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Mais
que possível, um novo mundo é necessário
Um
novo mundo não apenas é possível mas absolutamente
necessário. Isso ficou evidente após o atentado
terrorista em Nova York no dia 11 de setembro. A construção
de um mundo mais justo e sobretudo voltado para a não-violência
deverá ser o ponto central da segunda edição
do Fórum Social Mundial que se realizará em Porto
Alegre entre 31 de janeiro e 5 de fevereiro de 2002. Mais do que
nunca, o Fórum Social Mundial, que, a partir do próximo
ano terá eventos similares e paralelos em outros pontos
do planeta, procurando maior abrangência e a certificação
de sua condição de alcance global, deverá
se constituir em um mostruário de idéias que levem
à construção do novo modelo que substitua
o atual abominável mundo novo gerado pela dominação
econômica de uns poucos em uma economia globalizada em favor
de quem tem mais e em detrimento dos que nada têm.
Jimi
Joe
Terminamos
um século com duas guerras mundiais e mais de 57 conflitos
localizados no mundo, muitos deles se desenrolando ainda hoje,
lembra o argentino Adolfo Perez Esquivel, Prêmio Nobel da
Paz de 1980. Esquivel esteve em Porto Alegre para o lançamento
da segunda edição do Fórum Social Mundial
no dia 11 de setembro, coincidindo com o ataque terrorista em
Nova York. Ainda sob o impacto imediato da notícia e das
imagens transmitidas ao vivo para o mundo todo, a comissão
do FSM reunida na Usina do Gasômetro na ocasião divulgou
uma nota condenando o ataque (veja trecho no quadro). A nota foi
lida por Esquivel na abertura da cerimônia de lançamento
do Fórum e o atentado passou a dar o tom nas falas e nas
entrevistas que se seguiram naquele dia e depois. Ficou evidente
para todos que a tragédia norte-americana cristalizou a
necessidade de um novo modelo econômico para o planeta,
baseado na justiça e inclusão de todos os segmentos
da população.
Ainda em fase de estruturação, o Fórum Social
Mundial 2002 tem comitês de mobilização atuando
em várias regiões do Brasil. A principal missão
desses comitês é divulgar o FSM em suas regiões,
mobilizando ONGs, sindicatos, igrejas, universidades e outros
movimentos sociais para que participem do evento em Porto Alegre.
No Rio Grande do Sul, têm se realizado plenárias
de preparação para o Fórum. Uma delas, realizada
no dia 25 de setembro, contou com a presença de Bernard
Cassen, editor do jornal Le Monde Diplomatique e presidente da
ONG francesa Attac, e teve como tema terrorismo e democracia.
Cassen falou sobre o impacto do atentado em Nova York e suas conseqüências
econômicas para o resto do mundo. Essas conseqüências
serão bem menores na Europa, onde 75% do processo de importação
e exportação se dá entre os próprios
países do continente europeu, avaliou. Cassen considera,
no entanto, que a situação pode se tornar muito
grave para os países latino-americanos que têm seu
comércio exterior atrelado aos Estados Unidos.
O historiador Paulo Vizentini, participante da mesma reunião,
já considera que apesar de um aumento na pressão
da situação internacional, haverá espaço
para mais ação. Vizentini acredita que, apesar do
choque gerado pelo ataque terrorista e pelos temores surgidos
quanto à possibilidade de retaliação por
parte dos norte-americanos, não é momento
de sentir medo, mas de mobilizar forças.
Dentro desse mesmo espírito, se insere o pensamento do
médico genovês Vittorio Agnoletto. Coordenador da
Liga Italiana de Luta Contra a Aids e um dos organizadores do
Fórum Social de Gênova, realizado em junho deste
ano, Agnoletto lembra que as dimensões do encontro de Gênova
foram muito grandes, reunindo 300 mil pessoas num protesto contra
a globalização. O Fórum Social de Gênova,
que acabou sendo marcado por uma violenta repressão policial
contra os constestadores, culminando com a morte de um deles,
foi uma atitude coletiva de resposta ao encontro do chamado G-8,
grupo de oito nações consideradas as mais poderosas
do planeta. Organizamos o Fórum por considerarmos
que não é justo oito chefes de estado se reunirem
para definir o destino de toda a Terra, observa Agnoletto.
E diz que as reuniões do G-8, ao contrário de eventos
como o Fórum Social Mundial, não têm pretensão
alguma de debater um futuro melhor para a humanidade, mas discutir
apenas os seus próprios interesses e assuntos de seu próprio
proveito.
O sul-africano Brian Ashley, diretor do Centro de Informação
e Desenvolvimento Alternativo (AIDC), que veio ao Brasil para
preparar o Tribunal Internacional dos Povos sobre a Dívida
Externa, que deverá ocorrer durante o FSM 2002, revelou
que o Fórum Social realizado em Durban, África do
Sul, entre 31 de agosto e 7 de setembro, paralelamente à
conferência da ONU sobre racismo, foi inspirado pelo primeiro
evento realizado em Porto Alegre em janeiro deste ano. O Tribunal
da Dívida Externa, segundo Carlos Tibúrcio, da Attac
e do Comitê Organizador do FSM, será montado nos
dias 2 e 3 de fevereiro em um espaço amplo, provavelmente
o ginásio Gigantinho, para abranger o maior número
de pessoas possível e ter representatividade. Brian Ashley
diz que a situação mundial de economia globalizada
tem massacrado os povos africanos. A África é
um continente pilhado, argumenta. A política
de ajustes do Fundo Monetário Internacional vem destruindo
o continente. Segundo Ashley, a África registra a
maior fuga de capitais em todo mundo, o que gera desemprego, doença
e fome. Hoje, 19 mil crianças morrem todos os dias
por viverem em condições precárias.
Reunião do Conselho Brasileiro do Fórum Social Mundial
realizada em São Paulo, no dia 19 de setembro, teve, como
principal ponto de discussão, a incorporação
do debate sobre a não-violência como ponto fundamental
da agenda do evento em sua segunda edição. Um dos
resultados da discussão foi a condenação
de todo o tipo de terrorismo, seja ele praticado pelo Estado ou
por grupos anônimos. Oded Grajew, presidente da Cives e
um dos organizadores brasileiros do Fórum Social Mundial,
observou que pouca gente acredita que esse novo mundo que
estamos querendo construir virá através da violência
ou do atual sistema econômico. Para ele, ainda
que existam aqueles que optam pela violência, uma solução
estrutural não surgirá daí. Sérgio
Haddad, da Abong, entidade que centraliza as ONGs brasileiras,
destacou que entre o terrorismo e a guerra, o Fórum
Social Mundial fica com a política e com o debate de idéias
e as mobilizações pacíficas.
A busca de um futuro melhor para a humanidade pela construção
de um novo modelo de economia mundial mais justo e menos excludente
baseado na não-violência é uma preocupação
de todos as entidades envolvidas na realização do
FSM. Ceci Juruá, do Comitê de Mobilização
do Rio de Janeiro, não vê o atentado de Nova York
como início de alguma nova situação mas,
sim, a continuidade de uma fase marcada pelo terrorismo de Estado
e do capital internacional. Novos tempos de paz, harmonia
e justiça requerem uma nova ordem internacional. Se faz
necessário defender o princípio da não-intervenção,
destaca. Carlos Tibúrcio, da Attac e membro do Comitê
Organizador do Fórum, que também esteve presente
no lançamento da segunda edição em Porto
Alegre, é incisivo quanto à participação
do evento na construção de uma nova ordem mundial
a partir da tragédia das torres gêmeas. Se
o Fórum Social Mundial não existisse, este seria
o momento para criá-lo.
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