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É
lixo só...
César
Fraga
Foto: René Cabrales
A vida
dos catadores de lixo reciclável é mais do que o
retrato de uma parcela marginalizada da população.
Na verdade, essa gente que trabalha e muitas vezes mora nas ruas,
disputando espaços no trânsito com suas carroças
e carrinhos trôpegos, exerce uma função mal
remunerada e sem as mínimas garantias trabalhistas cujo
resultado final acaba beneficiando grandes empresas através
de substanciais reduções de custos pela utilização
da matéria-prima reciclada como vidro, alumínio
e papel. Tais empresas dificilmente informam os lucros obtidos
pela reciclagem
Todos os dias
as ruas de Porto Alegre são o cenário de uma corrida
que de tão cotidiana já quase não é
notada. As 2.712 carroças puxadas por animais e as centenas
de carrinhos de ferro com tração humana disputam
espaço com os 637 mil veículos de tração
motora que circulam todos os dias nas ruas da capital para chegarem
antes. Mas antes de quem e para quê? A corrida é
contra os caminhões de recolhimento de lixo. O objetivo:
separar e recolher a sucata antes do DMLU. O motivo é simples.
Lixo é moeda corrente tanto para os que vivem na miséria
como para as grandes empresas.
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| Recicladores
buscam cidadania trabalhando nos galpões |
O mercado
de reciclagem movimenta muito dinheiro e na ponta estão
os papeleiros, pessoas de origem humilde que recorrem a esta prática
para ganhar honestamente o seu sustento. Famílias inteiras
se dedicam a isso. Parece fácil, mas não é.
O trabalho é duro. É preciso andar quilômetros,
acordar cedo e dormir tarde, muitos não dormem à
noite para aproveitar a madrugada e pegar o trânsito mais
tranqüilo. Feriados e finais de semana, nem pensar,
diz o catador Adilson da Silva, 23, morador da Vila dos Papeleiros,
enquanto desmonta caixas de papelão para acomodá-las
no seu carrinho. Ele e a esposa Luísa dos Santos, 34 anos
e grávida de seis meses, caminham das 8 horas da manhã
até às 22 horas, em média, na busca de seu
objeto de desejo, o lixo que já não é mais
alheio e pertence a quem chegar primeiro. Geralmente os carrinhos
são consignados pelos depósitos clandestinos que
intermediam a venda do material e empregam os papeleiros.
Eu sou empregado de um senhor lá da vila, diz
Adilson. Quando questionado sobre quem seria seu patrão,
ele é evasivo. Diz apenas que a referida pessoa não
gosta de ser mencionada e que, na verdade, ele não tem
carteira assinada e teme falar à reportagem sobre o assunto.
Melhor não falar quem é, encerra. A
informalidade existe mas a exploração do trabalho
é institucionalizada. Antônio Maciel, 52 anos, é
um desses atravessadores. Trabalha no ramo há mais de 12
anos e ganha uma pequena margem de lucro, micharia,
segundo ele, no caso do papelão, cerca de oito centavos
por quilo. Ele administra um galpão e empresta os carrinhos
aos catadores. Antônio vende estes produtos a outros atravessadores
que repassam às empresas que reciclam. No caso do alumínio,
ele chega a pagar R$ 1,00 o quilo e acresce 30% no repasse para
fazer a intermediação. Mas garante que não
tira mais do que R$ 300,00 por mês para contribuir com as
despesas de sua casa no bairro Santana em uma família de
oito pessoas.
Nicanor do
Paraguai, 42 anos, catador há dois anos perdeu o emprego
como ajudante de pedreiro e foi buscar nos carrinhos de papel
o seu sustento diário. É pouco o dinheiro
que a gente ganha mas dá pra gente sobreviver. Consigo
até guardar algum para mandar para minha filha no final
do ano. Refere-se a cerca de R$ 150,00 que paga como pensão
anual à filha de seu primeiro casamento. Ele mora no próprio
depósito onde é feita a separação
do lixo e alimenta-se geralmente de doações e embolsa
pouco mais de R$ 8,00 por dia, dinheiro utilizado principalmente
para vestir-se e ajudar a família.
É comum a sucata passar por até dois atravessadores
antes de chegar a seu destino final, as empresa recicladoras ou
mesmo as próprias indústrias. Mas são eles,
os papeleiros, que fazem o serviço sujo. Para
isso é preciso algum conhecimento dos trajetos do DMLU
e dos horários de coleta em todas as vias. Para valer a
pena é preciso recolher o filé: latas, papelão,
cobre, vidro. A recompensa: centavos a cada quilo, dependendo
do material, mas a féria diária, apesar de pouca,
é fundamental. Em geral fica entre R$10,00 e R$15,00. Difícil
saber quanto isso vale para as empresas. Trata-se de um segredo
de estado, em geral guardado a sete chaves. É o caso do
Grupo Gerdau, maior comprador de lata ferrosa dos galpões
de reciclagem. A empresa paga em torno de R$ 50,00 por tonelada
aos atravessadores e R$ 40.00 aos galpões de reciclagem.
Utiliza 2 milhões de toneladas deste material por ano na
fabricação de aço, representando compras
na cifra de R$ 10,5 milhões. Sabe-se que o negócio
é vantajoso, mas quanto de vantagem isto significa em dinheiro
não é revelado. Esta é uma questão
considerada estratégica e ninguém do grupo está
autorizado a falar no assunto, informa a assessora de imprensa
da empresa do outro lado da linha. Na questão do vidro
não há segredos. Wilson Khols, coordenador de matéria-prima
da Vidraria Santa Marina (Subrasa), em Canoas, diz que a margem
de economia é de 5% no que se refere ao custo por tonelada
e 25% no consumo de energia para o processamento do material.
O grande ganho é ambiental, afirma. Segundo
ele cada tonelada de matéria-prima teria um custo total
no processo de industrialização do vidro de R$ 100,00
e o material reciclado sai por R$ 92,00. Como a cada mês
são recicladas 4 mil toneladas, a economia é de
cerca de R$ 34 mil. Já na área de plásticos,
a economia chega a 25% em cada tonelada. Lívio Schwarz,
diretor executivo da Associação Brasileira de Materiais
Plásticos, ressalta que se trata de um grande negócio,
uma vez que é possível ter um ganho adicional de
até R$ 500,00 em cada tonelada.
Hoje, no Brasil,
são utilizadas 300 mil toneladas por ano deste tipo de
sucata pela indústria. O preço da tonelada paga
aos galpões de triagem nas vilas e depósitos fica
em torno de R$ 130,00 a R$ 230,00. Ou seja, as empresas lucram
nas duas pontas, no processo de produção e pagando
mais barato por esta matéria-prima, menos de 50% do valor
real.
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| Pelo
menos dois atravessadores intermediam a venda entre catadores
e as empresas. O trabalho infantil anda é uma realidade
quase inevitável para as famílias que vivem
do recolhimento de lixo nas ruas |
O papel é
justamente o principal componente reciclável do lixo produzido
no país. Representa entre 20% e 28% do lixo produzido e
resultou em um terço da produção de papel
brasileira em 1999, segundo a Associação Brasileira
de Celulose e Papel (Bracelpa). Dos 180 fabricantes de papel
no Brasil, 124 são recicladores. Este tipo de indústria
já existe, aqui há 110 anos e não é
novidade. São produzidos mais de 2,4 milhões de
toneladas com material reciclável. Agora quanto se ganha
com isso ninguém vai dizer. Nem eu que também sou
empresário do setor, diz Alberto Fabiano Pires, consultor
da entidade, admitindo tratar-se de um negócio lucrativo.
Para ele, é bom que seja assim, pois se dependesse apenas
da questão ecológica, seria um negócio deficitário
e não iria adiante. É preciso acabar com este
mito de que reciclar papel poupa árvores. Não é
verdade. Dá dinheiro, gera empregos e divisas para o País.
Esta é a verdadeira importância, esclarece.
Uma vila
de papel
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| D.M.S.,
13 anos, órfão de pai e mãe: "Recolho
papel porque nuncamais quero voltar para aquele lugar (a Febem).
Aquilo lá é muito ruim. A gente apanha. É
triste". Ele não freqüenta escola. "Eu
trabalho", justifica. |
Só
para se ter uma idéia da importância da reciclagem
de papel, uma vila inteira vive do recolhimento deste e de outros
materiais. Trata-se da Vila dos Papeleiros, uma pequena favela
localizada entre as avenidas Voluntários da Pátria
e Castelo Branco, em Porto Alegre. São pelo menos 250 famílias
que habitam casebres, muitos deles construídos com a própria
sucata. Vivem em sub-habitações e condições
muito precárias de higiene e saneamento básico simplesmente
não existe. Não raro surge uma outra questão
delicada, a do trabalho infantil. Torna-se quase inevitável
pois muitas vezes a participação de cada um é
fundamental para que os ganhos possam suprir as necessidades diárias
de todos. É o caso de D.M.S., 13 anos, órfão
de pai e mãe. Ele vive com o irmão mais velho, de
18 anos, que também é papeleiro, e tem um irmão
preso na Febem, onde também já esteve por ter roubado
um par de tamancos. Há ainda outros dois irmãos
menores que foram adotados. Recolho papel porque nunca mais
quero voltar para aquele lugar. Aquilo lá é muito
ruim. A gente apanha. É triste. Douglas não
freqüenta escola. Eu trabalho, justifica.
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| O
ex-pedreiro Breno Gonçalves prefere a nova "profissão" |
O catador
Breno Gonçalves, 42 anos, ex-servente de obras relata que
trabalha com papel há três anos, desde que perdeu
o emprego e teve que vender sua casa na Lomba do Pinheiro, onde
já não
tinha condições de pagar sequer as contas de água
e luz. Mal sobrava dinheiro para comer, confessa o
pai de oito filhos, observado pela esposa da porta do casebre
à beira da rua, com um bebê no colo. As demais crianças
ficam à volta do pai ajudando a descarregar o carrinho
para triagem do material. Aqui pelo menos não preciso
pagar água nem luz e a gente tem um lugarzinho para se
esconder. O
único problema é a dor nas pernas. Mas isso a gente
resolve dando uma espichada antes de dormir, diz com um
desconcertante otimismo.
É
como se vivessem num lixão, afirma Mário Diniz
Xavier, superintendente de Ação Comunitária
e Regularização Fundiária do Departamento
Municipal de Habitação (Demhab). Segundo ele, existe
um projeto de recuperação urbana de toda a região
considerada porta de entrada da capital gaúcha.
Entre
as áreas a serem recuperadas está a Vila dos Papeleiros,
porém ela não consta entre os locais em que serão
implementadas as primeiras ações, que devem iniciar
a partir de janeiro de 2001. As soluções habitacionais
devem ser feitas de forma integrada. Se separarmos esta questão
da garantia de renda destas famílias, o projeto fracassa
e elas acabam migrando para outros locais e construindo novos
casebres, explica Xavier. Para o superintendente trata-se
ter certeza de que estas famílias conseguirão se
manter a partir de sua atividade econômica principal, no
caso, o recolhimento e a comercialização de lixo
reciclável.
Mas nem todos
os que vivem da reciclagem compartilham a mesma realidade. Existem
pelo menos oito unidades de reciclagem espalhadas em toda a capital
com o objetivo de realizar a triagem do material recolhido pela
coleta seletiva coordenada pelo DMLU. Os galpões são
patrimônio do município com equipamentos cedidos
na forma de comodato. Cerca de 450 pessoas são ocupadas
nestes galpões com renda média de dois salários
mínimos. Conforme Rosalino Mello, coordenador do departamento,
embora os catadores de rua recolham duas vezes mais que os caminhões,
conseguimos gerar trabalho, ganho ambiental e econômico
para estas comunidades carentes com o que é obtido na coleta
seletiva. Apenas 60 toneladas, das 250 do lixo reciclável
é aproveitado em Porto Alegre. Ao todo são 950 toneladas/dia.
Se os moradores se conscientizarem, mais material poderá
ser reciclado e um maior número de famílias beneficiada
e teremos uma consideral economia de espaçõ e aumento
da vida útil dos aterros, adverte.
Celoi Saraiva da Rosa, 31 anos ex-catadora e atual presidente
da Associação de Recicladores do Loteamento Cavalhada,
resume a questão da seguinte forma: ou tu é
explorado, ou vira ladrão. Para o pessoal das ruas o carrinho
é questão de sobrevivência. Tu trabalha de
dia para comer à noite. Celoi recorda que foi catadora
de rua desde os 7 anos. Atualmente lidera a associação.
Agora não precisamos mais recolher o lixo, correndo
riscos no trânsito. Já vi gente ser atropelada e
morta. Aqui as pessoas encontram uma forma de trabalho digno e
sentem orgulho disso, não vivem à margem, excluídas.
Fazem parte de um processo maior que traz contribuições
tanto para nosso ganho pessoal como de toda comunidade,
diz. A coleta é feita pelos caminhões da prefeitura.
Os ex-papeleiros se resposabilizam pela triagem do material para
venda direta à indústria, sem intermediários.
Os galpões funcionam 24 horas e os trabalhadores se revezam
em turnos.
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