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O resgate
da ópera regional brasileira
Fotos:
René Cabrales
Em meados dos anos 90, o norte-americano Jeremy Wade vasculhou
a Amazônia em busca de um animal lendário, uma criatura
mítica da qual falavam e ainda falam os pescadores da maior
reserva de água fluvial do planeta. O primeiro informante
local de Wade, o pescador Dorgival Sabino, descreveu o que ele
vira no Rio Negro, próximo à cidade de Manaus, assim:
Era um animal gigantesco, como um monstro. Uma serpente
mas de um tamanho muito maior do que o normal e a diferença
era que a cabeça lembrava algum tipo de dinossauro com
algo que eu não sei se eram dentes ou guampas. Só
sei que era apavorante. As palavras de Sabino descreviam
para o incrédulo Wade a temida Boiúna ou Cobra Grande,
personagem freqüente na mitologia amazônica assim como
Sacis e Caiporas. Provavelmente uma versão bem mais enfeitada
e extremamente anabolizada da anaconda, uma grande serpente da
região, a visão da Boiúna fornecida por Sabino
a Wade nada mais é do que a cristalização
através das décadas de uma das mais belas lendas
brasileiras.
Jimi Joe
mesma
lenda inspirou o compositor gaúcho Walter Schültz
Portoalegre a compor, nos anos 50, uma ópera tipicamente
brasileira chamada Boiúna A Lenda da Noite. Redescoberta
quase meio século após sua primeira apresentação,
a peça de Schültz Portoalegre é a obra que
dá continuidade a um minucioso trabalho de resgate realizado
pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e vai fazer a alegria
da criançada e do público infantil em 12 apresentações
a partir do dia 12 de outubro.
Uma obra que aspire, mesmo que humildemente, à condição
de arte deve carregar sua justificativa em cada linha e aspecto.
O trabalho de Walter Schültz Portoalegre carrega essa justificativa
em cada grama dos 300 quilos de partituras, discos, livros, cartas,
recortes de jornais e documentos diversos que formam, até
agora, o acervo do compositor reunido na Discoteca Pública
Natho Henn e que já é parte do projeto Memória
Musical. Em breve, a obra de Schültz Portoalegre estará
à disposição do público na sede da
discoteca, localizada na Casa de Cultura Mario Quintana. Paralelamente,
o público terá oportunidade de conferir o tratamento
musical e dramático dado pelo compositor à lenda
da Boiúna, na qual a Cobra Grande da Amazônia assume
a identidade de uma feiticeira que esconde a Lua (Jacy na mitologia
indígena) sob seu manto negro de veludo, impedindo que
a noite se faça sobre a Terra e atrapalhe o reinado permanente
do Sol (Guaracy, segundo a mesma mitologia). A nova montagem de
Boiúna A Lenda da Noite, que estréia no próximo
dia 12 no próprio Teatro da Ospa com direção
cênica de Dilmar Messias, cenários de Félix
Bressan, figurinos de Vera Stédile Zattera e regência
de Ion Bressan, promove o resgate de um trabalho estreado em 1955,
no Rio de Janeiro, e que parece ter caído no esquecimento
com a morte prematura do autor em 1957, aos 50 anos, apenas dois
anos depois do lançamento da obra.
A ópera ideada por Shültz Portoalegre, diz o maestro
Ion Bressan, regente titular e diretor artístico da Ospa,
é destinada a públicos dos 8 aos 80 anos,
mas parece ter sido projetada com maior ênfase para o público
infanto-juvenil. O libreto assinado pelo poeta Sylvio Moreaux
revela uma estrutura narrativa voltada a um público jovem
enquanto a música desenvolvida por Schültz Portoalegre
representa o coroamento de um longo período de pesquisa
do folclore musical brasileiro. Moreaux, o autor do libreto, sugeriu
o tema da Boiúna entusiasmado pelo sucesso obtido alguns
anos antes, em 1951, de outra ópera com temática
do folclore brasileiro. A Lenda do Irupê, com partitura
de Newton Pádua, abriria caminho para uma ópera
regional brasileira, que teria continuidade com o trabalho de
Schültz Portoalegre. O acervo do compositor gaúcho
foi recuperado por seu filho, Caiubi Schültz. Essa
obra foi recuperada quando eu ainda estava na Rússia,
lembra Ion Bressan, remetendo ao período em que estudou
e regeu orquestras da Geórgia, na antiga União Soviética.
Quando voltou a ser regente da Ospa, Bressan tomou contato com
a obra do compositor porto-alegrense nascido em 1907. O trabalho
de pesquisa que resultou na atual montagem de Boiúna
A Lenda da Noite foi feito pela jornalista Maria Luiza Paim Teixeira
e pelo compositor e professor Flávio Oliveira.
Bressan diz que Schültz Portoalegre foi um compositor de
grande atuação e grande produção artística.
Uma das áreas em que ele mais atuou foi a produção
de cinema. Entre os anos 40 e 50, em sua produção
documentada constam pelo menos 27 trilhas sonoras para filmes
nacionais e estrangeiros produzidos naquela época,
recorda Ion. Além das partituras para cinema e de Boiúna
A Lenda da Noite, o compositor criou dois balês e
duas sinfonias. Há ainda uma grande quantidade de
obras para grupos de câmara. A obra de Schültz
Portoalegre parece ter sido relegada ao olvido como conseqüência
de um problema crônico que afeta a memória nacional
como um todo, acredita Bressan. A recuperação da
ópera de Schültz Portoalegre é parte de todo
um projeto que quer resgatar o máximo possível das
obras de compositores gaúchos e brasileiros.
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Ion
Bressan rege solistas de um dos elencos de Boiúna
- A Lenda da Noite durante ensaio no palco do Teatro da
Ospa
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Boiúna
tem uma estética nacional. É toda baseada em canções
brejeiras fortemente identificadas com a cultura brasileira. Nesse
aspecto, é uma grande ópera, discorre Ion
Bressan, embora admita que o trabalho de Schültz Portoalegre
esteja mais próximo da opereta em vários outros
aspectos. Com menos de uma hora de duração, a obra
em um ato tem um tom até certo ponto cômico
e elementos de história infantil que, associados
a momentos de diálogos falados entre as partes cantadas,
levam a essa analogia com a opereta. A montagem que vai ser vista
em 12 apresentações (veja quadro) tomou mais de
um ano de preparação até a encenação
deste mês. A revisão do manuscrito, a reedição
do material, a pesquisa estética e os ensaios do elenco
são partes de um processo que começou em maio do
ano passado, informa o maestro. Para completar a produção,
Bressan procurou reunir um elenco da maior qualidade possível.
A exemplo do treinador da seleção brasileira de
futebol, o maestro também convocou seus estrangeiros,
ou seja, artistas nacionais que estão atuando fora do Brasil.
É o caso do tenor Carlos Rodriguez. Para conseguir realizar
o número de encenações planejadas, sempre
com duas a cada dia, ele também teve de convocar dois elencos.
Mesmo sendo uma peça de curta duração
para o gênero, não dá para exigir que os mesmos
cantores façam duas encenações ao dia. Por
isso estamos utilizando dois elencos. Outros nomes de destaque,
além de Rodriguez, são os sopranos Carla Mafioletti
e Samira Moreira e o também tenor Fernando Dabone.
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