|

A
mãe de Naomi Campbell
Jorge
Pozzobon
Ao apresentar
sua coleção de outono para o ano 2000, Valérie
Morris frustrou galhardamente o ceticismo inicial da crítica.
Não conhecem Valérie Morris? É a mãe
de Naomi Campbell, a qual dispensa apresentações.
Agora, do alto de seus 49 anos de idade, esta mãe surpreende
o mundo da moda com uma coleção ousada e chique.
E surpreende o resto dos mortais com uma beleza tão espantosa
quanto a da filha.
Gosto dos
fashion shows, embora me dêm um certo arrepio. É
neles que a beleza feminina se revela em toda a sua glória,
mas é neles que se percebe a soberba do criador. Se não,
qual é o sentido de por no mundo essas deusas efêmeras
aterrorizadas com o envelhecimento precoce? Uma super modelo só
dura até os 25, 27 anos. Se não manejar a própria
fama, acaba enlouquecendo, como Gia Carangi, que se viciou em
heroina, foi abandonada por versaces e gallianos, se prostituiu
para obter drogas e acabou morrendo de AIDS. Não há
lugar para as ex-top models no mercado da alta costura, nem aposentadoria
para mulheres lindas de 26 anos. Há algo de perverso no
conceito moderno de beleza.
Na Grécia
Clássica, a beleza e o bem eram a mesma coisa: to on, o
ser. Quando se passou a traduzir to on por ens realissimo, na
Idade Média, perdeu-se a indissociabilidade da beleza e
do bem. No lugar da beleza puseram a verdade revelada nas sagradas
escrituras. Quod libet ens est unum, verum, bonum, diziam os escolásticos,
todo ente (tudo o que dura no seio da criação) é
uno, verdadeiro e bom. E o que dura pouco, passa a ser falso,
maligno, diabólico. Num mundo desses, a beleza só
podia ser coisa do demônio.
Alguma coisa
que nos falta devia haver no conceito grego de beleza. Se não,
como é que Penélope, mãe de um rapagão
como Telêmaco, e portanto uma quarentona, conseguia despertar
tanto interesse naquela turba de nobres pretendendes? Não
acredito que as gregas quarentonas dos tempos homéricos
fossem tão lindas quanto Valérie Morris, porque
naquele tempo não havia dietas revolucionárias,
body buildings e pitanguys. Acho que as divindades não
as agraciavam apenas com a beleza efêmera da juventude.
Para as gregas antigas, a idade não era sinônimo
de decadência.
Não
é difícil passar da condenação medieval
da beleza efêmera para a metamorfose desta em mercadoria
altamente desejada. A transformação de todo bem
de consumo em mercadoria foi um passo fundamental para isso. Qualquer
mercadoria é um fetiche para o comprador. Num mundo em
que tudo se vende, os demais fetiches, sobretudo os que se ligam
ao prazer, passam a gravitar em torno desse vórtice fetichista
que é a mercadoria. A tirania da beleza adolescente é
o triunfo mais novo desse fetichismo. Nas propagandas de carros,
cigarros, bebidas, pacotes de férias, há um corpo
feminino na glória da juventude. Essa boneca deslumbrante
que a mídia nos empurra goela abaixo passou a ser um ideal
obsessivo de beleza, de modo que até algumas das feministas
mais aguerridas desejam sê-la ou devorá-la.
A pan-sexualização
da mercadoria através do corpo feminino eternamente jovem
e perfeito conseguiu transformar a culpa medieval em regozijo
desesperado, em tirania estética e confusão mental.
Se não,
porque as Penélopes modernas, sempre prontas a criticar
nossas visitas à ninfa Calipso, se torturam com dietas,
peitos de silicone, body buildings e cirurgias, que só
fazem retardar a marcha inexorável do tempo, transformando-as
em caricaturas de si mesmas? Deviam pensar é na própria
saúde, numa alimentação correta e numa vida
mais serena. E muitos de nós certamente devíamos
evitar o papel de patrocinador de Calipsos adolescentes. Não
digo que devamos rechaçá-las, que ninguém
é de ferro.
Mas,
a exemplo de Ulisses, não percamos a dignidade.
Vou narrar
uma cena paradigmática. Estava eu em pé no corredor
do avião recém aterrissado, no meio daquele abominável
cutucar de maletas, frasqueiras e sacos de free-shop. Em frente
a mim, um sujeito de bigodinho, uns quarenta anos de idade, bolinava
uma garota que podia ser sua filha. Ele vestia calças brancas
e blazer azul marinho, com uma âncora bordada no bolso superior.
O tipo do emergente cafona e pretensioso. A garota, num prêt-à-porter
caro e avançadinho, era uma verdadeira Calipso. A cada
beijo que lhe dava, o sujeito de bigodinho imitava uns urros de
leão, em voz baixa, e olhava de esguelha para trás,
com ar maroto, querendo ver o efeito daquela babaquice em seus
semelhantes. Também olhei para trás, em busca de
alguma cumplicidade que me livrasse do embaraço de pertencer
ao mesmo gênero que aquele imbecil. Uma senhora logo atrás
de mim, num tailleur muito bem cortado, exibindo com dignidade
umas belíssimas mechas brancas nas têmporas, sorriu
de leve e me sussurrou uma ironia divina: Interessante,
não?
Era Penélope.
A de Homero.
|