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Crônica
de um desastre anunciado
orto
Alegre sediará, de 24 a 27 de outubro, o Fórum Mundial
de Educação. O evento pretende discutir os caminhos
e alternativas para que todas as pessoas tenham acesso à
educação e, fundamentalmente, à dignidade de
ser cidadão. A expectativa de público é de
15 mil pessoas provenientes de várias partes do mundo. Publicamos
nesta edição uma crônica de uma das mais reconhecidas
educadoras, a equatoriana Rosa María Torres, que estará
presente no Fórum Mundial de Educação. Essa
crônica foi escrita há exatamente uma década
e publicada no dia 4 de agosto de 1991 na coluna semanal sobre educação,
que a educadora manteve durante oito anos (1990-1998), no suplemento
dominical Familia, do jornal El Comercio, de Quito.
Naquele tempo, o mundo era outro. E a educação,
também. Apenas começavam a perfilar-se os processos
de reforma educativa que se estenderiam, como um dominó e
com componentes similares, por esta região e por todo o mundo.
O computador estava ao alcance de pouquíssimos e não
existiam nem o correio eletrônico, nem a Internet. Ninguém
poderia, naquele instante, ter suspeitado da grandeza das mudanças
que teríamos oportunidade de viver na década seguinte,
a que passou, assim como nos é impossível antecipar
o que nos espera o futuro nos próximos dez, 15 anos. Não
obstante, há uma década de distância, esta Crônica
de um desastre anunciado tem uma atualidade que espanta. Hoje, muito
mais do que nunca, estamos sendo chamados a evitar este desastre.
Rosa Maria Torres*
Ano 2010. O sistema educativo entrou em definitiva decomposição.
A universidade chegou ao fundo do poço faz pouco tempo, assim
como o próprio país. A infra-estrutura e a obsoleta
tecnologia escolares caem em pedaços. Os professores são
uma classe a caminho da extinção. A maioria dos transtornos
dos jovens que vínhamos observando crescer nos últimos
anos a delinqüência, o suicídio, as gangues
escolares, a aparição do grupo Antiescola,
etc - , são conseqüências diretas do drama educacional.
Crianças, jovens, profissionais esqueceram-se de ler. As
bibliotecas, cheias de livros, porém vazias de pessoas converteram-se
virtualmente em museus, para lembrar-nos de que, algum dia, também
neste país, houve leitores. Estudos recentes revelam-nos
que são alarmantes os índices de analfabetismo funcional
o qual tem tomado conta de todos os níveis do sistema educativo
e da própria sociedade.
Começa a se tornar visível o desmembramento e até
o êxodo de famílias inteiras, com disponibilidade de
recursos financeiros ou não, que procuram no exterior a salvação
de seus filhos e a esperança de uma educação
melhor. Somente uma elite privilegiada pode ter acesso as poucas
instituições educativas as quais têm conseguido
manter certos padrões de qualidade e de sintonia com os novos
tempos: somente nessas instituições, na realidade,
têm-se implantado circuitos de vídeo e pacotes didáticos
atualizados, esses que hoje são obtidos com facilidade em
qualquer supermercado de um país desenvolvido. A maioria
da população, condenada ao atraso e ao subdesenvolvimento
crônicos, continua a aprender por meio de conteúdos,
métodos e técnicas que pertencem à outra época
da humanidade, a outro século.
Estamos aqui, então, afundados neste caminho sem regresso,
do qual levaremos gerações inteiras para nos recuperamos.
Como chegamos a isso?
Falta de vontade política para resolver o problema da educação,
em meio à fragilidade e à perda de legitimidade das
classes dirigentes, da apatia e cepticismo da sociedade. Miopia
e imediatismo onde eram requeridas visões estratégicas
e de longo prazo. Prioridades políticas e cálculos
eleitoreiros impostos a qualquer racionalidade técnica. Reformas,
onde eram necessárias mudanças radicais. Remendos,
em lugar de soluções integrais. Falta de consciência
e negligência, enfim, frente à gravidade, profundidade
e urgência desta situação, frente a nosso destino
como país e como povo.
A crise da educação passou rapidamente
a incorporar-se à vida nacional como mais um problema
dentre tantos - a incorporar-se à cultura, à retórica,
ao cotidiano. Frente ao apelo da crise, continuou-se a remexer nos
problemas e nos diagnósticos, protelando-se os prazos da
ação, chegando-se a confundir discurso com prática,
projetos com programas, documentos com realizações.
Proliferaram as conferências nacionais e internacionais sobre
educação, as declarações conjuntas,
os acordos. Toda uma burocracia nacional e internacional começou
a viver da crise da educação, incluindo,
em primeiro lugar, os bancos estrangeiros sempre dispostos a conceder-nos
empréstimos milionários para a doença e logo
para o remédio.
Continuou-se a ver a educação como um mundo fechado
e auto-suficiente, monopólio de educadores, pedagogos, professores,
negando-se a multidisciplinariedade e a intersetorialidade da problemática
educativa, impossível de entender e muito menos de resolver
fora do aspecto econômico, social, político, cultural,
à margem de profundas mudanças em todas as esferas.
Continuou-se a olhar a educação como um assunto do
Estado, do governo e de um ministério particular e não
como um problema e uma solução de todos. Junto a uma
maioria sem consciência e conformista, os conscientes limitaram-se
a queixar-se a portas fechadas, a criticar sem ter propostas, a
exigir sem arregaçar as mangas. O novo governo culpou o anterior;
os debaixo culparam os de cima; os práticos, os teóricos;
os planejadores, os executores; os administradores, os professores;
os professores, os estudantes; os pais, os professores. Ninguém
quis assumir a sua parte de responsabilidade, seu compromisso de
contribuir.
Seguiu-se privilegiando a quantidade sobre a qualidade, assim como
o investimento em coisas e não em pessoas primeiramente.
O fato é que melhorar as condições de vida,
de ensino ou de aprendizagem das pessoas, investir em seu desenvolvimento
e em sua formação não têm resultados
imediatos, transparentes, facilmente palpáveis. As coisas,
ao contrário, são tangíveis, concretas, contáveis,
passíveis de serem fotografadas para a imprensa, rotuláveis
para a história. Nas pessoas não é possível
colocar placas na testa, nem nomes próprios, nem bandeiras,
nem logotipos.
Continuou-se a acreditar que a formação e a qualificação
são luxos preteríveis, assunto de outros, solicitação
requerida pelos debaixo. Não se quis entender o círculo
vicioso que se reproduz entre a má qualidade do aluno e a
má qualidade do professor, entre a má qualidade do
sistema educativo e a má qualidade dos profissionais, dos
políticos, dos dirigentes, das lideranças. Não
se quis enxergar que o problema educativo afeta tanto as bases como
as cúpulas, os analfabetos e os doutores, todos necessitados
de formação contínua, de aperfeiçoamento
e especialização. Desta maneira, foi se institucionalizando
a mediocridade e desvalorizando-se a qualidade técnica e
a excelência acadêmica, do mesmo modo que foram desperdiçadas
bolsas e cursos no estrangeiro, assim como continuaram a ser preenchidos
altos cargos técnicos com critérios de amizade, apadrinhamentos
e favores políticos.
Não se levou a sério a crítica situação
do magistério e a urgência de respostas radicais e
integrais para elevar tanto seu nível de vida como seu nível
docente. A formação docente tornou-se cada vez mais
obsoleta e rígida. Demasiadamente tarde, tomaram-se medidas
e estímulos previstos para recrutar os melhores jovens, os
melhores alunos para a carreira docente, quando o desgaste da profissão
havia atingido limites irremovíveis. Hoje é uma geração
de velhos que povoa nossas escolas; os jovens, os bons estudantes,
já não têm mais interesse em se tornar professores.
E pode-se bem compreender por que...
Acreditou-se que a reforma educativa era um documento, uma tarefa
de cúpulas e de escritório, um quebra-cabeça
que poderia ser montado por peças e em qualquer ordem, deixando-se
para o final, para algum dia, a peça chave e mais complexa:
a reforma curricular, a revisão dos planos de estudo, dos
textos, dos métodos. Então, assim, sem debate público,
sem participação social, sem uma estratégia
nacional de informação e comunicação,
sem que ninguém soubesse finalmente que se estava fazendo
uma reforma, a reforma foi ficando no papel, em projetos-piloto,
eternamente pilotos, em pequenos retoques como substitutos à
autêntica e profunda reforma curricular que era necessária.
Hoje a fenda é intransponível: nossos alunos seguem
aprendendo a fazer fogo esfregando os pauzinhos, enquanto, no mundo
real, o conhecimento, a ciência e a tecnologia têm atingido
níveis inimagináveis de avanço e sofisticação.
Cada novo governo denunciou o que o anterior tinha feito de errado
e decidiu começar tudo de novo: novas caras, novos colaboradores,
novos diagnósticos, novos projetos, novos empréstimos,
novas prioridades. E assim fomos passando da prioridade na educação
básica à ênfase ao ensino médio, ao jardim
de infância, à pré-escola, à técnica,
ao ensino superior.
Dessa maneira, fomos passando de mãos em mãos, de
projetos, de personagens, sem concluir nada, sem consolidar nada,
à exceção de nossa fenda tecnológica,
nossa dependência e nosso endividamento externo.
2000 apareceu de repente como um número mágico para
afinar a pontaria, acreditando-se nele como algo distante, estratégico,
decisório. Mas o ano
2000 encontrou-nos sem as metas anunciadas atingidas, sem novas
metas, sem novos números mágicos. Daqui de 2010 pode-se
entrever o imediatismo com que se planejou e atuou, a conjuntura
atropelando-nos, segurando a mangueira do bombeiro que apaga fogos
em todas as partes sem se dar conta do incêndio que vai deixando
atrás de si. Política educativa? Planificação
estratégica? Grandes consensos nacionais? Todos falaram sobre
isso.
E assim chegamos a este ano de 2010 em que muitos pais de ontem
agora somos avós, perplexos e impotentes olhando os netos
crescerem em meio ao obscurantismo educativo mais tenebroso que
se possa imaginar. Queríamos salvar nossos filhos, mas nem
sequer pudemos salvar nossos netos. Quem são os responsáveis
por esse desastre amplamente anunciado? Quem, nesta fatal corrente
de governos e governantes, políticos e ministros, educadores,
jornalistas, professores, pais de família, alunos, não
foi capaz de antever a dimensão do desastre e fazer alguma
coisa a tempo de evitá-lo.
Que nossos netos, as novas gerações de crianças
e jovens que estréiam este novo milênio, perdoem-nos
pela miopia, irresponsabilidade e negligência.
*Equatoriana,
residente na Argentina, é pedagoga, lingüista, jornalista
da área de educação e pesquisadora independente
do Instituto Fronesis. Considerada uma autoridade na campo da Educação,
é autora de Itinerários pela Educação
Latino-Americana Caderno de Viagens, Inclusão
Um Guia para Educadores e Educação para todos
Uma tarefa para fazer.
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