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Poesia
é um código secreto
Fotos:
René Cabrales

Imagine um café com Antonio Skármeta, Marina Colasanti
e Affonso Romano de SantAnna. Os três sentados à
mesma mesa. Durante a 9ª Jornada de Literatura os três
se reuniram descontraidamente, entre um painel e outro desse evento
que reuniu mais de dez mil pessoas em Passo Fundo. O assunto não
poderia ser outro: poesia. A equipe do Extra Classe teve o prazer
de flagrar esta conversa e realizar mais que uma entrevista, um
pequeno debate sobre aculturamento, tecnologia, globalização
e literatura. Skármeta é chileno, autor de O Carteiro
e o Poeta (1995); Não foi nada (1980); A velocidade do
amor (1989, e As bodas do poeta (1999), entre outros. Mineiro,
SantAnna é jornalista e escritor tem cerca de 40
livros publicados, entre eles Drummond: o gauce no tempo (1992);
e Que país é este?). Marina nasceu em Asmara, na
Etiópia, mas não é menos brasileira. Também
jornalista e escritora é casada com SantAnna. Tem
publicado vários livros e ensaios jornalísticos.
Entre eles, Eu sozinha (1968); Contos de amor rasgados (1986);
Eu sei mas não sabia (1996) e Intimidade pública
(1999); além de uma série de obras dedicados ao
público infantil). Os três dividem anseios e posições
semelhantes. Fragmentos desta entrevista já haviam sido
publicados na edição especial do Extra Classe que
circulou durante o evento e divulgada também no site do
Sinpro/RS. Agora nossos leitores poderão ler na íntegra
o conteúdo deste bate-papo.
Marcia
Camarano e César Fraga
Extra Classe
Skármeta, é muita responsabilidade ser poeta
e escritor no Chile, um país que deu ao mundo Pablo Neruda
e Gabriela Mistral?
Skármeta No Chile há uma epidemia grafomaníaca.
Todos são poetas. Um editor confessou, há um ano,
que, se todos que escrevem poesia no Chile lançassem um livro,
o mercado editorial estaria milionário. Desde que Pablo Neruda
ganhou o Prêmio Nobel, não há ninguém
que não tente alguns versos.
EC A globalização favorece ou empobrece
os países e povos que já têm uma certa tradição
em literatura?
Skármeta No Chile, se vem alguma informação,
alguma arte ou algum produto de fora, há a capacidade de
chilenalização muito rápida, se
vulgariza e se ironiza isso, se amestiça muito rápido
e se transforma numa espécie de paródia. Acho que
o talento da América Latina é a paródia frente
à globalização.
Affonso de Sant´Anna No Brasil, o processo é
muito parecido, existe essa vocação para a paródia
na cultura brasileira. Nos anos 50, por exemplo, Hollywood produzia
um determinado filme e imediatamente o cinema brasileiro fazia algo
em cima. É como querer ser ou tentar ser, só que de
cabeça para baixo. Além disso, a paródia é
sempre sintomática, ambígua. Agora, acho que a poesia
escapa à globalização por uma razão
muito simples: ela é contrabando. Apesar de todo mundo se
considerar poeta, ela é underground. Só uma minoria
faz boa poesia, ou uma poesia razoável. O maior poeta brasileiro,
pelo menos deste século, praticamente não tem tradução
nenhuma para outras línguas, que é o Drummond. Então
a obra não acontece social e historicamente, ao contrário
da novela, como a do Skármeta, por exemplo (O Carteiro
e o Poeta), que foi traduzida quase que simultaneamente no mundo
inteiro. A poesia é um código secreto, por isso não
entra na questão da globalização.
Marina Colasanti É preciso fazer, em primeiro
lugar, uma retrospectiva histórica: a exportação
de cultura, junto com a economia, existe desde antes do Império
Romano. Sempre o povo ou o país mais rico tentou impor a
sua cultura. E isso, embora tenha arrasado com algumas, fertilizou
outras. Os países ricos também se apropriam da cultura
alheia. Os maias se apropriaram da cultura dos etruscos. China e
Japão se apropriam da cultura um do outro. Isso sempre foi
ameaçador e de uma certa maneira sempre foi fertilizante.
Ao mesmo tempo em que uma cultura tenta se impor, cria-se uma resistência
que faz um caldo e que se nacionaliza, como diz o Skármeta.
Ou seja, existem mecanismos de defesa contra a invasão. Na
verdade o Brasil era um país de cultura francesa até
recentemente, por exemplo, já não o é. É
claro que a força dos veículos de massa hoje são
muito ameaçadores. A reação a isso está
na força cultural de cada país receptor.
EC Dá para viver de poesia?
Affonso Olha, sou professor aposentado, sou cronista.
Eu não vivo de literatura, eu vivo para a literatura, digamos.
Mas quando eu crescer, gostaria de ser escritor chileno (risos).
Marina Eu vivo de escrever. Aliás, sempre vivi
de escrever. No momento não estou na imprensa, estou sem
veículo. Mas posso dizer que vivo da literatura e de escrever.
De repente, me encomendaram um livro agora para até o final
do ano. Um livro sobre o Rio de Janeiro. Eu vou fazer, sou profissional.
Além disso faço conferências, palestras, oficinas.
EC Como está a poesia hoje? As pessoas estão
lendo e fazendo poesia? Quais as dificuldades?
Affonso Se a gente pedir a um jovem poeta brasileiro
que cite algum dos novos nomes da Alemanha ou da Espanha, ele não
sabe. A poesia hoje funciona em guetos. Tem dificuldades lingüísticas,
de tradução. Isso é bom e é ruim. A
poesia brasileira tem uma identidade muito forte, talvez graças
a não circulação. A poesia portuguesa é
muito diferente da brasileira. Ao passo que na ficção
há uma técnica de tratamento muito semelhante na França,
nos Estados Unidos, no Brasil. Agora, eu quero falar da importância
da Internet para o resgate dos poetas. Como as editoras não
se interessam comercialmente pela poesia, a Internet se transformou
numa autêntica porta de livraria, virou uma espécie
de revista literária eletrônica.
Skármeta Entre os escritores, são os
poetas os que têm menos visibilidade, mas são também
os que têm mais prestígio no mundo da cultura. A poesia
pode estar mais escondida, mas no mundo da cultura é a que
gera mais inteligência criativa. Porque as imagens são
mais determinantes, mais puras.
EC No caso de O Carteiro e o Poeta, foi o êxito
do filme que impulsionou o livro o foi o contrário. O êxito
editorial que empurrou a indústria cinematográfica
na direção da literatura?
Skármeta O livro já era um sucesso quando
o filme foi realizado. Tem méritos próprios. Na época,
já havia sido traduzido em 15 idiomas e vendia bem. Quando
saiu o filme no Brasil e em outros países, se ampliou enormemente
a visibilidade do livro. Nesse momento reuniu êxito
em grande escala. O êxito, esse sim, foi monstruoso. Tocou
o coração do público em todo o mundo. Também
os livros necessitam de apoio técnico para dar-lhes visibilidade.
Podes publicar o livro mais genial do mundo e, se ninguém
sabe dele, esse livro só existe na universidade ou na biblioteca.
Nada mais. Então o que quero dizer é que a visibilidade
da película O Carteiro e o Poeta se deu basicamente porque
a distribuidora internacional do filme gastou 2,5 milhões
de dólares em marketing, em publicidade. E o filme custou
4,5 milhões de dólares. Isso não se passa no
mercado editorial, por exemplo. Com alguns autores dos livros, a
quem a editora custa a pagar o terço do que é acordado
como escritor, imagine as despesas em publicidade de lançamento.
Na comparação com a indústria cinematográfica,
praticamente inexiste.
EC A poesia brasileira é de difícil tradução
para outros idiomas?
Affonso Sim, mas existe essa dificuldade dos dois lados.
Se você perguntar a um poeta jovem brasileiro para ele citar
o nome de um poeta jovem alemão, ou um poeta jovem espanhol,
ele não sabe. Ele pode falar de Neruda, no Chile, por exemplo.
Mas só os medalhões. Isso acontece por uma série
de fatores e de tradição de leitura. Existe uma dificuldade
lingüística, da tradução. Isso é
bom e ruim. A poesia brasileira tem uma identidade muito forte,
talvez graças a não-circulação. A poesia
portuguesa é muito diferente da brasileira. Ao passo que
a ficção, você pode ver uma certa maneira técnica
de tratar a ficção muito semelhante na França,
Estados Unidos. No Brasil existe uma disponibilidade técnica,
porém artesanal que dificulta tornar-se internacional.
EC A internet ajuda ou atrapalha no processo de divulgação
e até de consumo de literatura?
Affonso O assunto é muito vasto. Eu vou apenas
falar de um detalhe. Da importância da Internet para resgatar
os poetas. Quando as editoras não se interessam comercialmente
pela poesia, a Internet se transformou na autêntica porta
de livraria, transformou-se na revista literária eletrônica.
Qualquer poeta jovem que tenha um site na Internet, tem na página
de visita de seu site, cinco mil, dez mil visitas. E jamais venderia
300 exemplares do seu primeiro livro. E, no entanto, ela é
visitada maciçamente. O que é o ápice da tecnologia
veio ao encontro da coisa mais subjetiva que existe: a poesia. A
poesia está passando por um trânsito, com algumas conseqüências
imprevisíveis. Eu acho ótimo.
EC Então a tecnologia da Internet contribui com
a literatura...
Skármeta Entre os escritores aumenta a visibilidade.
Mas também dá ferramentas e inspira possibilidades
e estilos de poetas e antipoetas.
Affonso Parafraseando e brincando com o que o Skármeta
falou: o que o poeta precisa é de um carteiro. Ou em tempos
de eletrônica, de um site. Talvez, se o seu best seller fosse
escrito hoje, poderia se chamar O poeta, o carteiro e a internet.
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