Especiais da Jornada de Literatura 2001:

 


Umberto Eco: Baudolino

É tudo mentira

César Fraga

Divulgação
Umberto Eco volta a introjetar o debate acadêmico na ficção com Baudolino

“Se queres transformar-te num homem de letras, e, quem sabe um dia escrever Histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua História ficaria monótona. Mas terás que fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.”

Esta citação de um diálogo escrito por Umberto Eco pode ser bastante ilustrativa para a definição de seu novo trabalho. O tema ficção tem ocupado bastante a cabeça tanto do escritor como a do teórico nas últimas décadas. Não poderia ser diferente. O debate acadêmico impregnou também sua literatura ficcional. Em seu mais recente romance, Baudolino (ed. Record , 361 páginas) o quarto desde O Nome da Rosa, trata novamente de seu tema favorito: ficção dentro da ficção inserida na realidade. Mas não o velho recurso de contar uma história dentro de outra história, mas sim debater o tema por meio de sua narrativa. História e estórias misturadas quase indistintas.

A origem desta preocupação reside no fato de a “realidade” cotidiana estar impregnada de elementos ficcionais, ora no jornalismo, nas religiões, lendas e na própria História. O assunto já havia sido abordado em seu livro Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, em que fala sobre estruturas narrativas e dedica um capítulo inteiro as teses conspiracionistas reais, fundamentadas em ficção, e cita a gênese dos Protocolos dos Sábios de Sião, - que seriam um plano judaico-sionista internacional para dominação do mundo, por meio da imprensa e da maçonaria. Os “Protocolos”, que tiveram seguidores e detratores ao longo da História, na verdade são fragmentos editados de obras literárias que Eco desnuda uma a uma. Os resultados foram catastróficos. Como sabemos, muita gente foi para os campos de concentração nazistas durante a segunda guerra e ainda hoje nos conflitos do Oriente Médio, infelizmente, muitas vezes os debates são pautados sobre o tema. Em Cinco Escritos Morais, aborda ficção, muitas vezes propagada pela imprensa, entendida e aceita geralmente como verdade. As teses conspiracionistas e apocalípitcas já haviam sido tema de Apocalípticos e Integrados e serviram de fonte para O Pêndulo de Foucauld, seu segundo Romance.



Mas o verdadeiro desafio de Eco está delatado em seus próprios escritos: “Se os mundos ficcionais são tão confortáveis, por que não tentar ler o mundo real como se fosse uma obra de ficção? Ou, se os mundos ficcionais são tão pequenos e ilusoriamente tão confortáveis por que não tentar criar mundos ficcionais tão complexos, contraditórios e provocantes quanto o mundo real?” (Seis caminhos pelos bosques da ficção – pág 123)




Eco talvez busque uma literatura tão ambígua quanto a vida. Tanto que, em A Ilha do Dia Anterior, romance que antecedeu Baudolino, este caminho era apontado com nitidez. Para Eco, se ficção é, na verdade, uma mentira, somente suportável enquanto arte, nada melhor do que usar a figura de um mentiroso com pretensões literárias como centro arrativo de seu romance. Trata-se de Baudolino, personagem imaginário que teria vivido à época da terceira cruzada, tendo caído nas graças do rei germânico Federico Hohenstaufen, O Barbarossa, que realmente existiu e conquistou a região do Piemonte na Itália, de onde o próprio Eco é natural, assim como seu personagem. No meio deste cenário da Idade Média, entre 1152 e 1204, bem ao gosto do escritor, desenrola-se a façanha de Baudolino, entre templários e saques à Constantinopla.

Umberto Eco nasceu em Alessandria, Itália, em 1932. É professor de Semiologia na Universidade de Bolonha e dirige a revista VS. Entre suas obras destacam-se: Tratado geral de semiótica (1975), Seis passeios pelo bosque da ficção (1994), O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988) e A ilha do dia anterior (1994).


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