|

Fotos: René
Cabrales
Barbosa
Lessa
De
patrão a patrono
Integrante
da primeira patronagem do CTG 35, há quase 50 anos, o tradicionalista
é o principal homenageado da Feira do Livro 2000
Extra
Classe O senhor está escrevendo um livro
sobre Garibaldi?
 |
Apesar
de eu ter 62 obras publicadas, não se lembram muito
de mim...Quem fala sobre coisas do Rio Grande do Sul é
grosso com raríssimas exceções como Ciro
Martins e Simões Lopes Neto, que levou um século
para ser reconhecido
Foto: René Cabrales |
Barbosa
Lessa Não. É um livro, uma história,
que eu publiquei em 1964. Já se vão 36 anos. Era
publicado não como história em quadrinhos, que era
em tiras, mas na vertical em coluna, duas colunas, tipo desenho
e legenda. Eu escrevia para a cadeia Última Hora no Brasil.
Então eu escrevi várias histórias, Garibaldi,
Manoela, a Marquesa de Santos, Xica da Silva, Jacobina, que despertaram
interesse, agora, para a publicação como livro de
Garibaldi e Manoela, sendo Garibaldi com o título Garibaldi
Farroupilha pela Editora Alcance.
EC
Quem fazia esses desenhos?
BL
Rodolfo Zalla, que é o autor dessa história,
José del Bó. O Manuel Victor Filho e o Luiz Seidenberg,
com n. Os desenhos serão os originais. A minha biblioteca
está um caos. Livros ainda encontro com relativa facilidade
porque estão por ordem na prateleira,
agora, coisas como esse material de história em quadrinhos,
de 30 e tantos anos atrás, é uma luta para reaver
os clichês. Em algumas dessas histórias faltam clichês,
então ou eu continuo procurando, indefinidamente, ou adapto
o texto à falta dos clichês de uma cena para outra.
EC
O senhor não pensou na idéia de novos desenhos?
BL
Não, os desenhistas, fora de dúvida, eram de primeiríssima
classe, classe internacional. Então não tenho facilidade
para encontrar novos nomes. É que, por exemplo, competir
com os quadrinhos do Correio da Manhã, como Brick Bradford
(mostra um jornal com a publicação original de Garibaldi),
não era para qualquer um. Essa classe de desenhos não
se encontra mais.
EC
Quando será lançado esse livro?
BL
Agora, na abertura da Feira do Livro.
EC
Quanto tempo o senhor levou para reunir esse material?
BL
Eu nem procuraria mais, mas o editor foi até Camaquã,
até o meu sítio, e ele mesmo procurou. Quando tinha
dúvida, pedia para que eu eslarecesse. Então o trabalho
foi do Rossyr Berny, o editor, que foi lá catar.
EC
Como surgiu o convite para fazer esse livro?
BL
O que houve foi que o Rossyr Berny me pediu para editar uma peça
de teatro que eu escrevi com grande sucesso no Rio Grande do Sul
que era Não Te Assusta, Zacaria. Eu disse ao Rossyr que
era uma peça que valia pela música e pela coreografia.
Tirando a música e a coreografia, o texto em si não
valeria a pena ler. Nessa oportunidade, para ele não perder
a viagem, eu disse: Tenho umas histórias em quadrinhos
que eu acho que seria muito bom. Ele aceitou olhar. Agora,
tem outra história junto com essa do Garibaldi, que é
interessante, Jacobina dos Muckers, mas tá faltando muito
clichê.
EC – O
senhor é o patrono da Feira do Livro este ano. Qual é a situação
de sua bibliografia em termos de catálogo?
BL –
A grande maioria está fora de catálogo.
EC – E
não há interesse de editoras em republicar essa obra?
BL –
Aí é a história da galinha e do ovo. Essas editoras não sabem
que eu tenho dezenas de textos dando sopa. Agora, eu também não
estou em contato com as editoras. Então a culpa é das editoras,
que não me publicam, ou minha, que não aviso às editoras desse
material? Hoje, por exemplo, fui fazer uma entrevista com Flávio
Alcaraz Gomes e ele disse, dirigindo-se ao público, que o melhor
livro de história do Brasil que ele tinha lido era meu, Nova História
do Brasil, que dava uma virada na história, como o próprio título.
Seria muito pretensioso dizer “nova história” se realmente ele
não fosse novo. Mas as editoras atuais e seus editores não sabem
que eu tenho esse livro, só o Flávio, que é da minha geração,
é que se lembra. Inclusive foi um livro corajoso, que eu publiquei
em 1974, e chegava até os governos militares da época. Dava menos
importância à descoberta do Brasil, quase 500 anos antes, e mais
importância àquela fase que a gente estava enfrentando na área
política e militar do País.
EC – O
senhor não acha que aquele período até hoje está muito mal contado?
Não se vê muitos títulos a respeito dos governos militares.
BL –
Não estou atualizado nesses livros que versam sobre a área política,
mas uma vantagem que tinha meu livro é que eu contava a história
nova do Brasil sem tomar partido. Que o leitor tirasse suas conclusões
e saísse dando gritos.
EC – Dessa
sua obra que está fora das livrarias, o que o senhor consideraria
fundamental que fosse reeditado?
BL –
Olha, em razão da impressionante difusão que tem tido o tradicionalismo
no Rio Grande do Sul e em outros estados e mesmo no Exterior,
talvez o livro Nativismo, Um Fenômeno Social Gaúcho,
onde eu explico como é que nós havíamos começado
o movimento e o que pretendíamos. É um livro espontâneo,
contando fatos quase como uma reportagem de como havia surgido
o movimento tradicionalista.
EC
Quando o grupo de vocês, ainda jovem, começou a se
dedicar a levantar essas informações sobre o gaúcho,
sobre quem seria o gaúcho, nunca pensaram que essa imagem
que vocês reconstituíram poderia ser questionada
ou que, sem querer, se criasse um mito, uma imagem que não
correspondesse realmente à imagem o gaúcho?
BL
Nós éramos rejeitados por Porto Alegre. Porto
Alegre não admitia a presença de um grosso
do interior.
EC
Paixão Cortes já chegou a dizer que na época
era vergonhoso até tomar chimarrão...
BL
Não me lembro do chimarrão, mas andar a gaúcho,
aqui... Tem um símbolo esquecido. Era o José, um
peão de Bagé, que se atreveu a atravessar a Praça
da Alfândega vestido à gaúcha e foi linchado.
Apenas isso: linchado. Foi um mártir da tradição
completamente esquecido.
EC
Essa confusão com a tradição existe até
hoje. O presidente Fernando Henrique Cardoso na recente inauguração
da fábrica da GM, disse que já havia se fantasiado
de gaúcho.
BL
É, se fantasiou mas não foi linchado.
Então já há uma grande mudança de
atitude. Nós quando começamos o movimento, tínhamos
essa intenção, embora adolescentes, de espalhar
a idéia de Porto Alegre para onde fosse necessário,
sem brigar com ninguém mas procurando atrair simpatias.
Nós tínhamos consciência de que a grande força
que impedia nossa aceitação era a cultura norte-americana.
Nosso primeiro show, improvisado porque não tínhamos
artistas, fomos lá com um trovador e um gaiteiro, foi no
Instituto Cultural Norte-Americano tentando atrair a simpatia
e o respeito deles pela nossa cultura. E não para ir agredir.
EC
A reação de Porto Alegre ao movimento de vocês
não seria a reação da aldeia diante do tradicional,
tentando se impor como cidade grande?
BL
Eu custei muito a ter uma explicação. Ela veio uns
cinco ou seis anos após iniciarmos o movimento. Foi no
livro Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Hollanda,
onde ele escrevia claramente que a formação do Brasil
se deu a partir de Portugal que tinha de atravessar o Atlântico
e chegar ao litoral. As primeiras cidades foram fundadas no litoral:
Olinda, Salvador, Rio de Janeiro, São Vicente. Então
durante muito
tempo quem estava sediado no litoral se considerava representante
da civilização européia, gente fina, gente
boa e, no que entrava para o interior, era o selvagem. E dizia
o Sérgio Buarque, ainda hoje, e isso era nos
anos 50, quando se fala em interior, nessas cidades litorâneas,
se traduz a palavra por gente não pertencente à
civilização. Tal como na época do povoamento.
Daí eu me dei conta, ao chegar em São Paulo, que,
sendo São Paulo no interior, assim como Belo Horizonte,
em Minas, não havia essa prevenção. Então
eu via a Inezita Barroso cantar moda de viola no Teatro Municipal
sem nenhum problema e eu, para apresentar a peça Não
Te Assusta, Zacaria, aqui em Porto Alegre foi uma luta para conseguir
o Theatro São Pedro. Até tive, na época,
um deferimento, uma opinião, do departamento de cultura
do Estado dizendo: a peça não tem nenhum mérito
artístico ou cultural, no entanto se dê dois dias.
Ou seja, no sentido de dê dois dias para esses miseráveis
aí que vem fazer grossura.
EC
Negrinho do Pastoreio.
BL
Negrinho do Pastoreio foi uma música que eu fiz como primeira
tentativa de manter um conjunto musical quando tinha 12 anos,
no Ginásio Gonzaga, em Pelotas. Então eu fundei
os Minuanos. Tivemos de encerrar meses depois pelo simples fato
de não haver repertório. Não havia músicas
do Rio Grande do Sul.
Quando formamos
o CTG 35 me dediquei a compor, fiz Quero Quero, Carreteiro e Negrinho
do Pastoreio e aí Negrinho do Pastoreio ficou. Deve ter umas
30 gravações.
EC
O senhor é de Piratini. Essas composições
como Negrinho, Quero Quero, têm raízes na sua infância?
BL
Em parte. Minha mãe tocava piano e tinha o seu
Anarolino, o Edmundo, que tocava gaita. O Edmundo era do campo
mesmo. Eu ouvia, simultaneamente, minha mãe tocando música
européia e Edmundo tocando na gaita as nossas músicas,
então aquilo deve ter ficado no ouvido.
EC
Voltando aos seus livros, que outras obras o senhor acha que mereceriam
atenção maior do público?
BL
Vai ser reeditado agora, para a Feira, Rio Grande do Sul:
Prazer em Conhecê-lo, pela AGE, e a Mercado Aberto vai reeditar
um policial, uma novela policial que se passa em São Paulo,
O Crime é um Caso de Marketing.
EC
Como o senhor vê a questão do livro atualmente em
relação à possibilidade de acesso pelo público?
BL
Nos últimos 12 anos eu estou lá no meu reduto verde,
lá no meio do mato, não saberia dizer como é
que está hoje a situação. O que eu posso
dizer, sem agredir ninguém, sem dedar ninguém,
é que eu não componho desde 1963, a não ser
por alguma músicas esporádicas como Por do Sol no
Guaíba e o Hino Tradicionalista, e devo ganhar de direitos
autorais de minhas músicas umas 20 vezes mais do que com
os direitos autorais de livros. É desestimulante para o
autor mas é provavelmente porque não vendam os meus
livros, não estou pondo em dúvida a honestidade
dos editores.
EC
O senhor continua escrevendo para jornais e trabalhando em livros?
BL
Sim, tem o Extra Classe, a Zero Hora e encomendas de livros como
agora, do Senac, sobre a cozinha gaúcha. A Unisinos também
lançou um belíssimo álbum sobre as missões
com quatro ou cinco autores e a parte do índio encomendou
a mim. Então esse tipo de encomenda para livros, não
de livaria, mas de distribuição institucional, eu
tenho feito continuamente.
EC
E esse tipo de trabalho lhe dá um bom retorno financeiro?
BL
Dá porque é pago na hora, é pago na encomenda,
não fico dependendo de eventuais vendas. Agora há
pouco acabei mais um desse tipo para a OPP, do Pólo Petroquímico
de Triunfo, sobre os alicerces do Sul, sobre nossas correntes
étnicas, e um outro sobre o hino e a bandeira do Rio Grande
do Sul, A Novela dos Nossos Símbolos. Então praticamente
todo o ano eu tenho livros a escrever.
EC
Como o senhor recebeu sua indicação para patrono
da Feira do Livro?
BL
Acho que é oportuno me referir à surpresa e
à emoção com que recebi o convite para ser
patrono da Feira do Livro. Em 1978, eu tinha tido uma grande emoção
por saudar, em nome do público, o patrono daquele ano,
que era o professor Walter Spalding. Já naquela ocasião,
para saudar o patrono, eu entrei em órbita. Então
passados 22 anos, eu sou convidado para patrono, daí, imagina,
estou muito feliz embora surpreso. Se descobriu que eu sou escritor
ou me reconheceram como escritor. Apesar de eu ter 62 obras publicadas,
não se lembram muito de mim... É mais ou menos,
ainda, a posição aquela a que eu me referi sobre
o início do movimento tradicionalista: é grosso.
Quem fala sobre coisas do Rio Grande do Sul é grosso com
raríssimas exceções como Ciro Martins e Simões
Lopes Neto, que levou um século para ser reconhecido.
|