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Umberto
Eco: Baudolino
É tudo mentira
César
Fraga
Divulgação
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Umberto
Eco volta a introjetar o debate acadêmico na ficção
com Baudolino
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Se queres
transformar-te num homem de letras, e, quem sabe um dia escrever
Histórias, deves também mentir, e inventar histórias,
pois senão a tua História ficaria monótona.
Mas terás que fazê-lo com moderação.
O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até
mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem
apenas sobre coisas grandiosas.
Esta citação de um diálogo escrito por Umberto
Eco pode ser bastante ilustrativa para a definição
de seu novo trabalho. O tema ficção tem ocupado
bastante a cabeça tanto do escritor como a do teórico
nas últimas décadas. Não poderia ser diferente.
O debate acadêmico impregnou também sua literatura
ficcional. Em seu mais recente romance, Baudolino (ed. Record
, 361 páginas) o quarto desde O Nome da Rosa, trata novamente
de seu tema favorito: ficção dentro da ficção
inserida na realidade. Mas não o velho recurso de contar
uma história dentro de outra história, mas sim debater
o tema por meio de sua narrativa. História e estórias
misturadas quase indistintas.
A origem desta preocupação reside no fato de a realidade
cotidiana estar impregnada de elementos ficcionais, ora no jornalismo,
nas religiões, lendas e na própria História.
O assunto já havia sido abordado em seu livro Seis Passeios
pelos Bosques da Ficção, em que fala sobre estruturas
narrativas e dedica um capítulo inteiro as teses conspiracionistas
reais, fundamentadas em ficção, e cita a gênese
dos Protocolos dos Sábios de Sião, - que seriam
um plano judaico-sionista internacional para dominação
do mundo, por meio da imprensa e da maçonaria. Os Protocolos,
que tiveram seguidores e detratores ao longo da História,
na verdade são fragmentos editados de obras literárias
que Eco desnuda uma a uma. Os resultados foram catastróficos.
Como sabemos, muita gente foi para os campos de concentração
nazistas durante a segunda guerra e ainda hoje nos conflitos do
Oriente Médio, infelizmente, muitas vezes os debates são
pautados sobre o tema. Em Cinco Escritos Morais, aborda ficção,
muitas vezes propagada pela imprensa, entendida e aceita geralmente
como verdade. As teses conspiracionistas e apocalípitcas
já haviam sido tema de Apocalípticos e Integrados
e serviram de fonte para O Pêndulo de Foucauld, seu segundo
Romance.

Mas o verdadeiro desafio de Eco está delatado em seus próprios
escritos: Se os mundos ficcionais são tão
confortáveis, por que não tentar ler o mundo real
como se fosse uma obra de ficção? Ou, se os mundos
ficcionais são tão pequenos e ilusoriamente tão
confortáveis por que não tentar criar mundos ficcionais
tão complexos, contraditórios e provocantes quanto
o mundo real? (Seis caminhos pelos bosques da ficção
pág 123)
Eco talvez busque uma literatura tão ambígua quanto
a vida. Tanto que, em A Ilha do Dia Anterior, romance que antecedeu
Baudolino, este caminho era apontado com nitidez. Para Eco, se
ficção é, na verdade, uma mentira, somente
suportável enquanto arte, nada melhor do que usar a figura
de um mentiroso com pretensões literárias como centro
arrativo de seu romance. Trata-se de Baudolino, personagem imaginário
que teria vivido à época da terceira cruzada, tendo
caído nas graças do rei germânico Federico
Hohenstaufen, O Barbarossa, que realmente existiu e conquistou
a região do Piemonte na Itália, de onde o próprio
Eco é natural, assim como seu personagem. No meio deste
cenário da Idade Média, entre 1152 e 1204, bem ao
gosto do escritor, desenrola-se a façanha de Baudolino,
entre templários e saques à Constantinopla.
Umberto Eco nasceu em Alessandria, Itália, em 1932. É
professor de Semiologia na Universidade de Bolonha e dirige a
revista VS. Entre suas obras destacam-se: Tratado geral de semiótica
(1975), Seis passeios pelo bosque da ficção (1994),
O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988) e A
ilha do dia anterior (1994).
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