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Ainda é
tempo de ver Salgado
Nei
Lisboa
Quem
ainda não viu, corra e veja o trabalho de Sebastião
Salgado, Êxodos, em exposição na Usina do
Gasômetro, em Porto Alegre, antes que ele parta para Paris,
Nova Iorque e o resto do mundo que ainda não mereceu essa
honra.
Procurei na
Internet uma alternativa, porque receio que essa convocação
chegue tarde demais, e dando como certo que haveria um site da
exposição. O único que achei é hospedado
pela Kodak e até serve como consolo, desde que você
consiga digitar o endereço www.kodak.fr/cluster/global/en/professional/features/legendsV3Q5/menu.shtml
sem arrumar uma tendinite.
Da fotografia
de Sebastião Salgado, já se sabia que era fantástica,
e a miséria humana não é bem uma novidade,
exceto para o mundo dos colunáveis, como, aliás,
gostam de ressaltar alguns apressados críticos do Sebastião.
Mas mesmo que o trabalho se resumisse a uma denúncia bem
fotografada do abandono e da exploração do homem
pelo homem, assim, do tipo barba, boina e estrelinha, não
estaria mais do que contrapondo um pouco de realidade à
uma época obsessivamente virtual e hedonista. Virtualidade
pra valer é o futuro de alguns países da África
onde a Aids campeia entre mínimas condições
de higiene, saúde e prevenção, com índices
de soropositivos de até cinqüenta por cento da população.
O que mais
impressiona em Êxodos é a magnitude de tudo que ali
está posto, desde o tamanho da exposição
em si, da grandeza com que os textos que a acompanham e
por si só já valem a visita tratam a questão,
até a tragicidade das estatísticas, da progressão
em poucos décadas do número de migrantes, refugiados
e reassentados em todos as partes do mundo. Ao mesmo tempo, cercar-se
daquelas imagens faz com que, por exemplo, o um milhão
de rundais massacrados na guerra entre as etnias de Ruanda perca
essa dimensão puramente estatística para tornar-se
o que realmente é, mil vezes mil vezes um ser humano, o
cadáver preto em preto e branco boiando no rio a nossa
frente.
É difícil
conter, ao longo de centenas de fotos, um certo mal-estar e a
impressão de que o horror não está na África
subequatorial ou nos Balcãs, do outro lado do mundo, mas
sim marchando através de Cachoeirinha e prestes a cercar
o seu condomínio. O que não é bem uma impressão,
mas uma promessa escrita em cada descaso com a questão
dos sem-terra, no inchaço caótico da periferia de
centros urbanos como São Paulo e principalmente na observação
de que a ordem e o rumo com que as coisas estão postas
hoje no mundo só fazem acelerar essa marcha.
No último
bloco da mostra, instalado na Usina em um espaço de corredores
bem estreitos e contíguos, o visitante é convidado
e, no caso, intimado a conhecer a infância
desse universo em migração, retratos de crianças
de todas as raças, saudáveis na imensa maioria,
lindas criaturas como sempre o são, mas com um indefectível
olhar de quem já vivenciou coisas que a nossa vã
imaginação não gostaria de saber. Tempos
atrás, algum barbudo se saiu com aquela máxima vinde
a mim as criancinhas. A julgar pelo olhar dos pequenos em
Êxodos, ninguém mais precisa se preocupar em fazer
esse convite.
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