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Trabalho voluntário
capitaliza cidadania
Victor
Lourenço
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| Foto:
René Cabrales |
O trabalho
voluntário é um conceito de trabalho que vem sendo
desenvolvido na prática em países onde o poder público
já não tem condições de atender a
crescente demanda social. É o chamado terceiro setor. Este
tipo de trabalho reúne três tipos de atividades,
ligando-as de modo a se complementarem. Primeiro, é uma
oportunidade de trabalho para as pessoas que ainda não
têm experiência ou para aquelas que já tem
experiência e estão aposentadas e mesmo para os que
estão na ativa e sentem a necessidade de fazer algo de
útil em suas horas de folga. Segundo, é uma fonte
de recursos humanos para as entidades que prestam algum de assistência
social, recreação ou atividades especiais, sempre
carentes de recursos financeiros para pagamento de pessoal para
manterem-se em funcionamento. Terceiro, reunindo as duas anteriores,
existe a função de ligação entre aqueles
que querem prestar algum tipo de colaboração voluntária
e as entidades que necessitam destes trabalhadores.
Se o conceito
de trabalho voluntário é novo, a idéia não
é. Os mutirões entre amigos ou vizinhos é
uma prática antiga que dá uma noção
do que seja o trabalho colaborativo sem fins lucrativos. A solidariedade
e a parceria são as características desta ação
coletiva, mas que estava restrita aos objetivos imediatos de um
pequeno grupo ou família a construção
de uma casa ou similar. Já o trabalho voluntário
põe em contato pessoas que não se conheciam antes,
tendo origens as mais diversas, assim como formações
completamente diferentes.
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Alguns
coorperativados estavam isolados da sociedade há dois
anos
Foto: René Cabrales |
A prestação
de trabalho voluntário abarca uma série de funções,
desde as assistenciais, monitoria, até o planejamento e
a contabilidade. Entre as funções importantes, para
quem necessita ou presta algum tipo de trabalho voluntário
está a captação de recursos financeiros.
Neste ponto surgem dúvidas sobre o tema. São cada
vez mais freqüentes os pedidos de auxílio em dinheiro
que chegam até o cidadão, seja por telefone ou diretamente
nas ruas. As entidades que fazem estes pedidos, no entanto, nem
sempre estão cumprindo, de fato, com alguma função
social. É preciso estar atento e exigir credenciais, endereço
e identificação dos beneficiários para ter
algum controle sobre as doações. Do contrário,
corre-se o risco de estar contribuindo para uma picaretagem
em nome do social.
Já
as entidades sérias, que atuam com assistência social
e outras atividades afins, geralmente fazem a sua captação
de recursos através de projetos de financiamento, direcionados
para agências governamentais locais ou de cooperação
internacional (governamentais ou não-governamentais), sem
descartar a contribuição direta das pessoas da comunidade.
Driblando
a falta de recursos
A Cooperativa
CrêSer Pais e Filhos Especiais Ltda está
em atividade há poucos meses e já tem do que se
orgulhar. Os jovens trabalhadores associados à CrêSer
já apresentaram progressos importantes. Bastou ter a estrutura
física, a oportunidade de trabalho e a companhia de outros
jovens na mesma situação para que eles apresentassem
melhoras significativas no aspecto social e pessoal.
A idéia
de uma cooperativa que abrigasse jovens deficientes acima de 21
anos de idade surgiu da vivência de Carmen Carbone, atual
presidente da entidade. Ela pensou em como ocupar a sua filha
depois que ela saísse da escola. Uma lei municipal determina
que os jovens excepcionais ou portadores de alguma deficiência
só podem ficar na escola pública até os 21
anos. Assim, em 1997 os pais de jovens nesta situação
fundaram a cooperativa, mas somente em abril deste ano é
que as atividades começaram para valer. Foi necessário
obter uma área para construir o prédio da cooperativa.
O município de Porto Alegre cedeu o terreno na rua Capitão
Pedro Werlang, bairro Intercap, e, através do Orçamento
Participativo, foram obtidos os recursos financeiros para erguer
o prédio de 320 metros quadrados. Atualmente, a CrêSer
conta com 101 associados mas só consegue dar ocupação
para cerca de 25 jovens no turno da tarde. A falta de pessoal
é o principal impedimento para que mais jovens possam trabalhar.
Além
das carências de recursos humanos, a cooperativa ainda precisa
superar a fase inicial de implantação, em que busca
maior visibilidade junto às empresas e, deste modo, garantir
um fluxo contínuo de trabalho para seus associados.
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Os
25 associados executam serviços terceirizados para
duas empresas
Foto: René Cabrales |
Os jovens
trabalhadores prestam serviços manuais de baixa complexidade,
como dobraduras, empacotamentos, montagem de peças, separação
de componentes e todo tipo de serviço manual. A CrêSer
é uma cooperativa autônoma. Se mantém com
seus próprios esforços, seja na prestação
de serviços para empresas, pela confecção
de artigos de artesanato, cucas e atividades sociais para obtenção
de recursos. Uma parte do dinheiro arrecadado é destinada
à manutenção do prédio e o que sobra
é dividido entre os associados. O objetivo principal da
CrêSer é gerar renda para os jovens trabalhadores
e seus familiares pois a realidade do mercado de trabalho é
implacável com pessoas portadoras de deficiência.
Somente 5% deles consegue alguma colocação no mercado
formal, informa a presidente da cooperativa.
O que sustenta
o funcionamento da CrêSer é o trabalho voluntário
de pais e mães, de alguns profissionais que participam
e, mais recentemente, de alunas estagiárias do curso de
Terapia Ocupacional do IPA. A carência de recursos humanos
é o maior obstáculo para manter a cooperativa em
atividade. Trabalho não falta e, por enquanto, são
as mães voluntárias que assumem a maior parte das
funções. De acordo com Carmen Carbone, a CrêSer
precisa de alguém para trabalhar a parte de culinária,
instrutores de cursos para as mães, monitores para auxiliar
os jovens, assistentes sociais, psicólogos, ajudantes para
a limpeza e conservação das instalações
e de um contador para tratar da parte financeira.
Atualmente
a CrêSer funciona só no turno da tarde, das 14 às
17h30min, mas tem um projeto de ampliar suas atividades para o
turno da manhã. São necessários, no entanto,
recursos humanos para manter a entidade funcionando em mais um
turno. Enquanto isso, os 25 associados, que têm idades entre
21 e 40 anos, vão se ocupando com o serviço que
uma metalúrgica e uma agência de publicidade terceirizaram
com a CrêSer. Eles vêm, em sua maioria, das escolas
municipais de Porto Alegre, da zona Norte, zona Sul, Restinga,
Cristal, Parque do Sol e Escola Lígia. Uma parte das vagas,
15%, é destinada a alunos de outras escolas e também
para moradores do bairro.
Aos poucos
o trabalho vai ganhando formas mais consistentes e as resistências
vão sendo vencidas. Em primeiro lugar, obter a confiança
das empresas, depois dos moradores da vizinhança, que ainda
não estão acostumados com a presença da cooperativa.
Mas isto também está sendo superado. O mais importante
é que os jovens estão apresentando progressos importantes.
Alguns estavam há anos isolados da sociedade, praticamente
presos em suas casas, e agora, através do convívio
e do trabalho vão recuperando uma parte da sua cidadania.
Segundo Carmen, eles estão motivados com o trabalho e com
as novas amizades e, o principal, se sentido úteis e produtivos.
Um aspecto importante é que a capacidade de concentração
deles, antes limitada, agora já é maior e eles conseguem
realizar as tarefas com empenho e dedicação, ressaltou
Carmen. A CrêSer fica na rua Cap. Pedro Werlang, 1001, bairro
Intercap, telefone (51) 384-3603.
Em Porto Alegre,
a função de intermediar os voluntários que
buscam colaborar e as entidades que necessitam de recursos humanos
é realizada pela ONG Parceiros Voluntários, que
tem sua sede na rua Largo Visconde do Cairu, 17, 8º andar.
Através desta organização não-governamental,
as pessoas interessadas em ser voluntárias e as entidades
assistenciais que necessitam de colaboradores são colocadas
em contato. De um lado, os Parceiros Voluntários já
cadastraram mais de sete mil voluntários em todo o Rio
Grande do Sul. De outro, são 102 instituições
conveniadas que integram o banco de dados da ONG.
Segundo os
dados coletados pela entidade, o perfil do colaborador é
o seguinte: 76% são mulheres, 59% têm entre 25 e
50 anos e 66% possuem escolaridade em nível superior. Os
homens, portanto, ainda são minoria entre os voluntários,
assim como os jovens. No item escolaridade, chamou atenção
o fato de que, entre os cadastrados, apenas 1% tem especialização
ou mestrado. No quesito idade, o segundo grupo mais atuante é
o que tem mais de 50 anos.
Para ser voluntário
basta ter a disponibilidade de pelos menos três horas por
semana e entrar em contato com os Parceiros Voluntários.
Após uma entrevista, os colaboradores são encaminhados
às entidades onde recebem o treinamento específico
para a sua área de interesse. No cadastro existem pessoas
de todas as profissões, mas isso não quer dizer
que elas vão atuar em suas respectivas áreas. Ao
mesmo tempo, se o voluntário não se adaptar ao tipo
de trabalho designado, há possibilidade de encontrar nova
colocação. Trabalho não falta.
Já
as entidades que buscam recursos humanos para tocar suas atividades
também devem fazer um contato e preencher uma ficha cadastral.
Quase sempre o encaminhamento de voluntários acontece rapidamente.
Os interessados em prestar trabalho voluntário e as entidades
assistenciais podem procurar os Parceiros Voluntários em
sua sede ou pedir maiores informações pelo telefone
(51) 227-5819.
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