Especiais da Jornada de Literatura 2001:

 


Cowboys e índios

“O cataclisma aconteceu, estamos entre ruínas... Não há, agora, nenhuma estrada suave para o futuro, mas nós damos a volta ou pulamos os obstáculos. Temos de viver, não importa quantos mundos tenham caído,” anuncia D.H. Lawrence no parágrafo de abertura de O Amante de Lady Chaterley, remetendo, através da tragédia pessoal de Constance e Clifford Chaterley, a todo o horror da I Guerra Mundial. Embora a cada dia, em todo planeta, mundos pessoais desabem pelos mais diversos motivos (profissionais, econômicos, afetivos), há muito tempo o fim do mundo como um todo tem sido anunciado a repetidos intervalos. Na verdade, temos sido ciclicamente induzidos pelos acontecimentos históricos a repensar o futuro do planeta. Raramente o fazemos com o apuro devido. Foi assim no século XX com o cogumelo atômico de Hiroshima. Quando o muro de Berlim desabou sob uma aparente pressão do clamor mundial, na verdade sua queda se configurou muito mais como um ícone da derrocada do mundo socialista e, na visão ocidental ortodoxa, no fim do “perigo vermelho”. Em 11 de setembro de 2001, outro mundo acabou quando os Boeings se chocaram contra os edifícios do World Trade Center. Houve um tempo em que ríamos dos megavilões e seus intentos apocalípticos retratados na fantasia cinematográfica das aventuras de James Bond. Hoje, o governo Bush nos empurra Osama bin Laden como esse improvável personagem. Só que essa brincadeira de cowboys e índios não tem mais graça faz tempo. A questão é saber quando os Estados Unidos aceitarão a realidade, o fato de que eles são vulneráveis como qualquer país do mundo, e começarão a dialogar como mais um membro de comunidade internacional e não como mandatários supremos dos destinos do planeta.


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