 18 anos, desta vez em um acidente de trânsito.
Obviamente ambos fazem parte de uma mesma matéria em que
vários outros óbitos foram relatados, sem maiores
detalhes. São apenas mais dois casos que, se contabilizados,
fariam parte de um universo único, o universo dos que estão
excluídos das condições ideais para se tornarem
adultos. Apesar de Porto Alegre apresentar os índices de
violência juvenil mais modestos de todo o País, -
26,6% das mortes entre jovens são homicídios, 10%
abaixo da média nacional das capitais, que é de
39,9% - esta realidade também se faz presente. O medo de
morrer não tira J.S., o Ratinho, das ruas. Ele é
um garoto franzino de 15 anos, como tantos outros, e circula diariamente
em vários locais com afluência de outros jovens para
poder exercer seu pequeno negócio. O garoto estudou apenas
nas séries iniciais, vem da periferia e passa as madrugadas
nos arredores dos bairros Bom Fim e Cidade Baixa, em Porto Alegre.
Oferece aos passantes seus produtos: pequenas doses de cocaína
e maconha que pega em consignação com outros traficantes.
Vai aí, é veneno puro, diz ele, enaltecendo
a qualidade das três buchas de cocaína
que exibe na palma da mão aberta a R$ 10,00 cada. Volta
e meia leva uns sopapos dos traficantes de rua mais velhos, na
verdade só um pouco mais velhos. Ele sabe o risco que corre.
Invariavelmente baixa a cabeça pela disputa de clientes,
no máximo troca uns xingões. Fico na minha
para não me dar mal, diz ele. Para o pesquisador
da Unesco fica difícil prospectar um futuro otimista para
esses garotos que invariavelmente tendem a fazer parte destas
estatísticas cruéis.
Embora as
taxas de homicídios entre jovens sejam baixas em relação
ao resto do país, a pesquisa da Unesco aponta Porto Alegre
em primeiro lugar nas estatísticas de sucídios em
todas as faixas etárias e como terceiro colocado em incidência
de suicídios entre 15 e 24 anos, com 12,6 a cada 100 mil
habitantes. E, na média dos estados, o Rio Grande do Sul
fica em segundo lugar na mesma categoria com 9,6 para cada 100
mil habitantes, o que é uma taxa considerada bastante alta
pelos especialistas.
Em todo o
Brasil cerca de 21,4 mil jovens morrem em acidentes de trânsito
a cada 100 mil habitantes. No Rio Grande do Sul 20,2% das mortes
do trânsito tem vítimas com idades entre 15 e 24
anos e está em 18º lugar em incidências deste
tipo no país. Em Porto Alegre 26,8 jovens a cada 100 mil
habitantes morrem vítimas de acidentes, ficando em 16º
lugar entre as capitais.
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